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História envolvente

À frente do estilo da marca de tricô Coven, Liliane Rebehy volta o seu olhar para a região do Vale do Jequitinhonha em coleção que exalta o trabalho manual de bordadeiras e tecelãs


postado em 05/05/2019 05:08

(foto: Fotos: Hick Duarte/Divulgação)
(foto: Fotos: Hick Duarte/Divulgação)

A intenção era conhecer pessoas. Quando viajou para o Vale do Jequitinhonha, Liliane Rebehy não tinha planos de buscar inspiração para o seu trabalho na Coven. Mas tudo mudou em instantes. “Foi uma experiência tão emocionante, mexeu tanto comigo, que não conseguia me desligar da história. Tinha trazido uma colcha feito por uma senhora, de uma simplicidade impressionante, e só ficava pensando naquelas pessoas. Então, me perguntei: por que não fazer uma coleção?”, conta. Neste inverno, a marca de tricô propõe uma imersão pela cultura da região no interior de Minas.

Durante a viagem, a estilista acompanhou o dia a dia de bordadeiras e tecelãs. Na coleção, ela quis ressaltar os dois trabalhos, que são muito característicos da região. Liliane conta que o próprio tear a inspirou a desenvolver os tricôs. “As listras que mesclam fios com cores diferentes são muito comuns, porque as mulheres vão usando as sobras de várias linhas. Isso foi muito inspirador”, aponta. Peças como casaco, saia e poncho lembram bastante as colchas de lá, inclusive pela barra desfiada.

Na hora de desenvolver as estampas, a marca se voltou para os desenhos de Diogo, filho de uma das artesãs. O jovem de 18 anos faz os riscos que servem como referência para os bordados. Sem querer, ele acaba revelando o seu olhar para o cotidiano. “Fizemos reinterpretações dos desenhos do Diogo, que são muito primitivos, para levá-los para o tricô, mas respeitamos muito o que é essência do trabalho dele”, garante. A estilista apenas escolheu as cores, o tamanho e a localização dos desenhos nas roupas.

Liliane levou para a coleção o rosto de um burro (com um cacto ao lado) e uma árvore com galhos secos. “Em uma outra imagem, temos uma fila de mulheres indo para a casa onde bordam. Todas têm uma fisionomia muito peculiar”, acrescenta. Os desenhos são explorados como estampas localizadas em camisetas de malha e blusas de couro e em forma de bordados na linha de camisas de tricoline. Já em casacos e ponchos cinza mescla, aparecem na versão de jacquard.

Além do tricô, a marca tem trabalhado com tecidos planos, pensando em oferecer um mix mais variado de produtos. Dessa vez, a ideia era privilegiar fibras naturais, como a sarja, que faz parte do contexto do Vale do Jequitinhonha. “Quando percorremos a coleção, vemos toda uma coerência na escolha da matéria-prima. Entramos com o couro, que tem a ver com o tema, porque lá tem essa cultura do cortume. Tudo isso foi criando uma atmosfera.” A madeira está presente em todos os acessórios, desde a fivela dos cintos, passando pelo salto dos sapatos, até chegar à alça das bolsas.

Nesta coleção, a estilista investiu em volumes e modelagens mais distantes do corpo. Como exemplo, calças um pouco mais largas (com estruturas bem marcadas e pregas profundas), cardigãs no estilo oversized e casacos mais longos (que são clássicos da marca).

Liliane também aposta em macacões com cara de uniforme, blusas de gola alta, casacos esportivos, saias longas e vestidos que mostram muita feminilidade. “Cada vez mais estamos fazendo vestido que levam o tricô para o lado da sofisticação e da leveza, até com uma certa transparência. É uma roupa que pode ir a qualquer lugar, inclusive uma festa”, analisa. No inverno, vem forte a alfaiataria no tricô, revelando um trabalho primoroso da marca.

Sobre as cores, a cartela privilegia tons presentes no Vale do Jequitinhonha, entre eles terrosos, off white e preto. A surpresa fica por conta de três cores fluorescentes. “Não poderíamos fazer uma interpretação muito regionalista, porque a Coven é uma marca muito urbana, então entramos com tons mais elétricos”, aponta. São eles: verde limão, laranja e azul.

IDENTIDADE O envolvimento de Liliane com o Vale do Jequitinhonha começou há quase dois anos. A estilista se dispôs a doar fios do seu estoque para um projeto da artista têxtil Ana Vaz, que havia sido convidada para desenvolver um projeto com as bordadeiras de lá, com o objetivo de resgatar a identidade desse trabalho manual. Disso surgiu a ideia de criar uma linha de camisas, com os tecidos da Coven e os bordados das artesãs. As peças, até então soltas, deram ainda mais sentido a esta coleção.

Segundo a estilista, este é um dos trabalhos mais envolventes da história da marca. Coincide com um momento em que ela tenta se conectar com temas que tocam mais o coração. Liliane ficou impressionada de ver como os moradores daquela região carregam verdade, autenticidade e integridade incomuns. “São pessoas muito mais genuínas. A forma calorosa como te recebem, a pureza que preservam, isso não é comum, nem mesmo em outros interiores”, observa.

Liliane acompanhou, com interesse, o resgate da autoestima dessas mulheres. Na primeira visita, uma das tecelãs, Dona Ana, não queria nem mostrar as suas colchas de tanta vergonha. Depois de um tempo, confiança conquistada, ela não escondia a alegria de descobrir que alguém admirava o seu trabalho. Para a estilista da Coven, esse é maior ganho e a parceria precisa continuar. “Quero encontrar uma forma de dar continuidade ao trabalho para que elas não saiam dos holofotes e caiam no esquecimento.” A marca planeja continuar usando os bordados da região.


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