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Estado de Minas Tradição

Reconhecida produção de doces de Minas retoma vendas com arte e renovação

Polos da rica doçaria do estado, como delícias de São Bartolomeu, em Ouro Preto; a goiabada de Ponte Nova e o doce de leite de Viçosa driblam impacto da crise


29/07/2021 04:00 - atualizado 29/07/2021 07:29

(foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press. Brasil - 21/5/21)
(foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press. Brasil - 21/5/21)

"O segredo está na higiene e na qualidade da fruta"

Vicente Quirino Fontes, de 86 anos, veterano doceiro do distrito de São Bartolomeu

De Ouro Preto  –  A tricentenária Igreja São Bartolomeu, emoldurada por montanhas e pela luz do outono, é testemunha de uma história construída com muito trabalho, enriquecida nos frutos da terra e adoçada pelas mãos talentosas de homens e mulheres nascidos no distrito que leva o nome do santo padroeiro ou vindos de outras cidades de Minas Gerais.

Com o selo garantido pela conquista, em 2008, do título de Patrimônio Imaterial de Ouro Preto, na Região Central do estado, as delícias artesanais feitas com goiaba, jabuticaba, pêssego, figo, limão, cidra, laranja, mexerica, entre outras frutas colhidas no pé, fazem a festa para os cinco sentidos dos visitantes e sobrevivem aos tempos amargos de pandemia amparados pela criatividade das famílias produtoras.
 

Em Minas, os tempos atuais balançam as estruturas, e as atividades econômicas, independentemente do porte, procuram se adaptar à nova realidade, em muitos casos, encontrando novos caminhos. A produção de doces no estado abarca desde a oferta variada do distrito de Ouro Preto ao doce de leite produzido na Universidade Federal de Viçosa, na Zona da Mata, já considerado o melhor do Brasil em concursos de produtos lácteos, e aos caramelos octogenários da empresa exportadora Embaré.

 

O estado detém ainda polos produtores como os de Ponte Nova, com sua famosa goiabada, e Araxá, no Alto Paranaíba. Histórias de superação dos efeitos da pandemia de COVID-19 são contadas nesta reportagem, a quinta matéria da série “Reinvenção das nossas tradições” publcada desde domingo pelo Estado de Minas.

 

Há 40 anos residente em São Bartolomeu, aonde chegou com o marido Ronald Carvalho Guerra, o Roninho, ambientalista dedicado ao ecoturismo, a professora do ensino fundamental e doceira Pia Márcia Chaves Carvalho Guerra está à frente dos Doces Vovó Pia e da Associação dos Doceiros e Agricultores Familiares de São Bartolomeu, com 15 produtores cadastrados. “De março a outubro do ano passado, paramos com tudo, as vendas no atacado cessaram. Foi impossível trabalhar, pois o comércio fechou. Deixamos de comercializar nossos doces em calda e barra, geleias, licores e o vinho de jabuticaba em Ouro Preto e de enviar para Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro”, conta Pia, diante da lojinha no Sítio Jequitibá, onde o casal, vindo de Belo Horizonte, criou seis filhos e mantém o pomar.

 

Dar a volta por cima significa resistir às crises, e foi assim, com muito gosto e força de vontade, que Pia aproveitou o tempo para criar produtos. Na pandemia, “nasceu” o suco de jabuticaba totalmente orgânico, de tonalidade semelhante a do vinho e, vale destacar aqui, saborosíssimo, conforme constatou a equipe do EM. “Testamos muito, fizemos várias experiências até chegar ao resultado final. Acho que foi aprovado. Rico demais para a saúde, viu?”, diz a produtora, com satisfação, servindo ao repórter mais um gole da novidade líquida.

 

Com a esperança de que tempos melhores virão – principalmente “porque faço doce há quatro décadas por puro amor” -, a moradora de São Bartolomeu, a exemplo de outros doceiros locais, vem encontrando dificuldades para comprar os vidros para colocar os produtos. “Esse, agora, é o gargalo. Já mandei buscar até em Santa Catarina, mas aí encarece demais os custos, algo complicado para quem perdeu renda”. Um ponto positivo para atrair compradores está na nova sinalização que conduz os interessados ao sítio, no qual um quadro com versos da poetisa goiana Cora Coralina (1889-1985) dá as boas vindas: “Minhas mãos doceiras...jamais ociosas. Fecundas. Imensas e ocupadas. Mãos laboriosas. Abertas sempre para dar, ajudar, unir e abençoar”.

