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Estado de Minas Entrevista

Neuropsicóloga fala como a rotina é importante para enfrentar o distanciamento social

Maira Okada de Oliveira também alerta para a necessidade de cuidar da saúde mental


postado em 12/07/2020 04:00 / atualizado em 12/07/2020 13:45

(foto: Global Brain Health Institute/Divulgação)
(foto: Global Brain Health Institute/Divulgação)

Nem mesmo para uma neuropsicóloga é fácil passar pelo isolamento. A paulistana Maira Okada de Oliveira, de 39 anos, viveu duas fases da quarentena. Ainda em março, ficou duas semanas sem sair de casa porque havia acabado de voltar do Peru. Depois, infectada pelo novo coranavírus, com dor no corpo, febre, dor de cabeça, falta de ar e sem olfato ou paladar, teve que se isolar no quarto para não contaminar a mãe. Somando o conhecimento com a experiência, a neuropsicóloga reforça a necessidade de se cuidar da saúde mental para enfrentar a pandemia. Segundo a especialista, parceira da empresa sueca Foreo, é muito importante manter uma rotina para conseguir lidar com os desafios de ficar a maior parte do tempo em casa. Maira também sugere encontrar atividades prazerosas, fazer exercício físico, cuidar da beleza e não se culpar por não ter o mesmo nível de produtividade de antes.
 
Fale primeiro sobre a sua formação.
Sou formada em psicologia desde 2007 e me especializei em neuropsicologia. Fiz mestrado sobre Alzheimer e declínio cognitivo, desenvolvendo um teste para fazer diagnósticos. Trabalho no Hospital Santa Marcelina, em São Paulo, com avaliação neuropsicológica. Atendo pacientes com algum comprometimento neurológico, déficit de atenção, hiperatividade, Alzheimer e eplepsia. Em 2018, participei do programa Global Brain Health Institute, em São Francisco, nos Estados Unidos, sobre saúde do cérebro, tentando pensar nessa questão nos países em desenvolvimento. O programa recruta pessoas com qualquer conhecimento que possa melhorar a saúde do cérebro, então tinha um fotógrafo do Peru, uma bailarina e um comediante de São Francisco, uma diretora de cinema de Nova York, uma fisioterapeuta brasileira que trabalha com poluição. Desenvolvemos uma pesquisa para traçar o perfil da demência na América Latina. Voltei para o Brasil em setembro e, quando começou a quarentena, estava no Peru para treinar pessoas para este projeto para fazer avaliação psicológica. Tivemos que interromper o treinamento. A telemedicina conseguiu se adequar de certa forma à pandemia, há algum tempo já estavam acontecendo atendimentos on-line de terapia, mas a avaliação cognitiva parou. Não tem como aplicar testes, você precisa estar ao lado da pessoa, saber se ela está em um lugar confortável. No momento, estou fazendo doutorado.

Como o isolamento afetou você psicologicamente?
Como moro com a minha mãe, que tem 76 anos, eu que saía para resolver as coisas, ir ao mercado. Quando fiquei doente, a situação se inverteu, a minha mãe idosa teve que sair e eu me sentia preocupada com a situação. Além disso, fiquei mais emotiva, com as emoções afloradas. No início, assistia jornal o tempo todo, via notícias de mortes, covas abertas, mas estava ficando preocupada demais. Foquei numa série e comecei a fazer meditação. Também tive muita insônia e pesadelos. Lembro que, em um dos primeiros, sonhei que tinha sido infectada e a pessoa que trabalhou comigo em São Francisco descobriu que eu ia sofrer muito com a doença, teria que ser entubada e “sacrificada”. Isso tudo vem da ansiedade que vivenciamos o dia inteiro. Pensar no futuro gera muito ansiedade. Você para de fazer atividade física e, alem da preocupação com a doença, tem que lidar com uma rotina completamente nova. Tem que se acostumar a hábitos que não tinha antes, como usar máscara, álcool gel, não poder beijar o filho quando chega em casa, ter que ir direto para o banho, não repetir a roupa, não entrar com sapato em casa. São várias mudanças. Para mim, ficar confinada em um quarto foi bem difícil. Tive medo o tempo todo de ser entubada, então tentava fazer exercícios de respiração. Fui fazer uma tomografia e, na hora de entrar no equipamento, comecei a ter sintomas de pânico, foi horrível. Isso tudo vem simbolicamente do medo de não conseguir respirar. Toda vez que ia para o hospital tinha medo de me falarem que teria que ir para a UTI. Hoje estou bem. Agora realmente me sinto mais tranquila por ter ficado doente, olha que loucura. Me dá um certo alívio saber que estou imune.

O que você indica para lidar com todas as emoções que surgem no isolamento?
Tenho indicado meditação (estou tentando fazer), ioga ou alguma outra atividade física em casa. Isso pode ajudar muito na questão do sono, porque a ansiedade nos atrapalha durante a noite. Existem vários aplicativos que podem ajudar nesta prática. Encontre alguma atividade que goste, leia um livro ou faça aquele curso que sempre quis fazer, mas nunca teve tempo. Como estamos com muito mais tempo vago, porque não podemos sair tanto de casa, acredito que seja importante ocupar a cabeça. Atividades manuais, por exemplo, são muito interessantes, porque trabalham outros sentidos e você se distrai. Muita gente começou a cozinhar na quarentena, fazer receitas novas. Acho importante valorizar o tempo em casa. Se conseguir, tome um pouco de sol, porque isso ajuda na regulação do sono. A falta de vitamina D afeta as nossas funções cognitivas, atenção, memória e pode gerar sintomas depressivos.

