Publicidade

Estado de Minas Moda

De Londres, gaúcho conecta artesãos mineiros a mulheres acima dos 40 anos

João Maraschin não segue tendências, resgata técnicas artesanais, usa materiais improváveis e mira em mulheres mais velhas


25/04/2021 04:00 - atualizado 26/04/2021 19:30

Feliz com o primeiro ano da marca, João Maraschin quer se aproximar do mercado brasileiro(foto: Lucas Fonseca/Divulgação)
Feliz com o primeiro ano da marca, João Maraschin quer se aproximar do mercado brasileiro (foto: Lucas Fonseca/Divulgação)

A moda brasileira está bem representada em Londres. João Maraschin, gaúcho de Caxias do Sul, que já trabalhou em Belo Horizonte como assistente de Ronaldo Fraga, realiza o sonho da carreira internacional com ousadia e originalidade. Há um ano, depois de estrear na passarela da London Fashion Week, a marca, que leva o seu nome, ganha visibilidade na contramão do mercado. Não segue tendências, resgata técnicas artesanais, usa materiais improváveis e mira em mulheres mais velhas.

As roupas são femininas e contemporâneas. Exibem formas minimalistas, mas, nas texturas, você encontra a riqueza dos trabalhos manuais. O estilista tem como compromisso preservar técnicas de artesanato, que são uma paixão. Quando volta ao passado, ele sempre se enxerga tricotando.
 
Uma lembrança marcante envolve sua tia-avó e as amigas, que se encontravam para fazer tricô, crochê e conversar. “Isso influenciou bastante a minha decisão de querer preservar a história. Venho de uma família grande e era o único primo que dava atenção ao que elas faziam. Técnicas são deixadas para trás e o conhecimento regional acaba se perdendo nesta transição de gerações”, comenta.
 
João entendeu que esse seria seu propósito como marca quando foi morar em Londres. Ele estudou por três anos na London College of Fashion. “Enquanto fazia meu curso, fui provocado a pensar em quem era, minhas origens, o que carrego da minha história particular. Percebi que o artesanato se tornou protagonista do meu trabalho; consequentemente, as técnicas manuais são algo forte para mim.”
 
(foto: Lucas Fonseca/Divulgação)
(foto: Lucas Fonseca/Divulgação)
A marca também se conecta com a sustentabilidade, algo que para João é inegociável. A moda em que ele acredita respeita o planeta e as pessoas envolvidas no processo. “Comparo sustentabilidade com qualidade. Nenhuma marca fala que tem ou não qualidade, isso é intrínseco ao processo, seja em qual nicho atua. A minha abordagem de sustentabilidade é a mesma. Mais que desenhar a próxima roupa, desenho novos sistemas de como fazer roupa respeitando as pessoas e os recursos naturais.”
 

Trabalho colaborativo

 
Pelo lado humano, o estilista chegou a um modelo de negócio em que desenvolve um trabalho colaborativo com os fornecedores. Sua visão criativa direciona o processo, mas ele não impõe nada. Tudo é decidido coletivamente. No momento, está em contato com artesãos de Belo Horizonte, Itabira e Caxias do Sul. Explora técnicas regionais, deslocando-as para o exercício contemporâneo de moda.
 
Em Itabira, ele conseguiu reativar um grupo de bordadeiras que estava parado. De longe, convidou as mulheres a bordar objetos, pessoas, frases e situações que refletissem o seu cotidiano. Uma desenhou o cachorro, outra a máquina de costura. A artesã que se casou no meio da pandemia quis mostrar sua felicidade em uma representação dela com o marido, as alianças e um coração. Frases como “A água está acabando” e “Não se mistura religião com política” complementam os desenhos.
 
As centenas de ilustrações estão bordadas em uma base dupla de tule que tem certa transparência. Quase não sobram espaços vazios de tantos elementos reunidos em uma única peça (saia e blusa). As sobras das linhas são mantidas e dão a ideia de um trabalho ainda em construção.
 
