Publicidade

Estado de Minas SERTÃO GRANDE

Tropeiros do século 21 dispensam os animais e ganham agilidade ao volante de caminhonetes

Cavalos agora vão no motor


postado em 27/03/2012 07:50 / atualizado em 27/03/2012 08:05

(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)

São Romão, Lontra e Buenópolis – Por décadas, tropas de burros como a que cruzou o caminho do bando liderado por Riobaldo Tatarana, o protagonista de Grande sertão: veredas, conforme trecho do livro no alto desta página, eram a única forma de sertanejos dos grotões de difícil acesso receberem mantimentos e objetos em casa. Os tropeiros de hoje ainda fazem longas viagens e passam meses longe da família para vender suas mercadorias, de porta em porta, no Norte de Minas. Mas eles não sofrem mais com os trotes de jumentos, burros ou cavalos: os tropeiros do século 21 trocaram as montarias por potentes caminhonetes e motos. Alguns recorreram a carrinhos de mão, que são transportados, de uma cidade a outra, nos bagageiros dos ônibus.

Esse é o tema da terceira reportagem da série Sertão grande, que o Estado de Minas publica desde domingo. O paraibano João Matias, de 28 anos, é da nova geração de tropeiros. Natural de Paulista, onde mora com a mulher e o casal de filhos, ele passa quatro meses longe da família toda vez que abastece a carroceria de sua caminhonete com redes de pano, chapéus e sandálias feitos de couro de bode, cadeiras de madeira e diversas bugigangas, oferecidas no cerrado de Minas e no Nordeste do país. “Vida de tropeiro não é fácil, mas já foi bem mais difícil. As caminhonetes comportam bastante mercadoria e são mais confortáveis que o lombo dos cavalos.”

Há outras diferenças entre os tropeiros de hoje e os dos anos 1950, quando Guimarães Rosa viajou pelo interior de Minas para escrever o romance. Naquela década, a população brasileira somava pouco mais de 52 milhões de pessoas. Em 2010, no último censo, o país já contava com 190 milhões de habitantes. Riobaldo, o jagunço letrado, comentou a demografia do Norte de Minas daqueles tempos nas páginas do romance de Rosa: “Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos, onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde o criminoso vive seu cristo-jesus, arredando do arrocho de autoridade”.

João Matias, o tropeiro moderno, não percorre, como os colegas de antigamente, longas distâncias sem avistar cidades, distritos ou povoados. Em Lontra, município com cerca de 10 mil habitantes e a 510 quilômetros de BH, ele foi chegando e vendendo, por R$ 10, um chapéu de couro de bode ao vaqueiro Osmar Gonçalves, de 56. O acessório caiu bem no dono, que se recorda do tempo em que tropas de burros e mulas passavam por aquelas bandas. “Esse tempo acabou”, lamentou o vaqueiro sem esconder a nostalgia. O fazendeiro José da Fonseca Leal, de 85, o seu Nozinho, é outro que sente saudades daquela época. Morador da área rural de Três Marias, ele era amigo de Manuelzão e “dos outros vaqueiros” que rasgaram o sertão ao lado de Guimarães Rosa.

“Também levei gado daqui para BH. Não havia asfalto. A jornada era longa, de 10 ou mais dias. O gado precisava atravessar rios a nado, porque (o trecho) carecia de pontes. Os animais, agora, seguem (para os abatedouro) em caminhões. É mais prático e barato”, recordou. Um dos pontos de encontro dos tropeiros no início da década de 1950 era o porto da histórica São Romão, antiga Vila Risonha, cujo povoamento começou por volta de 1670. Banhado pelo Rio São Francisco, o município foi o primeiro a ter um porto comercial.

Sal, farinha e polvilho


“Mercadorias como sacos de sal eram descarregadas de embarcações e distribuídas a outros lugares (em lombo de burros)”, conta o artista plástico Telêmaco Uga, de São Romão, cujo passatempo predileto é pesquisar sobre o passado de sua terra natal. O pai do baiano Joaquim Alves Pereira, de 50, criou os 15 filhos “na tropeiragem”. “O velho vendia farinha e polvilho para biscoitos. Quando eu era adolescente, o acompanhei diversas vezes nas viagens que fazia a cavalo. Era difícil”, recorda o homem, que hoje mora em Taiobeiras, Norte de Minas.

Joaquim decidiu seguir a profissão do pai. Ele percorre cidades do sertão do estado para vender, de porta em porta, colheres de alumínio, cintos de couro e pano, pomadas, remédios à base de raízes. A diferença entre os dois não está apenas no tipo de mercadorias. Joaquim não faz o percurso mais a cavalo: comprou um carrinho de mão. “É mais prático. Desmonto-o e o coloco em bagageiros de ônibus quando viajo de uma cidade para outra”, explicou o baiano, que costuma ficar mais de um mês longe da mulher e do filho, de 14 anos. “Estou há 40 dias fora de casa. A saudade deles é enorme. Não consigo descrever, mas preciso garantir o nosso ganha-pão”, acrescentou durante andança por Buenópolis.

Há quem concorde que Joaquim é tropeiro da nova geração. Contudo, há quem diga que ele é uma espécie de camelô ambulante. Para o baiano, tanto faz. Se consultasse Riobaldo Tatarana para lhe pôr fim à duvida, talvez o jagunço lhe respondesse o mesmo que disse a um “doutor” da capital sobre o sertão: “Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães…”.

Rosianas

Fim do porto


Trote de tropeiros, nos dias de hoje, é difícil de flagrar nos grotões mineiros. Já o ranger de carros de boi ainda é ouvido com frequência em regiões percorridas por Riobaldo e Diadorim. Quem seguir pelos 150 quilômetros da estrada de terra entre Januária e Chapada Gaúcha poderá encontrar Tarcísio de Oliveira, de 35 anos (foto). Ele guia os bois Garimpo e Garimpeiro quando precisa buscar lenha. Uma vez por mês, recorre aos animais para levar sacos de esterco a jardineiros daquelas bandas. “Cada pacote, de oito quilos, sai a R$ 4. É esterco do bom”, propagandeia. Em Lontra, Edelson Mendes, de 42, é outro que ganha a vida com a ajuda de nelores. Todas as manhãs, ele leva Cigano, Goiano, Marechal e Mazoni para pastar. “Faço frete de areia e entulho.” Quilômetros adiante, no Vale do Urucuia, o trânsito de carros de boi também é frequente. Riobaldo Tatarana deve ter cruzado com muitos deles. Do contrário, não teria dito que “rio meu de amor é o Urucuia, onde tanto boi berra”.


Publicidade