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Estado de Minas DESAFIOS DA SUSTENTABILIDADE

Desmatamento zero

O homem continua derrubando florestas. Planejamento ecológico econômico é fundamental para uso racional da natureza


postado em 10/06/2012 06:00 / atualizado em 07/06/2012 15:03

Plantar é mais difícil que devastar: em 2010 e 2011, dos cinco municípios brasileiros que mais jogaram árvores no chão três estão em Minas Gerais(foto: GWENN DUBORTHOMIEU/AFP PHOTO)
Plantar é mais difícil que devastar: em 2010 e 2011, dos cinco municípios brasileiros que mais jogaram árvores no chão três estão em Minas Gerais (foto: GWENN DUBORTHOMIEU/AFP PHOTO)

Quem caminha pelas ruas de cidades históricas de Minas Gerais, como Ouro Preto ou Mariana, e contempla a beleza dos sobrados do período colonial, mal imagina que possam ter sido construídos à custa da destruição da exuberante mata atlântica que outrora cobriu boa parte da porção Leste do estado. Os esteios que, há séculos, os mantêm de pé, são de madeiras de lei, como jequitibá, pau-brasil, ipê e jacarandá. Com certeza, permanecerão por ali ainda por muito tempo, garantindo a solidez das construções pelo correr dos séculos.

A destruição da mata atlântica tem relação direta com a história da ocupação do território mineiro. Primeiro, foi o desmatamento para a busca do ouro e a construção das primeiras vilas, nos séculos 16 e 17; depois, com o esgotamento do ouro, vieram os canaviais, no século 18, e um pouco mais adiante no tempo, a destruição das florestas para a implantação das lavouras de café, ocorrida principalmente nas regiões da Zona da Mata a Sul do estado. Mais recentemente, nas últimas décadas do século passado, veio a expansão da fronteira agrícola em direção ao Centro-Oeste, para o plantio de grãos. Dessa vez, a vítima foi a vegetação do cerrado. Diferentemente das frondosas árvores da mata atlântica, o cerrado é composto por espécies retorcidas e de pequeno porte, mas nem por isso de menos importância.

Do Centro-Oeste para a Amazônia, foi um passo rápido. Ali, a floresta nativa está sendo derrubada, principalmente, para o plantio de soja e criação de gado de corte. A rigor, desde que Pedro Álvares Cabral por aqui aportou, em 1500, o desmatamento sempre existiu. Não se conhece exemplo de áreas em que o contrário - o retorno da floresta às suas condições naturais - tenha ocorrido no território brasileiro. Há menos de 10 dias, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) divulgou o balanço de devastação da mata atlântica - 12.822 hectares no país -, sendo que Minas Gerais e Bahia foram os estados que mais perderam vegetação entre 2010 e 2011.

Entre os municípios, dos cinco que mais desmataram, três são mineiros e estão localizados no Nordeste do estado: Águas Vermelhas, a campeã, com perda de 1.367 hectares; Jequitinhonha, que desmatou 1.270 hectares e ficou em terceiro lugar - atrás de Canavieiras (BA), com 1.337 hectares -; e Ponto dos Volantes, com 539 hectares desmatados, que ficou em quinto, atrás da baiana Belmonte, que ceifou árvores de 902 hectares. Nessa região já foram identificados vários desflorestamentos entre 2008 e 2010.

De acordo com dados do Centro de Sensoriamento Remoto do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a mata atlântica, bioma brasileiro mais comprometido, já perdeu 75,88% de sua cobertura vegetal nativa. O cerrado, muito presente em Minas, não fica atrás: segundo o Ibama, 47,84% de sua área foi devastada. Entre 2002 e 2008, 14,2 mil quilômetros quadrados de mata nativa do cerrado foram perdidos. A destruição das florestas ocorre não apenas no Brasil. Restam hoje, em todo o planeta, apenas 22% da cobertura florestal original. A Europa ocidental já perdeu 99,7% de suas florestas; a Ásia, 94%; a África, 92%; a América do Norte, 66%; e a América do Sul, 54%. Ainda que o Brasil disponha hoje de um moderno sistema de monitoramento da cobertura vegetal por imagens de satélite, é notado que em determinada época se desmata mais; em outra, menos. Porém, sempre há perda a cada ano.

A recente discussão do projeto de reforma do Código Florestal escancarou um conflito que se arrasta há anos, entre ambientalistas e produtores rurais %u2013 ou entre a preservação da natureza e a produção de alimentos. Porém, para o diretor de Políticas Públicas da Fundação S.O.S Mata Atlântica, Mário Mantovani, esse conflito não tem razão de ser. "O Brasil tem 60 milhões de hectares ocupados com a agricultura e 210 milhões com a produção de gado para corte. Como nosso rebanho é de aproximadamente 200 milhões de cabeças, ou seja, um animal por hectare, é perfeitamente possível duplicar o rebanho sem que seja necessário aumentar a área de pasto, já que um hectare de pastagem pode receber um número muito maior de animais", explica.

No caso da agricultura, se da área já desmatada e que hoje não tem uso, seis milhões de hectares fossem destinados ao cultivo, seria possível aumentar a produção brasileira em cerca de 30 milhões de toneladas de alimentos, limite máximo a partir do qual os preços começariam a cair. "Para aumentar a produção, precisamos de muito pouca terra", afirma Mantovani, que enxerga um grande descompasso entre o potencial ambiental do Brasil e os padrões da agropecuária. "O Brasil é a maior potência ambiental do planeta. Mas nossa produção de alimentos é do século 17", afirma.

BOICOTE
Para o diretor da S.O.S Mata Atlântica, não tem sentido se produzir soja em Alta Floresta, no Mato Grosso e fazer todo o transporte por caminhão até o Porto de Paranaguá, onde é embarcada para o exterior. O correto é que essa produção ocorra próximo aos locais de embarque, em áreas já desmatadas. Há dois anos, o movimento ativista Greenpeace propôs um boicote à carne produzida em áreas desmatadas da Amazônia. No relatório A farra do boi, divulgado em junho de 2009, a organização mostrou como a pecuária havia se transformado no principal agente de destruição da floresta. A denúncia mobilizou compradores internacionais de produtos bovinos brasileiros, que deixaram claro para os frigoríficos que não trabalhariam com fornecedores envolvidos com o desmatamento. A pressão ambientalista deu resultado. Na ocasião, a JBS-Friboi, um dos maiores frigoríficos do mundo, comprometeu-se a implantar um sistema de rastreabilidade dos rebanhos de seus fornecedores, de tal forma que fosse possível identificar aqueles que estavam contribuindo para a devastação ambiental.

Atualmente, o Greenpeace concentra energia na campanha Desmatamento Zero, que tem o objetivo de coletar 1,4 milhão de assinaturas e entregá-las ao Congresso Nacional com projeto de lei de iniciativa popular que proíba qualquer supressão de florestas nativas no país.

Saiba mais

Aberto edital para reservas particulares

O Programa de Incentivo às Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) recebe até 26 deste mês inscrições para seu 11º edital, que destinará R$ 400 mil à criação e gestão de RPPNs na mata atlântica. O edital conta com recursos do Bradesco Capitalização e parceria da The Nature Conservancy (TNC). O programa de incentivo às reservas, coordenado pela Conservação Internacional e Fundação S.O.S Mata Atlântica, visa ampliar a área do bioma preservada no Brasil, estimulando a criação de novas reservas e a gestão das já existentes. As RPPNs protegem, atualmente, mais de 698 mil hectares do território nacional, distribuídos em 1.073 reservas. Só na mata atlântica e seus ecossistemas associados, elas somam 734 e protegem mais de 136 mil hectares do bioma. "Nesta edição, lançamos a linha de apoio ao georreferenciamento de RPPNs, que tem o objetivo de atender demanda dos proprietários, em especial de reservas antigas, que não têm seus limites georreferenciados", diz a coordenadora do programa Mariana Machado. Mais informações no email: programarppn@sosma.org.br ou no telefone (11) 3262-4088 %u2013 ramal 2226.

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