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Estado de Minas CRISE

Alta dos juros aprofunda o endividamento brasileiro

Volta do ciclo de aumento da taxa Selic encarece o crédito nos bancos e no comércio, deixando no sufoco consumidores e empresários


11/10/2021 06:00 - atualizado 11/10/2021 07:56

Movimento do comércio de BH
(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
Sair do drama do endividamento, que já vinha agravado pela inflação elevada e a perda de renda no Brasil, associada aos efeitos da COVID-19, se transformou em batalha financeira sem horizonte para acabar com a volta do ciclo de alta do juro básico da economia. O aumento da Selic – taxa usada como remuneração dos títulos do governo no mercado financeiro e referência para os empréstimos nos bancos e no comércio –  chega rápido aos financiamentos tomados nos bancos e financeiras por milhares de brasileiros tanto para pagar as contas do mês quanto para manter o negócio funcionando.

Em Belo Horizonte, o crédito já ficou mais caro em setembro, acompanhando a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) e afeta duramente a tentativa de sair do sufoco de um dono de bares e restaurantes da região nobre da capital, que, sob anonimato, relatou sua angústia ao Estado de Minas. Ele conta que, na prática, não teve alternativa senão contrair empréstimo de R$ 400 mil para salvar seu negócio, impactado pelo longo isolamento social necessário para conter a disseminação do coronavírus.

Caso não buscasse o dinheiro emprestado, teria sido obrigado a fechar as portas. Recentemente, ele conseguiu renegociar as condições de pagamento e os juros. Ficará pelo menos três anos quitando altas parcelas. Por enquanto, o faturamento é incipiente, com a retomada recente das atividades econômicas na cidade. O dinheiro serviu para pagar impostos atrasados, fazer acerto com funcionários dispensados e comprar mercadorias.

Como o empreendedor do setor de bares, os endividados no país representavam em setembro 74% da população, ou seja, mais de dois terços dos brasileiros, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), realizada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O percentual impressionante superou a marca de agosto (72,9%) e ficou bem à frente do resultado de setembro do ano passado (67,2%), no auge da pandemia. Por sua vez, a inadimplência teve ligeiro recuo, atingindo 25,5% das famílias.

Ilustração do Marcelo Lelis sobre encarecimento do crédito
Marcelo Lelis
Na capital mineira, o nível de endividamento supera a média nacional, tendo comprometido 87,5% da população, ainda de acordo com os dados da CNC analisados pelos economistas da Fecomércio MG. O percentual significa o maior patamar dos últimos dois anos. Houve aumento ante agosto (84,8%) e setembro de 2020 (71,6%). O universo de famílias com contas em atraso em BH atingiu 38% do total, frente a 36,3% em agosto. Aqueles consumidores que não terão condições de quitar suas dívidas somaram 17,8%, nível praticamente estável frente ao mês anterior.

“É um momento muito preocupante para todos nós. Não sabemos o que faremos daqui para a frente”, desabafa o empreendedor de bares ouvido pelo EM. O empresário recorreu a empréstimo de banco, com juros de 1,7% ao mês, e depois aderiu ao Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe), da Caixa Econômica Federal, linha considerada barata, cujos encargos são inferiores a 4% ao ano.

“São raros os casos de empresários que não precisaram de financiamento. Hoje, 90% dos sobreviventes estão endividados com um tipo de linhas de crédito. Muitos deles não tiveram sequer condições de acessar o Pronampe e tiveram que buscar outros meios, com taxas mais altas. E grande parte está com dívida pendurada para ser paga nos próximos anos”, afirma.

RISCOS

De acordo com a Fundação Ipead, vinculada à UFMG, as taxas de juros médias mensais apuradas para empréstimos a pessoas físicas, em setembro, variaram de 5,87% a 14,24% no cartão de crédito rotativo em atraso; de 5,80% a 8,32% no cheque especial e de 1,48% a 6,04% no crédito pessoal não consignado. Os encargos aumentaram nas três modalidades em relação ao mesmo período de 2020. Há um ano, as maiores taxas médias mensais encontradas estavam em 13,84% no cartão de crédito rotativo em atraso; 7,95% no cheque especial e 5% no crédito pessoal não consignado.

Com a inflação alta ou baixa no Brasil, a taxa de juros sempre foi elevada, como observa o gerente de pesquisas da Fundação Ipead, o economista Eduardo Antunes. “O empréstimo do dinheiro representa o alto risco que o emprestador está assumindo ao garantir o recurso. As taxas aumentaram justamente por esse risco e pelo medo de o dinheiro não voltar. O trabalhador perdeu dinheiro e poder aquisitivo e acabou pressionando as taxas de juros, porque o risco do crédito ficou maior”, explica.

