Publicidade

Estado de Minas DESAFIOS DE MINAS

"O capitalismo terá de mudar"

Para viver num mundo com 9 bilhões de pessoas sem esgotar os recursos naturais já em 2050, empresas e sociedade terão de rever conceitos sobre produção e consumo e descobrir soluções baseadas em inovação e tecnologia. Este é o centro do debate proposto pela economista Raquel Grassi, da Fundação Dom Cabral.


postado em 28/06/2012 10:45 / atualizado em 28/06/2012 14:17

O desenvolvimento sustentável não é mais uma opção para empresas, governos ou comunidades. É uma necessidade imperiosa num mundo que enfrenta grave escassez de recursos naturais, ao mesmo tempo em que vê a população aumentar de forma explosiva. Se não houver um esforço coletivo e bem-sucedido, o planeta poderá ficar insustentável já a partir de 2050 – e grande parte do dever de casa para evitar que isto ocorra cabe às empresas, que precisam se reinventar e modificar seus processos produtivos. É o que mostra, na entrevista a seguir, a economista e administradora de empresas Raquel Grassi, coordenadora do Núcleo Petrobras de Sustentabilidade da Fundação Dom Cabral (FDC). Apesar dos desafios, Raquel mantém o otimismo. “Eu acredito na capacidade do ser humano”, garante.

ENCONTRO – O que é desenvolvimento sustentável?
RAQUEL GRASSI – O conceito vigente define sustentabilidade como o desenvolvimento econômico capaz de preservar os recursos naturais e a qualidade de vida para esta geração e as gerações futuras. Se uma atividade econômica tiver grande impacto sobre o clima, a água e a sociedade, então ela não é sustentável. Este conceito não era tão claro na década de 1980. Agora é que começou a ganhar corpo.

ENCONTRO – O que mudou da década de 1980 para os dias atuais? O que fez com que a sustentabilidade começasse a ganhar uma dimensão maior?
RAQUEL GRASSI – Basicamente, a população mundial. Na década de 1990, o mundo tinha 4,5 bilhões de pessoas. Hoje, somos 7 bilhões. Mas os recursos naturais continuam os mesmos. Ao contrário da população, eles não crescem. Ou seja, a população aumenta cada vez mais e pressiona a demanda por recursos naturais, mas o que ocorre é que esses recursos estão cada vez mais escassos. Se o processo produtivo econômico e o consumo global continuarem como estão, a curva do crescimento da população vai cruzar com a curva da redução dos recursos naturais. Se isso acontecer, acabará a qualidade de vida e o planeta se tornará insustentável.

ENCONTRO – O que fazer para evitar que isto ocorra?
RAQUEL GRASSI –
Temos de começar a fazer as mudanças necessárias para que não cheguemos a este ponto. A FDC trabalha focada nos gestores de empresas, mostrando a eles que a inovação será fundamental para mudar o que tiver de ser mudado no processo econômico para conseguirmos manter a economia estável. O que isto significa? Que ainda utilizamos, no processo econômico, produtos que afetam a qualidade do ar, da água, e que têm forte impacto nas comunidades. Então, as empresas precisam encontrar soluções inovadoras no processo produtivo que assegurem a qualidade de vida para todos, com inclusão social.

ENCONTRO – Quais seriam estas novas concepções?
RAQUEL GRASSI –
Temos oportunidades imensas para desenvolver novos produtos, que tenham impacto menor no uso dos recursos naturais e que também possam gerar dinheiro para as empresas, principalmente de setores como serviços, educação, saúde. Precisamos rever todo o processo de produção para preservar matéria-prima e reduzir a geração de resíduos. Temos de adotar uma lógica mais conservacionista, que tenha menos impacto ambiental. Precisamos desenvolver negócios usando as comunidades do entorno das empresas, incluindo-as no processo por meio do empreendedorismo. Desta forma, as empresas podem ajudar a suprir as necessidades das próprias comunidades.