 

Janelas abertas Voltar aos velhos tempos, quando os produtos eram vendidos na janela do casarão localizado de frente para Igreja São Bartolomeu, foi a maneira encontrada por Vicente Quirino Fortes, de 86 anos, para vender seus doces, em especial a goiabada apelidada de “tijolo” devido ao tamanho dos 3 quilos de sabor. Casado há 53 anos com dona Serma, união que gerou seis filhos e se desdobrou em 10 netos, o bem-humorado “seu” Vicente é um dos mais antigos doceiros do distrito, atendendo na loja Doces Edu Tijolo. “Só não sou o mais velho, porque a tradição de doces aqui tem 200 anos”, avisa com um sorriso discreto.

 

A goiabada cascão se tornou o carro-chefe, mas tem também doce de leite. “O segredo da produção está na higiene e na qualidade da fruta. Quanto mais nova, melhor”, recomenda Vicente, explicando que, com a pandemia, anda se sente um prisioneiro, mesmo já tendo tomado as duas doses da vacina contra a COVID-19. Mas para dar asas à tradição e atender a clientela que voltou ao distrito, o doceiro está a postos na janela, com toda simpatia.

 

Mesmo impedido de entrar no estabelecimento, o freguês fica com água na boca e aprende que o talento passa de geração a geração. “Minhas netas estão fazendo bombons”, mostra todo orgulhoso a bandeja com os doces embalados em papel brilhante.

 

A produção artesanal de doces em São Bartolomeu tem registro de pelo menos dois séculos, começando com a marmelada, hoje sumida do mercado local. Há relatos de viajantes, no início do século 19, sobre os costumes alimentares na antiga Vila Rica, atual Ouro Preto, e arredores. Ao passar por Cachoeira do Campo, o austríaco John Pohl escreveu que receberá, de um “bom velho, uma caixa de doces do arraial vizinho de São Bartolomeu”.

 

Pia Chaves investiu em produtos como o suco de jabuticaba orgânico (foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press. Brasil - 21/5/21)
Pia Chaves investiu em produtos como o suco de jabuticaba orgânico (foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press. Brasil - 21/5/21)

 

Goiabada certificada e caramelos no exterior

 

Outro polo doceiro de Minas que ganhou fama está em Ponte Nova, na Zona da Mata. A Secretaria Municipal de Cultura informou que a famosa goiabada cascão produzida na cidade foi reconhecida como patrimônio imaterial em 2016. As pesquisas mostram que ela chegou ao município, no século 19, com as usinas de beneficiamento de cana-de-açúcar. Os operários, à época, levaram ao município o costume de comer o doce. Atualmente, há produtos que exibem o selo de reconhecimento por terem mantido a receita original. São eles Sinhá Mineira, Goiabada Zélia, Doces da Christy, Doces Jatiboca e outros.

 

Ser realista é essencial para sobreviver nos mares turbulentos revolvidos pelo coronavírus. “Estou me reorganizando. Mas a tábua de salvação, em meio a tantas ondas, é e será sempre a competência”, acredita a proprietária dos Doces da Christy, a empresária Christiana dos Mares Guias Martins, há 25 anos produzindo sua famosa goiabada cascão no Sítio Almécega, em Ponte Nova.

 

“Vivemos um período de muita dificuldade. Dos 14 funcionários que eu tinha antes da pandemia, permaneceram 8. Houve ajuda governamental para os trabalhadores, mas não para os microempresários. Então, continuamos passando aperto demais”, afirma.

 

Para Christiana, que batizou os doces com o apelido de infância, a informalidade chegou para ficar. “Não critico de forma alguma, pois tem muita gente vendendo comida, bolos e pudins deliciosos. No entanto, quem está estabelecido paga impostos e sofre severa fiscalização.” Em tempos de e-commerce e velocidade virtual, a empresária confia na credibilidade, na história do produto e no charme da marca. “O futuro dirá. Temos que esperar tudo isso passar, sem jamais tirar o pé do chão.”

