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Estado de Minas Reportagem especial

Pandemia do coronavírus impõe também vida nova e por conta própria

Com muitas atividades afetadas pela pandemia, volta a crescer o universo de trabalhadores sem patrão em Minas


25/04/2021 04:00 - atualizado 25/04/2021 09:01

(foto: Arquivo pessoal)
(foto: Arquivo pessoal)
Diante das dramáticas consequências de mais de um ano de isolamento social no emprego e na renda dos brasileiros, milhares de profissionais em Minas Gerais, assim como no país, experimentam novas formas de trabalhar, e se lançam, com garra e pouco ou nenhum dinheiro, a atividades que nem sequer lembram a carreira escolhida.

''Moro num apartamento de dois quartos, peguei um quarto que era de visita, onde ficavam as roupas e o transformei em loja''

Lorena Nascentes, dona de empresas de eventos



O desafio é manter o ganha-pão, estratégia que transforma a casa em local para assumir a sobrevivência por conta própria, sem patrão ou ajuda financeira de governo.

Repleto de indefinições na saúde e na ecoomia, 2021 começou com 624 mil pessoas trabalhando de forma remota no estado, segundo os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) levantados de outubro a dezembro de 2020. No Brasil, são 7,3 milhões nessa condição.

(foto: Arquivo pessoal)
(foto: Arquivo pessoal)

''Fui me reinventando com vendas de chocolates pelo whatsapp''

Karla Aparecida Passos Nascimento, guia de turismo e agente de viagens



Essa parcela da população em Minas representa universo importante de 7,2% de todos aqueles que têm alguma ocupação no estado, reforçada por gente que se tornou dona do próprio negócio. Podem ser de pequenos ateliês de cuidados com beleza, à fabricação de bolos e pizzas e a venda de variados produtos.

Há casos em que estoques, a produção e o escritório foram levados para o lar, após esses empreendedores terem perdido a capacidade de sustentar um ponto de vendas nas ruas durante longo período da necessária quarentena para deter a contaminação pelo novo coronavírus. Minas terminou 2020 com aumento de 132 mil trabalhadores por conta própria de outubro a dezembro, na comparação com o trimestre anterior.



As histórias desses trabalhadores que estão entre os mais afetados pelos efeitos da pandemia, o atraso na vacinação e a falta de medidas efetivas para contrabalançar os efeitos das restrições sanitárias sobre a economia serão contadas em série de reportagens que o Estado de Minas começa hoje.

Captados na pesquisa do IBGE, Minas tem 2,331 milhões de pessoas atuando por conta própria, o que inclui aqueles com CNPJ,e, portanto, proteção legal, e os informais. Todo esse grupo significa 25,1% da população ocupada no estado.

É o maior percentual para o quarto trimestre de todos os anos do histórico de levantamentos do IBGE, realizados desde 2012, ou seja, há nove anos, dentro da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua.
 
A batalha de quem trabalha por conta e risco e dos empregados sem carteira, outro grupo que cresceu – 6,6% – no fim de 2020, é o que explica a recuperação recente das vagas no mercado de trabalho, segundo o coordenador da Pnad Contínua em Minas, Gustavo Fontes.

“Se essas pessoas estão conseguindo se inserir de alguma forma no mercado de trabalho, e obter renda, é importante para a economia”, afirma. O estado tem 1,082 milhão de empregados sem carteira.
 
Os efeitos da pandemia escancararam as dificuldades para os pequenos negócios estabelecidos em lojas e outros endereços comerciais, que já costumam trabalhar com estrutura de capital abalada, como observa Felipe Brandão, gerente da Unidade de Inteligência Empresarial do Sebrae Minas.

“A cultura empreendedora brasileira ajuda bastante, mas mesmo com resiliência e a capacidade de se virar, os desafios estão maiores”, destaca. Isso explica as quedas de 40% do número de pequenos negócios abertos em março no estado, frente a janeiro último e de 24% na comparação com março do ano passado.
 
Os dados do IBGE confirmam, de fato, que apenas um quarto dos trabalhadores por conta própria em Minas tinham CNPJ no último trimestre de 2020. Felipe Brandão, do Sebrae, lembra que diversos empreendedores fecharam as portas por não suportarem os efeitos das medidas de isolamento social, e levaram a estrutura do negócio para trabalhar dentro de casa até que possam ter o ponto de vendas novamente.