A conexão com as comunidades é intensa e contínua. Com vocação social, a marca quer garantir renda para os artesãos. “Estou na terceira coleção e continuo com os mesmos fornecedores. A relação duradora dá um pouco mais de segurança e de estrutura para essas pessoas, elas sabem que o projeto não vai terminar em dois meses e não vão ter que procurar o próximo trabalho. A minha grande vontade, daqui a 10 anos, é olhar para trás e ver que evoluímos juntos.”
 
(foto: Lucas Fonseca/Divulgação)
(foto: Lucas Fonseca/Divulgação)
 
Quando o assunto é matéria-prima, João sempre dá preferência para fibras naturais (melhor ainda se forem orgânicas) e materiais reciclados. “Trabalho muito com estoque parado. Isso faz parte da minha experiência em moda. Você sempre tem tecidos que vão ficar uma vida guardados e não vai utilizar”, explica o estilista, que tem buscado confecções parceiras.
 
O poliéster que usa é resultado do aproveitamento de resíduos de uma empresa de camisaria. O material serve como base para um blazer e uma calça, que também têm na composição algodão reciclado. A marca ainda desenvolve peças com seda que seria descartada.

Crochê com borracha

 
Materiais não convencionais na moda servem de impulso para a criatividade do estilista. Sempre disposto a experimentar algo novo, ele acabou fazendo crochê com borracha de câmara de ar de pneu de bicicleta, moto e caminhão. O material é limpo, tratado, cortado em tiras bem finas e vira um fio. Para fazer a calça pantalona, que pesa cinco quilos, utilizam-se mais de 40 câmaras de ar. A bainha ligeiramente enrolada é uma reação natural do material.
 
A borracha reciclada também aparece em uma sandália criada em colaboração com a designer britânica Tabitha Ringwood. Feita manualmente, ela pode ser usada no verão, com os pés à mostra, ou combinada com meias coloridas no inverno.
 
(foto: Lufré/Divulgação)
(foto: Lufré/Divulgação)
 
A ideia de aproveitar a palha da costa, normalmente usada para fazer chapéu, surgiu durante uma conversa com artesãs de Belo Horizonte. O material passa por um processo de amaciamento para se transformar em roupa. Usando conhecimento tradicional da cestaria e técnica do crochê tunisiano, as mulheres chegaram a uma trama indiscutivelmente bela. A partir disso, a escolha foi criar uma camisa de manga curta e fechamento com faixa, que marca a cintura.
 
A busca por novos materiais levou João a descobrir no Rio de Janeiro o couro de folha, alternativa sustentável ao couro animal. Depois de mais um ano de testes, a marca está pronta para lançar um vestido (que também funciona como casaco, por ser aberto na frente), uma jaqueta estilo biker e bolsas.
 
Inclusão e diversidade são outros conceitos importantes para a marca. João nunca quis fazer roupa para o público jovem. Desde o início, direcionou o seu trabalho para as mulheres acima dos 40 anos, público que enxerga valor em técnicas manuais e não se preocupa em seguir tendência. “Meu produto não é algo que você compra, veste e descarta. Proponho uma experiência mais aprofundada com os materiais e a moda.” Todas as modelos de prova de roupa e de campanha seguem o mesmo perfil.
 
A construção da roupa segue muito o que o estilista entendeu depois de uma pesquisa com mais de 50 mulheres em Londres. Ele também considerou o fato de que o corpo vai se transformando ao longo da vida e as medidas precisam mudar (na escala dos centímetros). “A moda normalmente olha para corpos jovens, de passarela, mas eu olhei na contramão disso. A minha modelagem, que é muito peculiar do meu trabalho, tem medidas totalmente diferentes do que aprendi na faculdade.”
 
(foto: Lucas Fonseca/Divulgação)
(foto: Lucas Fonseca/Divulgação)
 
As roupas são mais amplas e soltas, com um pouco mais de espaço para os movimentos e conforto para não revelar o que não se quer mostrar. “Ao mesmo tempo, quebro este paradigma. No estudo, vi que muitas mulheres gostam de usar peças mais curtas, mostrar colo, bíceps, o que muita gente acha que é tabu”, comenta o estilista.
 
