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Estado de Minas

Memória do calçado

História da feira caminha junto com a do setor calçadista brasileiro. A 46ª edição começa amanhã, no Expo Center Norte, em São Paulo, lançando as coleções para inverno


postado em 13/01/2019 05:06

Francisco Santos (primeiro à esquerda) escuta discurso de Brizola, na 11ª Couromoda, no Riocentro, em 1984(foto: couromoda/divulgação)
Francisco Santos (primeiro à esquerda) escuta discurso de Brizola, na 11ª Couromoda, no Riocentro, em 1984 (foto: couromoda/divulgação)


O plano do gaúcho Francisco Santos era fazer um curso de cinema em Roma, já que, durante alguns anos, esteve ligado à produção de audiovisuais, mas logo após participar da exposição Brazil Export – uma iniciativa do governo para ampliar as exportações de produtos acabados – em 1973, em Bruxelas, na Bélgica, deu uma guinada na vida e decidiu que iria se dedicar às feiras de calçados. Com seu espírito visionário, entre essa data e 1975 dedicou-se a divulgar a ideia e a conclamar as empresas do setor a investir nela, o que culminou na inauguração da primeira Couromoda, que está completando 46 anos. Amanhã começa mais uma edição lançando as novidades para o inverno.


“O nosso desejo inicial era criar um circuito brasileiro de moda com eventos em outras cidades do país, além de Novo Hamburgo e Franca, mas não vingou. Então, nos concentramos em um trabalho pelo interior de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, para ter um evento nacional no Rio”, conta Francisco, hoje presidente do conselho da empresa, uma vez que passou a batuta para o filho, Jefferson Santos. A longevidade da Couromoda, ao que parece, está garantida: o neto, de 21 anos, demonstrou interesse em participar do negócio criado pelo avô, e já está em plena atividade.


A primeira edição da Couromoda foi realizada em fevereiro de 1975, no Hotel Nacional da capital carioca, com cerca de 70 expositores, entre eles Arezzo, dos irmãos mineiros Anderson e Jefferson Birman, que davam seus primeiros passos no mercado, parceiros de primeira hora. “O Rio de Janeiro era o tambor do Brasil, a Cidade Maravilhosa. O termômetro da moda estava em Ipanema com suas butiques elegantes, vendendo produtos que eram trazidos de fora, uma vez que a produção nacional praticamente não existia. Os eventos aconteciam nos hotéis Nacional e Intercontinental, na Praia de São Conrado, famosa naquele momento”, ele relembra.


As feiras profissionais para o segmento moda no Brasil também estavam no início: a Fenit, criada pelo publicitário Caio de Alcântara Machado para promover a indústria têxtil, no final da década de 1950, já existia e fazia sucesso, mas seu formato não funcionou como modelo para a criação da Couromoda. “ A Fenit era mais cosmopolita e a indústria de calçados é, predominantemente, com muito orgulho, até hoje de gente do interior. Tivemos que trabalhar dentro das fábricas para conseguir levar o pessoal para a nossa feira”, afirma o empresário. Segundo ele, o setor era muito modesto na época. “Os fabricantes ficavam esperando, em casa, os lojistas compradores. Os representantes encontravam muitas dificuldades para trabalhar, não havia nem estradas direito. A expectativa era pouca. Mas, no final, nós conseguimos levar os expositores aos centros consumidores.”

Prosperidade O crescimento da Couromoda foi constante. O resultado positivo da primeira edição fez com que, na segunda, realizada em julho de 1976, a área ocupada duplicasse, assim como o número de participantes. Na terceira, passou a ocupar 12 andares do Hotel Nacional, recebendo a visitação de 2,4 mil varejistas de todo o país, interessados nas novidades lançadas por 240 expositores.


Em 1979, sua performance de sucesso abriu espaço para outra ação importante, desta vez no exterior, credenciando-a como coordenadora do programa Shoes from Brazil, que consistia em levar empresas brasileiras para participar de eventos em vários países com objetivo de incentivar a exportação. “Foram mais de 100 participações no mercado internacional, Europa, Estados Unidos, América Latina, isso até 2002. A partir de então, essa movimentação ficou a cargo da Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos)”, explica Francisco.