Para as pessoas jurídicas, o custo de desconto de duplicatas varia de 0,66% a 2,08% ao mês e o financiamento de capital de giro pode custar de 1,47% a 2,52% mensais. Em setembro de 2020, esses encargos tinham taxas mais amplas, chegando a 2,09% e 2,98%, respectivamente. A inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), calculado pela Fundação Ipead/UFMG, foi de 1,31% em setembro, chegando ao patamar de 6,60% em 2021 e a 9,34% nos últimos 12 meses.

“Pago banco há 6 meses, mas o comércio não voltou”

Outro empresário de Belo Horizonte, que também pediu anonimato, quase foi à falência antes de aderir ao Pronampe e a empréstimos pessoais para manter o negócio vivo durante a pandemia. Os financiamentos não foram suficientes. Ele ainda precisou vender carro e lote e recorrer ao cheque especial, com taxa de 13,5% ao mês. Ao todo, adquiriu dívida de R$ 130 mil.

Se não bastasse a situação dramática, o aluguel do imóvel que abriga o negócio próprio deve passar de R$ 4,5 mil para R$ 6 mil por mês. O empresário calcula que a dívida será quitada em 30 meses, dependendo do faturamento de seu comércio. “A pior situação é a que eu enfrento agora. Pago empréstimos há seis meses, mas o comércio não voltou de fato, o delivery caiu e a coisa apertou. As mercadorias subiram de preço e não podemos repassá-las ao cliente. O ticket-médio por cliente caiu muito. Estou muito preocupado. Caso esse panorama não mude, não há outro jeito senão fechar as portas”

O caminhoneiro autônomo Fábio Moreira, de 41 anos, também se envolveu num cenário complicado de empréstimos. Ele renegociou o pagamento de uma dívida que contraiu em 2019 para efetuar a compra de uma carreta. Para isso, recorreu a uma financeira para obter empréstimo de R$ 120 mil, que será pago em parcelas durante cinco anos a juros menores que 2% ao mês. “A dívida já existia antes da pandemia. Quando o comércio foi fechado, tudo se complicou. Acabei me acidentando e, como financiamento do caminhão, fiquei endividado e sem ter como pagar. Logo, optei por um único crédito para facilitar o pagamento”, afirma.

Em Minas Gerais, os últimos dados de endividamento, divulgados em agosto, mostram uma ligeira queda no índice de endividados, segundo a empresa de serviços financeiros Serasa. No último levantamento, pelo menos 5,7 milhões de pessoas físicas tinham contas a pagar, queda de 6,47% em relação a agosto de 2020. Com relação às pessoas jurídicas, foram 594 mil endividadas em agosto, com redução de 5,19% ante o mesmo período de 2020.

O gerente de pesquisas da Fundação Ipead, Eduardo Antunes, alerta consumidores e empresas a não tomarem financiamentos de dívidas muito longas, diante da possibilidade de juros ainda mais elevados: “O ideal é nunca fazer dívida com taxas de juros tão exorbitantes. Um crédito rotativo de um mês para o outro, por exemplo, é altíssimo. Se não tiver jeito, o ideal é procurar uma negociação com o banco. Existem cooperativas que praticam juros bem menores do que bancos convencionais, com prazos maiores e menor poder de corrosão do seu dinheiro”. (RD)

Vacinação reacende esperança do varejo

Mesmo com o recorde de endividamento no Brasil, o economista da CNC Fábio Bentes, imagina um panorama de recuperação até o fim do ano, impulsionado pelo aumento das vendas no comércio em todo o país. A expectativa é que essa expansão econômica gere mão de obra a partir do mês que vem, reduzindo a taxa de desemprego - atualmente em 14%.

“Apesar do aumento do endividamento, não caminhamos para uma situação extremamente negativa. Vamos ter uma situação desconfortável até o fim do ano. Mas não é um cenário catastrófico. O que ajuda a economia neste momento é o aumento na circulação dos consumidores proporcionado pela expansão da vacinação. Se a imunização já era importante pela questão sanitária, está sendo fundamental do ponto de vista econômico”, avalia.

Para Fábio Bentes, a expansão desenfreada nos preços dos produtos de primeira necessidade é uma pressão a mais para o endividamento, mas é preciso que as famílias tenham consciência dos gastos em dezembro. “Quem precisa tomar empréstimo neste fim de ano tem que se preocupar com uma taxa de juros mais baixa, a fim de não comprometer 2022. Esse é o ponto fundamental para que o orçamento das famílias, que em janeiro já é pressionado com o pagamento de impostos e material escolar, não se torne algo fora de controle”, alerta.

 No cenário mais favorável avaliado pelo economista, estão fatores como a restituição do Imposto de Renda e o pagamento da segunda parcela do 13º salário. “É importante que o consumidor faça o gasto de suas despesas de forma responsável”, argumenta. Bentes diz que é fundamental as famílias entrarem em 2022 livres de dívidas ou com seus débitos controlados: “Em 2022%, diante das incertezas, é importante que o orçamento familiar esteja equilibrado, dentro da perspectiva de recuperação da economia”. (RD)


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