ENCONTRO – De uma forma geral, as empresas estão mais conscientes sobre a importância da sustentabilidade?
RAQUEL GRASSI –
A consciência tem aumentado por um motivo simples: os impactos dos processos econômicos sobre os recursos naturais também têm aumentado bastante. Existem evidências destes impactos em todos os lugares. O mundo nunca teve 7 bilhões de pessoas. As evidências destes impactos estão cada vez mais próximas das pessoas. O problema é que os empresários percebem que as coisas estão mudando, que os recursos naturais estão acabando, mas enxergam também uma série de dificuldades para inovar, para mudar os processos econômicos. Costumo usar uma imagem para isto: é como se estivéssemos numa estrada e soubéssemos que existe um abismo daqui a 10 quilômetros. Então, seria hora de parar o carro ou andar mais lentamente para analisar as alternativas existentes e evitar o abismo. Mas continuamos acelerando, fazendo com que a chegada ao abismo se torne inevitável. Ora, não adianta acelerar! Temos é de mudar a lógica da cadeia produtiva antes que o abismo apareça. Fazer transformações mais amplas nesta perspectiva.

ENCONTRO – Acabou-se o tempo em que apenas o lucro era importante?
RAQUEL GRASSI –
Sim. É hora de as empresas conversarem com todos os seus públicos para fazer uma gestão responsável. Não adianta mais ter apenas o aval dos acionistas. Sem esse diálogo, as empresas podem ter problemas. Temos alguns exemplos clássicos de erros. Quando o mundo descobriu que a Nike estava deixando crianças fora da escola em países mais pobres, a imagem da empresa ficou seriamente arranhada. Pegou mal. A Nike, então, mudou e adotou uma gestão muito mais responsável. E voltou ao mercado. Tivemos outro exemplo com a Zara, que foi flagrada usando mão de obra escrava e também sofreu danos de imagem. Então, não adianta mais a empresa só falar com clientes e acionistas. Quem não aprender a dialogar com todos os públicos terá problemas. A sociedade está vendo os impactos do processo produtivo e está bem mais consciente.

ENCONTRO – As empresas que não mudarem poderão desaparecer?
RAQUEL GRASSI –
O tempo está realmente se fechando. As pessoas estão mais conscientes do seu dever. O conceito da pegada ecológica tem apelo. Na verdade, não há mais tempo nem para a briga entre países ricos e em desenvolvimento para saber quem é o culpado pela escassez dos recursos naturais. Não adianta ficar dizendo “não fomos nós”. Não há tempo. Não adianta, por exemplo, a Índia querer ter o mesmo número de carros por habitante que os Estados Unidos, porque isto seria uma tragédia ambiental. É hora de termos uma consciência mais sistêmica de todo o processo. As pessoas hoje sabem que o que se faz num lugar tem reflexos em outro. Têm consciência de que estamos todos no mesmo barco. Pessoas, países e empresas terão de ter um espírito mais cooperativo do que competitivo.

ENCONTRO – Como aplicar esta lógica no mercado de consumo?
RAQUEL GRASSI –
No mercado, a lógica competitiva vai continuar, mas os valores do próprio capitalismo terão de começar a mudar. O capitalismo terá de reconhecer a importância da sustentabilidade. Até porque a legislação ambiental, social e trabalhista está apertando o cerco cada vez mais contra as empresas. A esperança é que a Rio+20 contribua para o aumento dessa percepção.

ENCONTRO – Quem deve puxar o debate sobre a importância da sustentabilidade? As empresas, os países ou a sociedade?
RAQUEL GRASSI –
A Organização das Nações Unidas (ONU) está tentando fazer isto. Temos de ter uma governança interna para conduzir esse debate e colocá-lo externamente onde ele deve estar. E o segundo setor e as empresas deverão estar profundamente envolvidas nesse processo. Hoje, as empresas já têm grande competência e podem ajudar a fazer esta transformação. Mas vamos precisar de uma governança mundial que atue em conjunto com a sociedade civil, setor privado e governos.

ENCONTRO – Temos esta governança hoje?
RAQUEL GRASSI –
Não. Hoje, ela não existe. Não está legitimada. Como disse, ainda estamos assistindo brigas entre países ricos e países em desenvolvimento para saber de quem é a culpa pela escassez de recursos naturais. Mas não dá mais para ficar olhando pelo retrovisor. Temos de olhar para frente, para o que precisa ser feito para o planeta, para que mercados, sociedade, organizações e indivíduos se sustentem. Hoje, temos de trabalhar em frentes sistêmicas, e não mais em frente pontuais. Devemos ter a consciência de que qualquer coisa que afete o planeta vai se voltar contra as pessoas e o próprio planeta, como se fosse um bumerangue.

