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Estado de Minas

Enem 2018: redação é surpresa e assuntos sociais mantêm força em ciências humanas

Enem muda viés social da produção de texto, com tema sobre a manipulação do comportamento dos usuários pelo controle de dados na internet. Mas os direitos humanos mantêm força no teste


postado em 05/11/2018 06:00 / atualizado em 05/11/2018 07:35

Estudantes se concentram na entrada do câmpus Coração Eucarístico da PUC Minas para o primeiro dia de testes: manter o foco na base de dados na redação foi a pegadinha da vez(foto: Juarez Rodrigues/EM/DA Press)
Estudantes se concentram na entrada do câmpus Coração Eucarístico da PUC Minas para o primeiro dia de testes: manter o foco na base de dados na redação foi a pegadinha da vez (foto: Juarez Rodrigues/EM/DA Press)


A sutileza foi, mais uma vez, a grande chave da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Aplicada ontem com os testes de linguagens e ciências humanas, a prova, considerada a mais importante, abriu o primeiro domingo da maior avaliação do país. A produção de textos fugiu do espectro das últimas edições, deixando de lado temas sociais ligados a direitos humanos e minorias – reforçados nas outras provas de ontem – para tratar de algo bem atual, que interfere na vida da maioria da população. Por isso, surpreendeu candidatos ao pedir para os participantes escreverem sobre a manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet.


De acordo com os estudantes, textos de suporte apresentavam dados sobre o percentual de pessoas por faixa etária e social que usam a internet e os códigos do que gostam ou não. Um deles era sobre um site de música que, toda segunda-feira, recebe informação do que seus usuários gostam de ouvir. Assim, o tema exigiu falar da manipulação, mas a partir da base de dados. “É um tema que não surpreende, pois sempre trabalhamos em sala a questão da internet e das redes sociais. O que pega o candidato e é o ponto em que ele precisava focar foi a questão do controle de dados”, afirma o diretor do Colégio Arnaldo, Geraldo Júnio.

“Não precisa ser especialista para falar dos algorítimos que Google e Facebook usam para fazer publicidade, mas mostrar conhecimento de que os dados são usados para fazer propaganda. Juntando com a lei de proteção de dados pessoais na internet, aprovada pelo Congresso em julho e definindo que quem tem os dados é responsável por ele, dá um bom repertório”, completa. Os algorítimos permitem saber o quê o usuário busca e a que horas busca, podendo influenciar na escolha e na navegação dele, ou seja, por meio do comportamento, as empresas direcionam a navegação e fazem o inverso: manipulam na internet para influenciar o comportamento do usuário.

Por esses detalhes, os candidatos precisaram ontem de atenção para não sair do foco. Fake news é um das argumentações que podiam ter sido usadas, mas sempre tendo em mente que não bastava falar apenas da manipulação, sendo fundamental abordar as bases de dados por trás delas, conforme explica Geraldo Júnio. “É uma pegadinha bem sutil e é isso que o candidato precisa perceber que a banca quer. Nos últimos quatro anos, o Inep tem trabalhado essas sutilezas e definindo, assim, o recorte detalhado do que está sendo pedido.”

Outro ponto importante é a técnica da redação – uma estrutura dissertativo-argumentativa. Nesse caso, identificando o agente (os usuários) e o contexto (a própria internet) para redigir a proposta de intervenção. “O candidato pode facilmente ter desviado o foco do tema por falta de atenção ou pela inexperiência com essa estrutura de texto”, conclui o diretor do Arnaldo.

A professora Poliana Wink, do cursinho preparatório Chromos, por sua vez, diz que o tema era esperado, mas não com esse recorte. “Convivemos com essa questão diariamente. Uma das abordagens é a manipulação que as empresas podem fazer pelo nosso comportamento na internet, a partir de buscas, compras e outras questões. Principalmente, nosso comportamento como consumidor”, ressalta. Ela classificou o tema como “difícil”, em razão da desigualdade social do Brasil, onde nem toda a população tem acesso à internet.

Como argumentos que podiam ser usados para construção do texto, a docente aponta para o marco civil da internet. A lei permite que empresas privadas usem informações dos usuários, desde que com aceitação dos termos de uso. Além disso, Poliana aponta para os vazamentos de informações oficiais do WikiLeaks, por meio do analista de sistemas Edward Snowden, que criou uma crise diplomática entre diferentes países.

OBJETIVAS Se a redação mudou seu viés social, pode-se dizer que, nesta edição, a prova de ciências humanas carregou a mão neles e trouxe temas já cobrados ou esperados na produção de texto, como racismo, violência contra mulher e direitos humanos. Assim como em edições anteriores, essa área e também a de linguagens usaram referenciais de pessoas em destaque na história para as questões objetivas. O cartunista Henfil foi um dos citados. “Alguns alunos acharam a prova deste ano mais fácil, outros mais difícil, mas essa variação é normal. Pelos autores que foram citados na contextualização, é possível afirmar que esses referenciais teóricos continuam sendo o carro-chefe do Enem”, destaca o diretor Geraldo Júnio.

Em Montes Claros, duas pessoas foram presas por suspeita de fraude.

A redação para quem fez


(foto: Juarez Rodrigues/EM/DA Press)
(foto: Juarez Rodrigues/EM/DA Press)
INDUÇÃO
“Achei o tema da redação um pouco complicado, mas o texto motivador ajudou bastante. Entendi a palavra manipulação, do tema, como uma forma de induzir nosso pensamento. Pode ser para o consumo, mas acredito que seja de maneira ampla”

>> Ester Martins, de 18 anos, que pretende estudar nutrição


(foto: Juarez Rodrigues/EM/DA Press)
(foto: Juarez Rodrigues/EM/DA Press)
DESCONHECIMENTO
“O tema mostra um pouco de nossa ignorância, no sentido de desconhecimento, sobre as redes sociais. Há algoritmos que levam a essa manipulação, do tema da redação, e que podem interferir nas fontes de informação”

>> Carlos Duarte, de 17, entusiasmado com o curso de cinema

(foto: Juarez Rodrigues/EM/DA Press)
(foto: Juarez Rodrigues/EM/DA Press)
INVASÃO DE PRIVACIDADE
“O tema me fez pensar sobre o uso da tecnologia e de que maneira há invasão de privacidade nas redes sociais. Os três textos motivadores ajudaram bastante na hora de fazer a redação”

>> Gabriel Leite dos Santos, de 17, interessado em estudar engenheira mecânica

(foto: Juarez Rodrigues/EM/DA Press)
(foto: Juarez Rodrigues/EM/DA Press)
APLICATIVOS
“O tema trata, principalmente, sobre o uso de aplicativos, o tempo nas redes sociais e o uso pelos jovens da internet. Achei complicado”

>> João Guilherme Dias, de 17, que pretende estudar engenharia mecânica


(foto: Juarez Rodrigues/EM/DA Press)
(foto: Juarez Rodrigues/EM/DA Press)
TEMPO
“Na minha opinião, o tema da redação foi fácil, pois usamos muito as redes sociais. O texto de suporte mostrou o percentual, por idade, das pessoas que usam a internet”

>> Ítalo Bitencourt, de 22, primeiro a concluir a prova no câmpus  PUC Minas câmpus Coração Eucarístico

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