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Estado de Minas SERTÃO GRANDE

Estradas que impulsionaram cerrado mineiro travam desenvolvimento

Pistas ruins e trechos em terra mantêm o mal como nos dias de Rosa: à espreita em cada curva


postado em 28/03/2012 06:00 / atualizado em 29/03/2012 08:57

Ônibus passa pela zona rural de São Francisco, em trecho estadual onde a lama castiga quando sol e poeira dão trégua(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
Ônibus passa pela zona rural de São Francisco, em trecho estadual onde a lama castiga quando sol e poeira dão trégua (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
 

Paracatu, Pirapora e São Francisco - A "boa estrada rodageira" citada na frase destacada no alto desta página, de Riobaldo Tatarana, protagonista de Grande sertão: veredas, foi inaugurada pelo então presidente da República, Juscelino Kubistschek (1902-1976) em 1961, cinco anos depois do lançamento do romance. Trata-se da BR-040, que ligou Belo Horizonte a Brasília, fundada em 1960. De lá para cá, o asfalto atraiu indústrias, fomentou o comércio, beneficiou o agronegócio e impulsionou o turismo e o setor de serviços no cerrado mineiro. A importância que a via teve para o desenvolvimento da região é incontestável. Mas 51 anos depois também é indiscutível a conclusão de que, nos dias de hoje, Riobaldo iria se referir a boa parte da 040 como "a perigosa e ultrapassada estrada rodageira".

Os 424 quilômetros da divisa de Minas com Goiás ao trevo de Curvelo não têm pista duplicada, acostamento adequado e barreira física entre direções opostas. Os predicados negativos causam prejuízo aos setores produtivos e põem em risco motoristas e passageiros. Para ter ideia do perigo, a pior tragédia na malha viária que corta o estado, em 2012, ocorreu justamente na 040. Em 17 de março, 15 pessoas morreram numa batida, próximo a Curvelo, entre um ônibus e uma carreta. O condutor do coletivo é suspeito de tentar uma ultrapassagem em ponto proibido, mas a colisão poderia ser evitada se a pista fosse duplicada e separada da direção contrária por barreira física.

A tragédia não deixa dúvidas de que a "boa estrada rodageira" parou no tempo. Mas tal rodovia não é o único problema viário do cerrado mineiro. A BR-365, que liga a própria 040 a Pirapora, tem as mesmas características traiçoeiras. Ambas são de responsabilidade da União e não há previsão, segundo o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), para serem duplicadas. A última grande intervenção que as rodovias sofreram foi a revitalização do asfalto, ao longo dos últimos dois anos. A medida é considerada mínima diante da importância das duas estradas e das condições em que se encontram.

Rodovias de responsabilidade do governo de Minas também trazem problemas para o sertanejo. Os 55 quilômetros da MG-161 que ligam São Francisco a São Romão, cidades visitadas por mais de uma vez pelos cabras criados por Guimarães Rosa, são de chão batido. Da mesma forma, os 59 quilômetros entre Corinto e Andrequicé, distrito de Três Marias e povoado onde Manuelzão morava. No sol, viajantes sofrem com a poeira. Na chuva, o lamento é a lama. A Secretaria de Transportes e Obras Públicas do governo de Minas informou que, em relação à MG-220, o projeto de engenharia para a pavimentação está em fase de execução.


Já os projetos da 161 foram concluídos e o próximo passo é a licitação para as obras. Mas há um detalhe: o órgão não tem previsão de quando as obras terão início. Na prática, muitos caminhos no sertão continuam semelhantes aos do tempo de Riobaldo e seu bando. A morosidade das várias esferas do governo - devido à falta de recursos, burocracia ou outros motivos - em duplicar e readequar trechos viários aos padrões considerados ideais e adequados aos dias de hoje contrasta com a importância do asfalto para o desenvolvimento da economia dos municípios que margeiam a 040, como Paracatu, uma das últimas vilas do ciclo áureo do ouro em Minas.

Ainda hoje, o metal nobre dita o ritmo da economia da cidade, antigamente chamada de Vila de Paracatu do Príncipe. Em 2011, a canadense Kinross Gold Corporation, maior empresa do setor no país, extraiu 453 mil onças %u2013 ou 14 toneladas %u2013 da mina Morro do Ouro. A empresa, cujo investimento de 2007 a dezembro de 2012 terá somado US$ 814 milhões, emprega 1,3 mil funcionários diretos e 3,4 mil indiretos. Centenas deles moram em hotéis da cidade, o que levou o empresário Vicente de Paula Ferreira a construir o Eldorado, com 104 quartos, ao custo de R$ 10 milhões. O local, que emprega 50 pessoas e foi inaugurado há poucos meses, foi erguido próximo às duas lojas dele, uma de calçados e outra de vestuário. "Nossa economia está em ascendência", comemora.

O técnico em segurança do trabalho João de Moura, de 52, define bem como está o mercado de trabalho na cidade: "Paracatu, hoje, significa vem %u2018pra cá tu%u2019 também". A Votorantim também chegou à cidade depois da abertura da BR-040. A empresa, que emprega 2,4 mil pessoas, entre vagas diretas e indiretas, extraiu 62 mil toneladas de concentrado de zinco sulfetado em 2011. O volume previsto para 2012 é de 68,56 mil toneladas %u2013 aumento de 10,5%. O zinco é usado na composição de ligas metálicas (latão e bronze), telhas e calhas residenciais, vergalhões, pregos, chapa da indústria automobilística e até pela indústria farmacêutica, pois intervém no metabolismo de proteínas e ácidos nucleicos e estimula a atividade de mais de cem enzimas.

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