Houve quem reduziu o porte do empreendimento, passou a fazer vendas pela internet e de porta a porta, além de empreendores do ramo de alimentação que deixaram lojas para fazer alimentos congelados em casa com as mercadorias que estavam estocadas.

À luta


As áreas de cuidados com a beleza, vendas de roupas e acessórios e de alimentação têm sido embatíveis na preferência de quem deseja viver sem patrão, de acordo com o Sebrae Minas. Essa demanda pode ter se acentuado durante a pandemia, uma vez que a explicação para o sucesso desses segmentos na procura por um negócio próprio está ligada a investimentos iniciais baixos, em geral, nessas atividades.
 
A transformação do trabalho, para Lorena Nascentes, de 31 anos, foi maior. Dona de duas empresas do setor de eventos, ela não teve mais contratos a atender, com a chegada da quarentena, e se viu obrigada a demitir 17 funcionários. Buscando alternativa, em conversa com uma amiga, decidiu trabalhar com a venda de objetos de decoração e utensílios para o lar, criando a loja virtual Lar Sem Neura.
 
“Foi no meio dessa locura de pandemia que eu resolvi empreender e arriscar. Moro num apartamento de dois quartos, peguei um quarto que era de visita, onde ficavam as roupas e o transformei em loja”, conta Lorena Nascentes.

Prateleiras na parede do quarto foram usadas para abrigar o estoque de produtos e a casa virou o ponto de atendimento. A empreendedora já obtém do novo negócio o próprio sustento e vem investindo na qualificação para a venda de produtos, um mundo novo para ela, que se especializou na prestação de serviços.
 
Mudar de área de atuação profissional foi também a solução encontrada por Karla Aparecida Passos Nascimento, de 37. Guia de turismo e agente de viagens há 13 anos, ela enfrentou o fechamento do setor por longo tempo desde o primeiro caso de contaminação pelo coronavírus no Brasil. Para vencer a dificuldade com o profundo corte na renda familiar, se refez como revendedora de chocolates.
 
“Sem o turismo, caiu mais de 98% o meu faturamento. Ano passado, minha amiga encomendou ovo de Páscoa comigo e a partir daquela venda comecei a focar num novo empreendimento e deu certo. Fui me reinventando com vendas de chocolates pelo whatsapp”, diz. Karla criou o @espacokarlapassos e tem bancado o sustento da família de oito pessoas.

Futuro de incertezas


Ainda é cedo para prever como o emprego e a renda dos trabalhadores por conta própria vão se comportar neste ano, quando mais uma vez o Brasil enfrenta dificuldades para a recuperação da economia. “Dependerá de como a economia reagir em 2021. O mercado de trabalho está associado ao desempenho da economia e tudo o que contribuir para a retomada das atividades econômicas será importante”, afirma Gustavo Fontes, coordenador em Minas da Pnad Contínua, do IBGE.
 
Os dados do instituto relativos ao primeiro trimestre em Minas Gerais serão divulgados em 27 de maio. Do ponto de vista dos vencimentos, o rendimento médio real (descontada a inflação) das pessoas ocupadas no estado era de R$ 2.172 mensais no trimestre de outubro a dezembro de 2020, representando diminuição de 0,9% na comparação com os três meses anteriores. Quando analisada a estatística para o Brasil, observa-se que a renda média real dos trabalhadores por conta própria, de R$ 1.802 mensais, fica abaixo da média nacional de R$ 2.507 ao mês, também apurada de outubro a dezembro de 2020.
 
Pesquisa do Sebrae identificou redução da confiança dos pequenos negócios em Minas. O Índice Sebrae de Confiança dos Pequenos Negócios (ISCON) caiu 17 pontos em março frente a fevereiro, em levantamento feito junto a 1.330 empreendedores entre os dias 6 e 15 do mês passado. “Os pequenos negócios dependem da circulação de pessoas e de dinheiro.

Se a economia fica adormecida por tempo demais, a necessidade de energia que você precisa para reativá-la é muito maior”, diz Felipe Brandão, gerente da Unidade de Inteligência Empresarial do Sebrae Minas.

De um lado, a instituição esperava melhora do consumo neste segundo trimestre, mas, de outro, o que preocupa é a falta de políticas públicas voltadas para auxílio aos empreendedores. Há um sinal positivo, destacado por Felipe Brandão, no início das discussões no Congresso sobre ajuda financeira às empresas afetadas pelos efeitos da pandemia de COVID-19.


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