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Estado de Minas

Edifício Niemeyer: DNA de um ícone

A vida no interior do inconfundível edifício em curvas da Praça da Liberdade que mereceu não somente o projeto do maior gênio da arquitetura brasileira, mas o seu próprio nome


postado em 09/12/2012 06:00 / atualizado em 09/12/2012 07:39

No coração de Belo Horizonte, prédio de formato único é uma das marcas do conjunto arquitetônico da Praça da Liberdade (foto: Leandro Couri/EM/D. A Press )
No coração de Belo Horizonte, prédio de formato único é uma das marcas do conjunto arquitetônico da Praça da Liberdade (foto: Leandro Couri/EM/D. A Press )


A mãe diz que já pegou Thadeu Chaves Tolentino Neves engatinhando em uma das marquises curvas que tornam inconfundível o Edifício Niemeyer, no 11º andar do prédio que é um dos ícones da arquitetura de Belo Horizonte. Hoje, aos 30 anos, de volta ao imóvel que marcou sua infância, o administrador conta com graça a aventura. Há seis anos, ele, a mulher, os filhos e o cão Pitoco vivem em um dos pontos mais emblemáticos da capital, na Praça da Liberdade. Thadeu sabe bem que não mora em um lugar comum. “Isto não é um apartamento. É uma obra de arte. Veja a sala”, diz, enquanto aponta para a parede curva, limpa, sem quadro ou mobília.

O jovem administrador é cheio de história com o imóvel da família. Enquanto mostra o quarto dos filhos, ele vai exemplificando como é morar em uma escultura: “Tudo está sempre desalinhado, olhe só…” Uma das camas serve de base para triângulo distorcido. “Aqui não temos um retângulo, temos um trapézio. É a isso que me refiro quando falo de funcionalidade”, exemplifica, indicando o formato do cômodo. Thadeu afirma que Niemeyer não tinha compromisso com a praticidade do espaço. Para o morador do endereço nobre, o genial modernista fazia arte do concreto. E ponto.

Thadeu mostra a pequena suíte, com bela vista para a linha das palmeiras-imperiais: “Costumo brincar que o Niemeyer era tão comunista que planejou a vista mais privilegiada para o quarto da empregada”. Se há orgulho de sobra com o privilégio, nem tudo são flores para quem mora na praça que é o espaço mais popular da história política e cultural da cidade. “O problema maior é o movimento, as pessoas que não respeitam a entrada do prédio. Ontem mesmo tivemos que chamar a BHTrans para desbloquear a garagem”, conta.

Outra reclamação é o despreparo do público para lidar com a beleza do complexo da praça. Nesse aspecto, não saiu da memória de Thadeu o show do grupo carioca Monobloco, em fevereiro – quando parte das cerca de 10 mil pessoas presentes depredou os jardins em torno do coreto, derrubando luminárias e espalhando sujeira. “Por outro lado, teve show do Toquinho e pude ver daqui, da janela”, relembra. Na sala de dois ambientes, num canto raro da edificação, a árvore de Natal é recorte da atração de dezembro a metros das curvas traçadas por Niemeyer.

Todas as estações da Liberdade

“Aqui, a cada dia a praça é diferente. A gente pode viver muito intensamente todas as estações”, diz Célia da Costa, há cinco anos no Edifício Niemeyer. Para a psicóloga e dona de casa, o prédio é um mito. Ela avalia que o arredondamento maior, que chama a atenção, está na parte externa. “Internamente, temos paredes retas, a diferença é que não temos quadrados nos cantos”, explica. Segundo Célia, é uma arquitetura que privilegia o horizonte, sem dar vez e vista à parte baixa.

