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Estado de Minas

Crise não afeta mercado de cosméticos, que cresce 10,6%

Depois de dois anos em ritmo lento, setor acelera 10,6% no primeiro trimestre. Diversificação de produtos, aumento do crédito e retomada da economia brasileira impulsionam os negócios


postado em 06/06/2019 06:00 / atualizado em 06/06/2019 08:24

Vendas de produtos de beleza e cuidados pessoais alcançaram R$ 109,7 bilhões em 2018, alta real de 1,53%. A Natura manteve a liderança e o Boticário passou a Unilever, assumindo a 2ª colocação (foto: Erbs Jr/Divulgação 13 11/1/18 e Natura Divulgação - 2/4/19)
Vendas de produtos de beleza e cuidados pessoais alcançaram R$ 109,7 bilhões em 2018, alta real de 1,53%. A Natura manteve a liderança e o Boticário passou a Unilever, assumindo a 2ª colocação (foto: Erbs Jr/Divulgação 13 11/1/18 e Natura Divulgação - 2/4/19)

São Paulo – Não é apenas a fusão da Natura com a Avon, negócio que vai criar o quarto maior grupo de cosméticos do mundo, com faturamento de mais de US$ 10 bilhões por ano, que está movimentando a indústria brasileira da beleza.

Depois de avançar menos de 5% durante dois anos consecutivos, o setor de cosméticos, perfumes e produtos de higiene pessoal, produtos chamados de “não-medicamentos” no jargão do mercado, voltou a subir com força – um sinal inequívoco não apenas da maturidade do segmento, mas do potencial da economia brasileira.

Segundo levantamento da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), as 25 maiores varejistas do setor movimentaram R$ 4,7 bilhões entre janeiro e março de 2019. O valor corresponde a um salto de 10,64% em relação ao mesmo período do ano passado. Para efeito de comparação, entre janeiro e março de 2018 o desempenho foi bem menor: 4,58%. Em 2017, mais tímido ainda: 3,73%.

Os números atuais dão a dimensão da força desse ramo de negócios no Brasil, um dos campeões mundiais no consumo per capita de cosméticos.

Sérgio Mena Barreto, presidente da Abrafarma(foto: Divulgação)
Sérgio Mena Barreto, presidente da Abrafarma (foto: Divulgação)

“A situação reflete especialmente o aumento dos gastos do público feminino, que representa 70% dos consumidores no grande varejo farmacêutico”, afirma Sergio Mena Barreto, presidente da Abrafarma. “Além disso, vale destacar que os preços dos não-medicamentos não sofrem interferência ou controle do governo.”

A associação reúne pelo menos 7,4 mil lojas no território nacional. Somadas, elas respondem por 42% das vendas de medicamentos no país, segundo a entidade. Em 2018, houve mais de 900 milhões de atendimentos, com vendas totais de R$ 47,17 bilhões.

O executivo também atribui a retomada à demanda pelo crédito ao consumidor, que avançou 7,2% nos três primeiros meses deste ano, segundo pesquisa da Boa Vista.

O cenário positivo serviu de incentivo para que os pontos de venda incluíssem outros produtos para diversificar as múltiplas alternativas oferecidas à clientela. “Com mais investimentos das farmácias, que ampliaram a variedade nas prateleiras e investiram em novos produtos, a tendência é de aumento das vendas”, acrescenta Barreto.

O crescimento do mercado de cosméticos no Brasil tem ajudado a fortalecer as marcas 100% nacionais. Segundo dados da empresa de pesquisas Euromonitor International, as vendas do setor de produtos de beleza e cuidados pessoais alcançaram R$ 109,7 bilhões em 2018, uma alta real (descontada a inflação) de 1,53%.

Nesse contexto, a Natura manteve a liderança, e o Grupo Boticário deixou para trás a Unilever, assumindo a segunda colocação no ranking.

Além disso, o bom desempenho do cenário geral de higiene pessoal e cosméticos está contribuindo para que o setor farmacêutico supere um período conturbado. Segundo a Abrafarma, o momento é de comemoração, mas o passado recente mostra que é importante não baixar a guarda.

Em 2018, com fortes turbulências na economia brasileira, os fabricantes enfrentaram dificuldades, com alta de apenas 2% no faturamento. Como resultado desse processo, a inflação dos itens de higiene fechou 2018 em queda de 3,2%. Já o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), no mesmo intervalo, subiu 3,75%.