ENCONTRO – Quais são os principais obstáculos para a sustentabilidade?
RAQUEL GRASSI –
Quebrar paradigmas. Fazer isso é que é difícil. Quando se pensa em sustentabilidade, deve-se pensar em valores humanos, no coletivo, no significado do que se está produzindo. Trata-se de um processo educacional e de um grande desafio. Quando se lida com a questão da sustentabilidade, lida-se com dilemas o tempo todo. As soluções do passado não servem para o presente. Estamos construindo este caminho agora e ainda não há respostas claras. Veja, por exemplo, a questão das sacolinhas de plástico. As novas sacolas são importantes, mas ainda têm impactos ambientais. Tem a questão dos copinhos descartáveis, que poderiam ser produzidos a partir do milho. Mas aí, levanta-se a questão de que o milho deve continuar sendo utilizado prioritariamente como alimento. Então, ainda existem muitas dúvidas. Não fomos acostumados a tomar essas decisões. É tudo muito novo para todos nós.

ENCONTRO – Se tudo continuar como está, quando as linhas do excesso de população mundial e escassez de recursos humanos se cruzarão, tornando o planeta insustentável?
RAQUEL GRASSI –
Segundo o documento Visão 2050, o mundo terá 9 bilhões de pessoas em 2050. Para que continuemos a ter uma qualidade de vida razoável, temos de fazer um grande para casa até 2020. O prazo está se esgotando. 2050, portanto, é o limite para o planeta se nada for feito. Mas eu tenho uma crença muito grande de que o ser humano, quando quer realmente fazer uma coisa, faz. Ainda vamos descobrir soluções que hoje são totalmente desconhecidas. Como diz o escritor Yann Arthurs-Bertrand, “é tarde demais para ser pessimista”. Não dá mais para se acomodar. No caso da FDC, temos um grande trabalho a fazer com os gestores de empresas. Cerca de 30 mil gestores e executivos passam por aqui todos os anos. Se conseguirmos deixar uma gotinha de nossa filosofia sobre sustentabilidade em mil cabeças, já estaremos fazendo uma grande diferença.

ENCONTRO – E em Minas Gerais? Como está a questão da sustentabilidade entre as empresas e os empresários mineiros?
RAQUEL GRASSI –
Historicamente, o empresário mineiro sempre viu sustentabilidade como se fosse filantropia. Minas sempre liderou rankings de filantropia, programas de voluntariado, etc. Mas o conceito que precisamos trabalhar vai muito além da filantropia. Passa pela busca de novos processos que promovam impactos ambientais menores. A economia mineira ainda está fortemente ligada ao extrativismo mineral – atividade com forte impacto no meio ambiente. Muitas empresas ainda optam pela filantropia, doando uma série de equipamentos e obras para as comunidades. Mas, na verdade, elas acabam tomando da sociedade, com uma das mãos, dez vezes mais do que dão com a outra. Este debate é muito forte atualmente, principalmente na indústria extrativa mineral: qual é a recompensa pelos impactos ambientais, e se elas realmente existem e compensam. Minas Gerais está começando a levar em conta a questão da sustentabilidade nas decisões estratégicas. Está começando a discutir questões fundamentais. Mas o caminho ainda é longo.

ENCONTRO – Onde este debate está ocorrendo no estado, hoje?
RAQUEL GRASSI –
Existe debate tanto nas associações e entidades empresariais quanto no governo estadual. Mas, de forma efetiva, é hora de todos colocarem na mesa seus interesses de forma clara. As pessoas ainda trabalham com ideias preconcebidas quando, na verdade, é hora de enxergar que sustentabilidade é uma questão que interessa a todos, e que todos, portanto, terão de abrir mão de alguma coisa. Precisamos ter consciência de que teremos de abrir mão do forte consumismo, do desperdício. Temos de saber como as cidades poderão ajudar e participar desse debate. Falta um diálogo mais integrado entre todos os agentes sociais, pautado por um propósito maior.

QUEM É
Raquel Grassi,
56 anos

ORIGEM

Belo Horizonte

FORMAÇÃO
Economista e administradora de empresas

CARREIRA
Sempre trabalhou nas áreas de recursos humanos e planejamento estratégico de grandes empresas, como Vale e Cenibra, onde implantou a ISO 9000 e 14000.

Há 12 anos está na Fundação Dom Cabral (FDC), onde trabalha com o tema sustentabilidade junto a gestores de gigantes como Natura, Usiminas e Banco Santander

Entrevista publicada na Edição Especial "A sustentabilidade do Futuro", da Revista Encontro ed.132

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade