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Estado de Minas DESAFIOS DA SUSTENTABILIDADE

Densidade populacional no limite

O consumo exagerado da sociedade desestabiliza a capacidade que o planeta tem de se recompor naturalmente, uma das grandes preocupações atuais


postado em 10/06/2012 06:00 / atualizado em 07/06/2012 14:17

Cidades cada vez mais populosas, como na Índia, estão saturadas e repletas de problemas de mobilidade, saneamento, poluição e moradia(foto: Rupak De Chowdhuri/REUTERS)
Cidades cada vez mais populosas, como na Índia, estão saturadas e repletas de problemas de mobilidade, saneamento, poluição e moradia (foto: Rupak De Chowdhuri/REUTERS)

Ultrapassamos os 7 bilhões de pessoas. O aumento da presença humana sobre a Terra é uma das principais causas do agravamento da crise ambiental e uma das maiores ameaças ao planeta. Quanto maior o número de pessoas, maior a demanda por energia, que, para ser produzida, depende primordialmente, ainda hoje, do petróleo. E são justamente os derivados do líquido negro os principais responsáveis pelo aumento das emissões de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera.

Além da energia, o homem precisa de comida. Os alimentos, para serem produzidos em larga escala, também oneram o meio ambiente: avançam sobre as florestas, recebem indiscriminadamente defensivos agrícolas para seu cultivo, reforçando um ciclo de insustentabilidade que está se tornando inviável. Quanto maior o número de pessoas, maior o consumo de produtos. Resultado: mais uma fatura debitada na conta da natureza, a da pressão sobre matérias-primas, como o minério de ferro, presente nos automóveis e nos eletrodomésticos.

O ritmo de reprodução humana cresceu de forma vertiginosa nos últimos 200 anos. Para chegar ao primeiro bilhão de habitantes, foram precisos 1.800 anos. Daí para o segundo bilhão, foram apenas 123. A partir de então, a passagem de um bilhão para outro se deu em intervalos sempre menores. Foi necessária apenas uma década, de 1987 a 1997, para que a população da Terra saltasse de 5 bilhões para 6 bilhões de pessoas. O aumento vertiginoso se deu pela combinação de vários fatores, entre eles a melhoria das condições de vida, redução da mortalidade infantil e aumento da expectativa de vida.

Quem melhor soube traduzir o impacto da vida humana sobre o planeta foi a ONG ambientalista WWF, ao criar dois instrumentos de medição – a pegada ecológica per capita e a biocapacidade per capita. A pegada ecológica serve para avaliar o impacto que o ser humano exerce sobre a biosfera, ou seja, sobre o ambiente no qual se assenta a vida na Terra; a biocapacidade avalia o montante de terra e de água necessários para atender as necessidade humanas, o que, em um ambiente equilibrado, deve ser equivalente à capacidade regenerativa da natureza. A pegada ecológica varia de região para região do planeta e leva em conta vários fatores, como área de terra arável, florestas, área urbanizada e pastagens.

Em 2008, a pegada ecológica do planeta era de 2,7 hectares globais (gha) per capita. Esse número, multiplicado pela população da Terra na época (6,7 bilhões de habitantes), apontou que para o atendimento das necessidades humanas seriam necessários 18 bilhões de hectares em todo o mundo. Como há apenas 12 bilhões de hectares disponíveis de terras e águas bioprodutivas, o estudo do WWF mostrou que o que estava sendo gasto correspondia a 50% a mais do que a capacidade regenerativa da natureza. Em outras palavras, em um ano estava se gastando o que somente seria reposto em um ano e meio.

“Isso quer dizer que a população mundial já ultrapassou os limites da sustentabilidade”, afirma o doutor em demografia e professor titular da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) José Eustáquio Diniz Alves. Segundo ele, isso ocorre devido a uma combinação entre população, padrão de produção e nível de consumo. Assim, se o mundo adotar o padrão de consumo médio indiano, que é muito baixo, poderá ter mais de 7 bilhões de habitantes. Mas se adotar o padrão médio brasileiro, poderá ter 5 bilhões. E se o padrão for o dos Estados Unidos, esse número baixaria para 1,5 bilhão de habitantes.

De acordo com a metodologia do WWF, o Brasil apresenta um superávit ambiental, pois tem uma pegada de 2,93 gha, para uma biocapacidade per capita de 9,63 gha. “Isso não quer dizer que o Brasil está cuidando de forma excelente de seu meio ambiente, mas apenas que o país tem uma população e um consumo relativamente pequenos diante da disponibilidade de seu território. Se o país cuidar bem de seu meio ambiente, poderá ajudar muito a população mundial”, afirma José Eustáquio.

Para a ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, aumento da produtividade agrícola e mudança dos padrões de consumo são as saídas para a Terra suportar 7 bilhões de pessoas(foto: Paulo Whitaker)
Para a ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, aumento da produtividade agrícola e mudança dos padrões de consumo são as saídas para a Terra suportar 7 bilhões de pessoas (foto: Paulo Whitaker)
URGÊNCIA Para as próximas décadas, a ONU indica três cenários para o mundo. No primeiro, se a taxa de fecundidade total (TFT) permanecer no nível de 2,5 filhos por mulher, no qual esteve entre 2005 e 2010, em 2100 a população da Terra chegará a cerca de 16 bilhões de habitantes. Se a TFT cair para algo em torno de 2,1 filhos por mulher até 2050, a Terra chegará a 2100 com 10 bilhões de habitantes. Porém, se a queda da fecundidade for mais rápida e mais acentuada(2,1 filhos por mulher até 2025 e 1,6 até por volta de 2075), o resultado será uma diminuição da população já na segunda metade do século, caindo para algo em torno de 6 bilhões em 2100.

“Todas as alternativas estão colocadas e são de domínio público. O mundo pode escolher qual caminho deseja seguir: se prefere mais gente com menos consumo; menos gente com mais consumo per capita ou menos gente e menos consumo, com menor impacto ambiental”, observa o professor do IBGE. Ele lamenta que para a Rio+20 o debate da relação entre população e sustentabilidade não será posto de forma clara. “Quando se trata de debater as questões populacionais, as ideologias e as crenças religiosas costumam falar mais alto, e muitas vezes as pessoas preferem o silêncio.”

Para a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva, o problema populacional se resolve com aumento da produtividade agrícola e mudança dos padrões de consumo. O também ex-ministro de Meio Ambiente e ex-secretário de Estado de Meio Ambiente de Minas Gerais, José Carlos Carvalho, tem posição mais crítica sobre o assunto. Para ele, o debate sobre sustentabilidade passa pela adoção de medidas de controle populacional. “Estamos consumindo mais do que a capacidade que o planeta tem de se recompor. A humanidade já está no cheque especial”, afirma. Para ele, o problema demográfico é muito mais grave do que se pode imaginar. Com a diferença de que, no caso da humanidade, não há como se criar um outro planeta e para lá despachar a população excedente da Terra. “Não dá para fazer puxadinho”, alerta Carvalho.

Palavra de especialista

Les Knight
líder do Movimento pela Extinção Voluntária da Raça Humana


Abaixo a reprodução

“Sou contra qualquer proposta de que o controle da população seja feito por regiões ou apenas em áreas mais pobres. Os países ricos têm uma taxa de reprodução mais baixa, mas, em compensação, cada pessoa que mora nesses países tem um impacto sobre o meio ambiente maior que a de qualquer outra região. Acho que os países ricos deveriam ser os primeiros a parar a reprodução. O surgimento do Movimento pela Extinção Voluntária da Raça Humana (VHEMT, na sigla em inglês) é uma resposta a um problema antigo sobre o qual se debruçam demógrafos, planejadores e, mais recentemente, os ambientalistas. Hoje, em todos esses segmentos, há um consenso de que o número de pessoas que habitam a Terra é incompatível com a oferta dos recursos naturais – matérias-primas e alimentos, principalmente – necessários à sua manutenção. Minha ideia é que as pessoas deixem de ter filhos, até que o último ser humano desapareça da face da Terra.”

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