Problemas com elevadores e com as vagas de automóveis são apontados por ela como fatores negativos do residencial. Algum prédio não os tem? No entanto, ela destaca a diversidade cultural do lugar e diz ser, como muitos, encantada pela construção projetada por Niemeyer. “Este prédio está em um lugar onde a arquitetura pode ser amplamente contemplada. Ele está livre; não está sufocado”, avalia. Célia acredita que se o  edifício estivesse em outro ponto, ladeado por outros arranha-céus, não pareceria tão belo.

“Sou grande fã deste prédio, dessa luminosidade. Toda esta interação com o espaço, todas estas ondas refletem bem a cabeça genial do Niemeyer. Aqui, a praça vem até a sua casa”, diz Célia, sorrindo para a visita ilustre. Há um ano na lida com os serviços gerais do edifício, Vanda Mônica, de 39, diz que é a primeira vez na vida que trabalha em um lugar tão diferente. “As escadas parecem um caracol”, diverte-se.

“Crítica de arte” amadora, Vanda, moradora de Vespasiano, na Grande BH, arrisca avaliar a obra do mestre comunista: “É um prédio simples. Só que é muito diferente, porque não tem área de lazer, não tem jardim. Tem duas plantas: aqueles dois vasos ali – aponta. Lindas aqui são as salas, enormes. E a vista é maravilhosa”.

O que não se explica


"Só de uns tempos para cá passei a entender o privilégio que significa viver no Niemeyer" - Laura Baraldi, estudante (foto: Leandro Couri/EM/D. A Press )
Na portaria, a atriz Maria Olivia aguarda para a retirada de uma obra de arte do apartamento da irmã: um leão esculpido em madeira, que está mudando de cor. “Acho que foi feito em madeira verde”, avalia. Convidada pela irmã, há alguns anos, para fazer um novo projeto para o apartamento no edifício, ela diz que não teve coragem. “Seria muita responsabilidade fazer uma reforma num imóvel criado pelo Niemeyer. Topei apenas a decoração”, conta.

A atriz destaca a simplicidade do arquiteto. “O que mais me chama a atenção nele é a solidariedade. Ele dizia: ‘Ter dinheiro é bom para ajudar os amigos’.” Para a artista e decoradora, a humanidade de Niemeyer foi o grande diferencial de sua história. “Viver a obra de arte é não explicá-la tecnicamente. É só sensibilidade”, diz, no andar térreo do edifício que leva o nome do ídolo.

Laura Baraldi, estudante, está de passagem para o almoço. Uma entrevista? “Sim”, sorri. A moça, moradora do endereço desde os 15 anos, fala que não tinha muita noção do que é “viver no Niemeyer”. “Só de uns tempos para cá passei a entender o privilégio que isso significa”, diz. Laura conta que quando os amigos ficam sabendo que ela vive no prédio mais famoso da Praça da Liberdade, todos querem “conhecer a casa sem canto”. E quem é que, passando pela esquina de concreto, nunca quis saber como são, por dentro, as curvas do traço do infinito?


Ao mestre, com carinho

“Todas estas ondas refletem bem a cabeça genial do Niemeyer. Aqui, a praça vem até sua casa”

>> Célia da Costa, psicóloga

“Isto não é um apartamento. É uma obra de arte”

>> Thadeu Chaves Tolentino Neves, administrador



“Só de uns tempos para cá passei a entender o privilégio que significa viver no Niemeyer”

>> Laura Baraldi, estudante

Saiba mais

Edifício Niemeyer

Primeira torre residencial da Praça da Liberdade, o Edifício Niemeyer foi erguido nos anos 1950, onde antes havia o Palacete Dolabela. A célebre edificação, marco modernista, precisa de reforma. Há trincas na fachada, falhas no revestimento e infiltrações, que podem ser observados, sem esforço, de qualquer ponto da praça. O projeto de restauração do prédio de 12 andares, aprovado pela Prefeitura de Belo Horizonte e pelos proprietários dos 22 apartamentos, está à espera de captação de recursos por meio da Lei Rouanet. A meta é que seja restaurado até o fim do próximo ano.

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