As coleções transitam entre três intensidades de trabalho manual. Algumas peças são totalmente artesanais e se encaixam em ocasiões especiais, como a calça de borracha, a camisa de palha e a saia de listras coloridas tricotada com algodão reciclado. Roupas casuais que carregam técnicas manuais nos detalhes estão em outra categoria. Como exemplo, a camisa estruturada com bordado discreto no bolso. Na outra ponta, peças bem práticas para o dia a dia, entre elas uma camisa leve e solta de algodão.

Experiências intensas


Com 15 anos, já interessado em ser estilista, João entrou para o curso técnico de costura e modelagem na sua cidade, Caxias do Sul. “Basicamente, o público eram senhoras de mais idade e foi uma troca muito enriquecedora. Ali consolidei a vontade de continuar os estudos nesta área”, conta. No fim da faculdade, ele ganhou um prêmio ao fazer uma coleção que tinha muito de técnicas manuais. Um dos jurados era Ronaldo Fraga e essa foi a sua ponte para Minas Gerais.
 
Antes de se mudar para BH, a convite do estilista, o gaúcho passou por várias marcas do Sul, teve marca e loja próprias e fez cursos na Itália. Aqui trabalhou por dois anos como assistente de criação de Fraga. Na sequência, foi realizar seu sonho de morar fora do Brasil. “Sempre tive vontade de continuar os estudos no exterior, tentar carreira internacional, e Londres era uma referência para mim.”
 
(foto: Lucas Fonseca/Divulgação)
(foto: Lucas Fonseca/Divulgação)
João emendou pós-graduação e mestrado em design de moda na London College of Fashion. Neste meio tempo, trabalhou para Wales Bonner (moda masculina) e JW Anderson. “No fim do mestrado, participei do processo seletivo da London Fashion Week e foi o que abriu portas para mim. Sempre fui bastante empreendedor e, nestes três anos de estudos, pensando no meu propósito de moda, fazia mais sentido em pensar algo meu, ter voz para decidir o quê e como fazer.”
 
A marca estreou na semana de moda londrina em fevereiro do ano passado. O desfile fazia parte de uma iniciativa do Institute of Positive Fashion, ligado ao British Fashion Council, que dá visibilidade a negócios que têm compromisso com o meio ambiente e as pessoas. Logo depois decretaram lockdown em Londres, mas o estilista seguiu seu caminho. “Me sinto bastante feliz e orgulhoso do que consegui conquistar neste um ano.”
 
Na primeira edição on-line da London Fashion Week, em junho, João participou com uma sessão de fotos em que as roupas flutuam, sem modelo. Desde então, ele não se apresentou mais. Como não segue a lógica do mercado, só lança coleção quando tem o que mostrar.
 
(foto: Lucas Fonseca/Divulgação)
(foto: Lucas Fonseca/Divulgação)
 
Na marca, a máxima é respeitar o tempo de cada processo. Roupas feitas a mão, naturalmente, levam mais tempo, ainda mais na pandemia. “Decidimos, por segurança das artesãs, não fazer nada até abril. Não vou expor ninguém ao risco em função de uma coleção que quero lançar em determinada data. Não quero fazer um produto a qualquer custo”, defende. A próxima coleção está prevista para setembro.
 
Pelo tempo que os processos levam, João não descarta nada de uma coleção para outra. Nem mesmo as pesquisas. “Acho injusto engavetar uma pesquisa (a primeira levou dois anos) e seguir em frente, sem olhar mais para aquilo.” Tanto que a primeira e a segunda coleções são inspiradas em José Leonilson, artista que, assim como ele, usava materiais improváveis em seu trabalho. Os bordados das artesãs de Itabira fazem referência aos desenhos dele de caneta preta, que eram uma reação ao cotidiano.


receba nossa newsletter

Comece o dia com as notícias selecionadas pelo nosso editor

Cadastro realizado com sucesso!

*Para comentar, faça seu login ou assine

Publicidade