“O período foi desafiador, porque não recuperamos as margens”, lembra João Carlos Basilio, presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal e Cosméticos (Abihpec). Em 2017, a expansão chegou a 5,8% e, no exercício anterior, a quase 4%. Para 2019, a estimativa da entidade indica um crescimento nominal de 4,1% nas vendas (para R$ 50,43 bilhões).

A performance positiva do mercado está refletida no ânimo das empresas do setor. A americana Procter & Gamble (P&G) detectou o reaquecimento da economia no quarto trimestre e aposta na sequência positiva, segundo o diretor de inteligência de mercado, Marcos Bauer.

De acordo com o executivo, as perspectivas são de recuperação das vendas retraídas nos últimos anos. Ainda é cedo para dizer se os negócios vão crescer em ritmo forte, mas a largada já foi dada. Bauer afirma que a P&G mantém condições de absorver os bons ventos deste ano, principalmente depois da inauguração do centro de inovação da América Latina, em São Paulo.

Na categoria de perfumaria, a Abihpec – entidade que reúne gigantes como Natura, Johnson & Johnson, Avon, Colgate-Palmolive, Grupo Boticário, Unilever e Kimberly-Clark – destaca o pulo de 8,1% nas vendas dos fabricantes em 2018. Para 2019, a estimativa é de um crescimento nominal das vendas de 4,1%, a R$ 50,43 bilhões.

O Grupo Boticário – líder em perfumaria no Brasil – acrescentou 7% ao faturamento do ano passado (a R$ 13,1 bilhões), o que abrange as marcas Eudora, Vult, Multi B, The Beauty Box e O Boticário. No Grupo Cless, que detém a Charming, Lightner e Care Liss, espera-se que as vendas consigam 20% a mais este ano. Em 2018, o movimento totalizou R$ 268 milhões, avanço de 12% na comparação anual.

Empresas apostam até em orgânicos

Com setor voltando a crescer nos primeiros meses do ano, empresas da cadeia de cosméticos apostam na sustentabilidade como diferencial para ganhar mercado. Entre as apostas, se destacam os produtos orgânicos, vistos como nova tendência não apenas no Brasil, mas em diversas partes do mundo.

“A principal tendência são os produtos verdes e naturais, especialmente no que se refere à matéria-prima”, disse Diego de Carvalho, diretor da Nürnberg Messe Brasil, organizadora da Exposição Internacional de Tecnologia para a Indústria Cosmética (FCE Cosmetique).

A aposta está no radar não só das grandes empresas do setor, mas também das novatas. A Dinaco, empresa de representação comercial, importação e distribuição de especialidades químicas, afirma que há uma demanda crescente de produtos com apelo sustentável.

“Temos investido cada vez mais na ampliação do portfólio de produtos orgânicos, naturais e veganos para atender essa necessidade do mercado”, afirma a diretora da companhia, Marina Fernandes.

Ela afirma que, embora o mercado viva um momento de desafios, é possível aquecer a indústria com inovação. “A Dinaco foi a primeira distribuidora a ter um laboratório de desenvolvimento e inovação no Brasil. Temos uma equipe que testa aplicações para produtos e ajudamos clientes que não têm essa estrutura”, diz a executiva.

Na avaliação da gerente de relacionamento da Garden Química, Thaís Rosa, o setor ainda não vive o melhor momento. Significa, portanto, que o melhor está por vir. “Mas o resultado da empresa está dentro do esperado”, diz a executiva. “Estamos diversificando para atuar em novas faixas de mercado”, conta
.
A empresa, que atua na importação, fabricação e distribuição de cosméticos, fechou recentemente um contrato de distribuição exclusiva com a Amazon Oil, especializada em produtos naturais originados da Floresta Amazônica. “As inovações e a mudança de mentalidade de buscar produtos orgânicos no lugar de sintéticos impulsionaram investimentos no setor.”

A gerente de marketing da Scentec Essências e Fragrâncias, Jennifer Csasznik, declara que a empresa tem uma expectativa positiva para 2019. “Começamos a atender o Nordeste e agora estamos presentes em todas as regiões.

Trata-se, de fato, de um mercado de grande potencial.” Jennifer conta que a empresa já registrou crescimento no primeiro trimestre. “O mercado melhorou em relação ao ano passado, sentimos as empresas mais positivas. É difícil prever como será o resto do ano, mas estamos muito otimistas”.

Uma das preocupações da profissional de marketing é a instabilidade cambial, que atrapalha as atividades do setor. “O dólar é complicado, pois a matéria-prima é importada, mas o mercado tem que absorver. O mês de maio foi bastante crítico nesse sentido.”

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