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Estado de Minas COVID-19

Vírus encontrado em frango põe indústria em alerta

China detectou coronavírus em produto do Brasil e em camarão do Equador. OMS descarta contaminação por alimentos e não vê motivo para alarde


14/08/2020 04:00 - atualizado 13/08/2020 23:21

Brasil é o maior produtor mundial de carne da ave e ministra da Agricultura não vê risco para as exportações brasileiras (foto: Sindiavipar/Divulgação - 21/01/2016)
Brasil é o maior produtor mundial de carne da ave e ministra da Agricultura não vê risco para as exportações brasileiras (foto: Sindiavipar/Divulgação - 21/01/2016)
O anúncio ontem de autoridades da China de que foi detectado o novo coronavírus em frangos importados do Brasil e camarões procedentes do Equador não deve assustar a população. Segundo especialistas, não há evidências de transmissão da COVID-19 por alimentos, ainda mais depois de cozidos. As autoridades chinesas informaram que submeteram imediatamente a exames as pessoas que tiveram contato com os produtos que estariam contaminados, assim como seus parentes. Todos os testes apresentaram resultado negativo, segundo o comunicado.

Apesar disso, a contaminação de frango brasileiro pode provocar uma nova queda das exportações brasileiras para a China, embora o Ministério da Agicultura e Pecuária não veja motivo para preocupação (leia ao lado).  Em fevereiro de 2019, Pequim passou a aplicar por cinco anos tarifas antidumping ao frango brasileiro, que vão de 17,8% a 32,4%. O Brasil, maior produtor mundial de carne de frango, era até 2017 o principal fornecedor de frango congelado para a China, por um valor que se aproximava de US$ 1 bilhão por ano e um volume que representava quase 85% das importações do gigante asiático.

Minas é o quinto estado na produção avícola no Brasil, com participação de 8,3% no rebanho efetivo e cerca de 122 milhões de cabeças. As exportações de carne de frango de janeiro a junho deste ano tiveram incremento de 17,2% em volume, em um total de 51,7 mil toneladas, resultando em receita de US$ 86,5 milhões (cerca R$ 450 milhões). O consumo per capita doméstico é de 43kg.

Manejo


De toda forma, é recomendado o máximo cuidado no contato com os alimentos. Seja durante a produção, pelos funcionários dos frigoríficos, seja em casa, pelo consumidor final. “Temos duas questões aí. Uma é que o vírus não tolera altas temperaturas e também não sobrevive ao pH ácido do estômago. Porém, somente se partículas viáveis do vírus entrarem em contato com as mucosas nasais, acredito que possa haver risco”, diz a virologista Jordana Coelho dos Reis, da UFMG.

Ela ressalta que um parecer mais minucioso dependeria de saber qual quantidade de coronavírus foi encontrada nas asas de frango congeladas exportadas do Brasil para a o país asiático. Mas vê que, qualquer que seja o montante, mostra que o controle de qualidade falhou. “O ideal é que a indústria testasse seus funcionários semanalmente, mas a gente sabe que isso não ocorre. E que muitos empregados escondem os sintomas por medo de demissão, além de haver assintomáticos”, pondera a médica. Um alerta das autoridades é que a indústria de carnes já foi responsável por outras epidemias. Não à toa, muitas das doenças são batizadas com nomes referentes a isso, como gripe aviária e gripe suína, como bem lembra Jordana.


sem risco


A Organização Mundial da Saúde (OMS) garantiu que não é possível uma transmissão do novo coronavírus através de comida, depois que a China descobriu partículas da COVID-19 em alimentos importados. “Não acreditamos que o coronavírus possa ser transmitido através de alimentos. Se entendemos bem, a China encontrou o vírus nas embalagens, testou com centenas de milhares e encontrou em algumas, menos de 10 deram positivo”, explicou a cientista Maria Van Kerkhove, responsável da unidade de enfermidades emergentes da OMS.

Porém, “sabemos que pode permanecer na superfície durante um tempo” e “temos dados indicativos, através da FAO (a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação) para que os trabalhadores do setor alimentício se encontrem em segurança no ambiente de trabalho”, afirmou Van Kerkhove.
“Nossa alimentação em relação à COVID é segura”, defendeu Michael Ryan, diretor de situações de emergência sanitária da OMS, que afirmou que “não há nenhuma prova de que os alimentos ou as cadeias alimentares participem da transmissão do vírus”. “Não devem exagerar nesse tipo de informação”, garantiu Ryan. “A gente já tem medo suficiente da pandemia”, completou.