Em 1984, a feira já contava com 450 participantes, e chegava ao Riocentro completamente horizontalizada. Na ocasião, recebeu a visita de 337 importadores, ganhando relevância internacional e destaque no calendário mundial. Importante lembrar que a Couromoda sempre foi prestigiada por presidentes, governadores, ministros de Estado, presentes nas inaugurações, dada a à sua expressão econômica. Nos bons tempos e até hoje, celebridades percorrem seus corredores, seja a convite dos promotores ou dos proprietários das marcas participantes. Outra atração são os desfiles que, frequentemente, constam da programação, girando em torno dos lançamentos de inverno..


A partir de 1986, se transfere para o Parque de Exposições do Anhembi, na capital paulista. De acordo com Francisco, “o cenário se modificou com a mudança dos players para São Paulo, interior de São Paulo, Minas Gerais, estados mais compatíveis para os empresários”. Em 1995, chega ao ápice com um total de 705 empresas expositoras. Desde 2015, é realizada no Expocenter Norte.


A história da Couromoda, pode-se dizer, caminhou junto com a do setor calçadista do Brasil. Seu fundador não sabe citar exatamente os seus momentos mais marcantes. Para ele, significativo é o fato de ter trazido as empresas para os grandes centros para que tivessem a atenção da mídia. E a certeza de que o evento que criou se tornou o maior na área de calçados e artigos de couro da América Latina, e importante plataforma de negócios entre a indústria e o varejo. “A Couromoda não é só uma promotora de feiras, é uma instituição setorial”, afirma.

Informação Outro ponto positivo sempre foi a preocupação da organização em oferecer informações de qualidade sobre o mercado com o intuito de ajudar os dirigentes das empresas nas suas decisões. Isso muito antes do advento da internet e da globalização. Em 1980, por exemplo, quando a moda propriamente dita começava a dar as caras no Brasil, realizou, em novembro, no Hotel Hilton, em São Paulo, a primeira Pré-Coleções, para apresentar as tendências - matérias-primas, formas e cartela de cores – que iriam compor os calçados e bolsas a serem apresentados em janeiro. A partir de então, essa foi a política adotada. Outro exemplo: na sua 41ª edição, a atração foi a exposição A história do sapato no século 20, inspirada no livro da fotógrafa Linda Conde. Foram mostradas 110 peças do seu acervo pessoal, como sapatos pertencentes ao bailarino Michail Baryshnikov, além de grifes internacionais como Dior, Prada, Chanel, Yves Saint Laurent e Charles Dune.


Fóruns, conferências, palestras e mostras também integram a programação. Nesta edição 2019, o Fórum Couromoda será realizado hoje, com apresentação dos resultados da 3ª edição da pesquisa Perfil do Varejo Brasileiro de calçados, organizada e patrocinada pela promotora. Estão agendados também os seminários, durante os três primeiros dias.


A Couromoda contribuiu ainda para a formação de várias associações representativas, que surgiram como decorrência da evolução do mercado, como a Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) – ou a Associação Brasileira de Lojistas de Artefatos e Calçados (Ablac), entre outras. “Não somos os responsáveis, mas acredito que influenciamos no desenvolvimento dessas instituições. Hoje estamos todos – as indústrias de matérias-primas, varejistas e fabricantes – na mesma mesa.” Francisco não esconde as expectativas positivas com relação ao novo governo do país, enxergando perspectivas de crescimento do segmento e oportunidades de geração de empregos, particularmente nos municípios. “O mercado diminui muito, está hoje com até 35% de capacidade ociosa. Mas dou um voto de confiança que este quadro melhore em função das novas políticas econômicas que vêm aí para que possamos crescer internamente e voltemos a exportar, embora considere que o capital do nosso setor seja o mercado interno.”


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