Qual é a importância de ter uma rotina?
É muito importante manter a rotina o máximo possível igual ao que era antes. Se você está em home office, acorde no horário a que estava acostumado, descontando o tempo em que ficaria no trânsito, e tome o seu café na mesa. A rotina é o que nos guia, é o que nos dá a sensação de segurança.

Os cuidados com a beleza também devem entrar nesta rotina?
Apesar de estarmos em uma rotina mais relaxada, não podemos deixar de cuidar do nosso corpo e da nossa saúde. O autocuidado não é só uma questão de se sentir bonito, isso é importante para você se sentir bem, valorizado, sentir que está pronto para qualquer desafio. Então, continue a passar hidratante, arrume o cabelo, cuide da sua pele. Dá vontade? Nem sempre, mas tente transformar isso em hábito para que seja inserido no seu dia a dia. Tudo bem querer ficar de pijamão no fim de semana, mas você precisa entender que na segunda-feira vai ter que retomar a rotina, tomar banho, se vestir adequadamente para trabalhar, isso é importante para não perder a referência. Referência nos dá segurança, por isso que as pessoas ficam perdidas com toda esta situação do país. Os governos brigam e você não sabe para que lado vai. Isso só piora a situação.

Muitas pessoas reclamam da pressão por produtividade neste período em que estão mais em casa. O que você tem a dizer sobre isso?
No início, via colegas falando nas redes sociais que estavam com tempo para ler 15 artigos, fazer aula espanhol e francês. Meu chefe dos Estados Unidos falava para a gente aproveitar para produzir, vinham cobranças de todos os lados. As minhas duas primeiras semanas foram horríveis, não conseguia me concentrar. Depois passei por uma fase bem produtiva, mas aí peguei a COVID-19. Achava que ia produzir o dia inteiro, mas não conseguia nem abrir o computador. O que tenho a dizer: não se cobrem. Não é verdade que as pessoas estão superprodutivas e vão produzir intensamente na quarentena inteira. Existe um certo bullying, uma pressão, mas cada caso é um caso. Parem de fazer isso. Talvez você que está falando em produtividade não tenha um filho berrando no seu ouvido, que precisa ser colocado na frente do computador para fazer aula on-line. Temos que prestar atenção na pressão que colocamos nas pessoas e perceber quando isso começa a ficar ruim. Cuidado também para não exagerar no trabalho. Você não fecha o computador, fica olhando toda hora o e-mail, fica preso nisso e, como não sai de casa, acaba trabalhando muito mais. Na minha fase mais produtiva, trabalhava o tempo todo.

Quando é a hora de procurar ajuda  profissional?
Quando você ou as pessoas ao seu redor começarem a perceber que não está legal. No começo, todo mundo sentiu essa angústia, mas agora já estamos há quatro meses em isolamento. Então, precisamos pensar em ajuda, se for o caso, para nos adaptarmos ao novo, para termos uma vida “normal” dentro do “novo normal”, não termos pensamentos negativos, conseguirmos nos cuidar, organizar a rotina. Você precisa olhar para a frente, tentar ser minimamente produtivo. Durante este percurso vamos ter altos e baixos, mas quando isso não está legal? Quando perdura muito, quando você não vê futuro, não vê muita motivação, sente desânimo, não tem vontade de sair da cama. Começa a ficar muito angustiado, tem pensamentos muito negativos, pensa em morte, começa a ter dificuldade de sono. Outro sinal é a mudança na alimentação, seja compulsividade ou inapetência, além de irritabilidade. É óbvio que, numa situação como esta, você vai ficar mais irritado, mas tem que perceber quando isso está passando dos limites, o outro está ficando muito magoado ou o seu comportamento interfere na rotina dos seus filhos. Temos que entender quando isso é muito deletério. Falo que é super importante procurar ajuda profissional, quando for preciso. Terapia é uma ferramenta de autoconhecimento em qualquer época da vida. Hoje em dia, o acesso a atendimento on-line é fácil.

O que podemos tirar de positivo de tudo isso?
O confinamento traz a oportunidade de nos curtirmos, fazermos atividades que envolvem criatividade, sair da mesmice de trabalho, computador e celular. Além disso, enxergo como positivos os processos de autocuidado e de autopercepção para entendermos os nossos sentimentos. Se você gostou de fazer atividade física em casa, leve esse hábito para a sua vida. Esse é um ponto positivo, transformar em hábito algo de prazeroso que descobriu na quarentena. Vejo casais que começaram a planejar jantares e nisso um conhece o outro mais profundamente. Tem também a questão da empatia. Para enfrentar a COVID-19, você precisa se cuidar e cuidar do outro. Você usa máscara não só para se proteger, mas para proteger o outro. Acho que começamos a enxergar a questão do coletivo, o quanto precisamos das outras pessoas, que não dá para termos atitudes egoístas. As pessoas ficaram mais solidárias, porque viram que todo mundo pode ser atingido pela doença. Sem dúvida, sou privilegiada, porque tenho recurso para me tratar e ficar bem, mas a doença não escolhe as pessoas que vai infectar. Tirando a questão socioeconômica, vejo muito mais coisas positivas do que negativas, é uma mudança que veio para mostrar o quanto somos resilientes. Resiliência é a propriedade do material de se deformar e voltar ao que era antes. Usamos muito esse conceito na psicologia, que tem a ver com adptação, o quanto o ser humano é capaz de se adaptar. A capacidade de lidar com as adversidades é muito importante, e vimos que conseguimos tirar leite de pedra, vide, por exemplo, as lives e as séries gravadas remotamente. 


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