Ministério não espera impacto nas exportações


O Ministério da Agricultura , Pecuária e Abastecimento (Mapa) informou que "até o momento (ontem) não foi notificado oficialmente pelas autoridades chinesas” sobre a suposta detecção de traços de coronavírus em lote de asas de frango brasileiro importado pelo país. O ministério disse que após notícia veiculada na imprensa de uma província chinesa, acionou o adido agrícola em Pequim, “que consultou a Administração Geral de Aduanas da China (GACC) buscando informações oficiais que esclareçam as circunstâncias da suposta contaminação”. O GAAC é o órgão do governo chinês responsável pela habilitação de estabelecimentos exportadores e que também realiza o controle de mercadorias na aduana.

Na madrugada de ontem, o governo da cidade de Shenzhen, no Sul da China, disse que teste feito em uma amostra de asa de frango congelada importada do Brasil apontou presença da COVID-19. Segundo a administração local, a descoberta foi feita após uma pequena amostra da superfície ser retirada do lote e testada por centros locais de controle de doenças. De acordo com o comunicado, por meio do número do lote identificou-se como sendo da Aurora Alimentos, de Santa Catarina.

Para a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, o fato não é positivo para a imagem do país. Ela acredita, no entanto, que o episódio não vá afetar a exportação do produto brasileiro. “É claro que não é bom para a imagem de ninguém, agora acho que isso não afeta (a exportação brasileira), porque nós temos confiança nos nossos serviços e nas empresas que estão cumprindo um protocolo rígido, cuidando da segurança dos funcionários”, disse a ministra ao jornal Folha de S. Paulo. Segundo a ministra, o Brasil ainda aguarda uma posição oficial do governo chinês.

A ministra informou ainda que o vírus teria sido detectado em uma única embalagem de carne de frango congelada, sendo que todas as outras deram negativo para os testes, O governo brasileiro que saber que tipo de teste foi feito, assim como o protocolo usado pelos chineses. “Já houve plantas no Brasil que foram suspensas e já voltaram. Já houve plantas na Argentina que foram suspeitas e voltaram. Não por causa do alimento. Não existe comprovação científica em lugar nenhum do mundo de que você tem contaminação em alimentos. Então, é um assunto que vamos lidar até a pandemia acabar”, avaliou Tereza Cristina.

No comunicado, o Mapa “reitera a inocuidade dos produtos de estabelecimentos” sob o Serviço de Inspeção Federal (SIF) – sistema de controle e credenciamento de frigoríficos. “Visto que obedecem a protocolos rígidos para garantir a saúde pública”, destaca a nota.

Empresas


Terceira maior empresa do país em processamento de carne de frango e suína, a Aurora afirmou não ter sido notificada, até ontem, da contaminação por coronavírus na embalagem de um dos produtos exportados para a China. “As medidas estabelecidas pelas autoridades públicas, relativas ao combate à pandemia estão sendo integralmente seguidas e cumpridas, além da observância de um rigoroso protocolo individual, aprimorado continuamente, de cuidados com seus colaboradores e terceiros, o que tem sido constatado e confirmado pelas diversas fiscalizações dos entes públicos através das respectivas vigilâncias epidemiológicas”, destacou a empresa.

Já a BRF revelou que os testes de produtos para detectar uma possível contaminação por coronavírus, exigidos pelo governo chinês, são “extremamente complexos”. Depois da ocorrência de casos de coronavírus em fábricas da empresa, o governo chinês suspendeu a compra de duas unidades da BRF. “Sem dúvida que existem casos de Covid em frigoríficos”, disse o presidente-executivo da BRF, Lorival Luz, em conversa com jornalistas, sem revelar se houve morte de algum funcionário pela doença.

A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) informou ontem que analisa as informações sobre possível contaminação por coronavírus em embalagem de frango com origem no Brasil. Para a ABPA, não está claro em que momento teria havido a eventual contaminação da embalagem do produto da Aurora Alimentos, sendo que ela pode ter ocorrido no processo de transporte e exportação. “A ABPA reitera que não há evidências científicas de que a carne seja transmissora do vírus, conforme ressaltam a OMS, a FAO, a Organização Mundial de Saúde Animal e a Anvisa”, afirmou a entidade em nota.



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