 

Oportunidade Sexta maior empresa de laticínios do país, a Embaré, detentora da marca Camponesa e com 86 anos de história, supera os desafios impostos pela pandemia, investindo em tecnologia, na qualidade da produção e relacionamento com os clientes. Este ano, espera crescer 15%, com planos de expansão de vendas principalmente nas regiões Sudeste e Nordeste do país. Segundo a empresa, a estratégia dá continuidade aos projetos iniciados em 2020 com contrato de arrendamento de uma fábrica em Patrocínio, na Região do Alto Paranaíba. “Com a aquisição, a empresa aumentou em 16% a capacidade de processamento diário, atingindo a casa dos 2,8 milhões de litros de leite por dia”, diz o presidente Alexandre Antunes.

 

Presente em todos os continentes com suas linhas de confeitaria e lácteos, a empresa iniciou 2021 com importantes conquistas no mercado externo: retomou os mercados da Índia, Bulgária e Egito e passou a exportar caramelos para a Somália, Mauritânia, Argélia e Libéria. Também conquistou a Costco do Canadá, segundo maior varejista do mundo, com mais de 100 lojas no país e 12 milhões de associados (que correspondem a 43% da população). Para a linha de lácteos, a empresa também tem boas perspectivas para o ano. Abriu, recentemente, os mercados da Bolívia e da República Dominicana com exportação do leite condensado e consolidou a exportação de leite, creme de leite e leite UHT no Paraguai, quando embarcou 228 toneladas desses produtos em 2020. A expectativa é de um crescimento de 10% de volume em 2021. Para a Venezuela são exportados leite condensado, creme de leite, doce de leite e bebida láctea. Em 2020, a Embaré embarcou 712 toneladas de lácteos para o país e pretende manter o ritmo em 2021. (GW)

 

Produção roda em nova engrenagem

 

Doce mineiro faz sempre o maior sucesso. Em Viçosa, na Zona da Mata, são muitos os destaques conquistados pelo doce de leite produzido no Laticínio Escola, unidade da Fundação Arthur Bernardes, no câmpus da Universidade Federal de Viçosa (UFV). Por 10 vezes, o doce de leite Viçosa venceu o Concurso Nacional de Produtos Lácteos (CNPL), organizado pela Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) e o Instituto de Laticínios Cândido Tostes. Assim, ele se tornou o mais premiado em todas as edições do CNPL. Em 2016 e 2017, foi agraciado com condecoração recebida da Frente Gastronomia Mineira e o Instituto Eduardo Frieiro.

 

Recentemente, o seu processo de fabricação foi reconhecido como relevante interesse cultural de Minas e aprovado pelo plenário da Assembleia L egislativa em primeiro turno. O projeto de lei agora segue de volta para a Comissão de Cultura, antes de ser apreciado em segundo turno.

 

De acordo com a fundação, os meses de maior impacto da pandemia sobre as vendas foram abril e maio de 2020, com retração de aproximadamente 40% em ambos os meses, frente ao mesmo período de 2019. Junho representou a retomada dos níveis normais de produção. No início da crise sanitária, a produção ficou paralisada por duas semanas.

 

Frente ao cenário de incertezas, e sem condições de fazer projeções de consumo e demanda pelo produto, houve suspensão da fabricação de doce de leite e foram concedidas férias aos empregados dessa área. “Com essa medida, conseguimos ganhar tempo e abaixar os níveis de estoque. Quando os colaboradores retornaram, a demanda do mercado já estava em processo de recuperação e foi possível manter os empregos em um período onde a empregabilidade foi para nós prioridade”, explica o professor Rodrigo Gava.

 

A produção média mensal é de 120 toneladas de doce de leite. O leite é coletado na região de Viçosa e cidades vizinhas. A inovação, durante a pandemia, foi referente a mudanças de processos e procedimentos adotados como medidas protetivas contra a COVID-19. “Aderimos às reuniões on-line, setores de apoio atuaram em home office, enfim, tornamos nossos processos mais rápidos e estamos implementando o sistema de e-commerce.” 


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