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Estado de Minas

Indústria da maconha vai movimentar US$ 194 bilhões até 2026

Atualmente, 40 nações permitem o uso medicinal da erva e outros cinco, o recreativo


postado em 17/05/2019 06:00 / atualizado em 17/05/2019 08:17

Expectativa é que o número de países com algum tipo de uso da cannabis liberado chegue a 60 em cinco anos (foto: LARS HAGBERG)
Expectativa é que o número de países com algum tipo de uso da cannabis liberado chegue a 60 em cinco anos (foto: LARS HAGBERG)

São Paulo – Poucos negócios oferecem tantas oportunidades no mundo atual do que a indústria da cannabis. Um relatório recente publicado pelo Banco de Montreal, a instituição privada mais antiga do Canadá – e, portanto, bastante tradicional – chegou a essa conclusão. “O potencial é tão grande que poderia eventualmente elevar o nível do céu”, disse o relatório.

 

O mercado global de cannabis movimentou no ano passado US$ 18 bilhões. Segundo o levantamento do Banco de Montreal, ele chegará a US$ 194 bilhões até 2026. Isso se o número de países que liberarem o uso medicinal e recreativo da erva não aumentar mais do que o previsto.

Atualmente, 40 nações permitem o uso medicinal da erva e outros cinco, o recreativo. Estima-se que, nos próximos cinco anos, 60 países terão de alguma forma autorizado o uso da erva para fins diversos.

 

Por mais surpreendente que possa parecer, nenhum país tem impulsionado tanto os negócios ligados à maconha quanto os Estados Unidos. De acordo com um relatório publicado pela consultoria Whitney Economics em parceria com o site Leafly, atividades ligadas à cannabis empregam 300 mil pessoas em território americano – mais do que as fabricantes de cerveja, que contam com 69 mil trabalhadores.

 

Segundo o mesmo estudo, a força de trabalho relacionada ao mercado da maconha avançou 44% nos Estados Unidos no ano passado, e deverá crescer ainda mais em 2019. Projeções mostram que, até 2025, aproximadamente 500 mil americanos deverão ter sua renda associada à indústria da maconha.

Atualmente, a indústria legal da erva movimenta US$ 10 bilhões nos Estados Unidos. Dez estados americanos já legalizaram o uso do produto e 34 liberaram a maconha para fins medicinais. Segundo especialistas, os americanos se despiram de velhos preconceitos e perceberam que a indústria oficial da cannabis pode gerar muito dinheiro – e produzir novas fortunas em ritmo alucinante.

 

O crescimento extraordinário dos negócios da cannabis tem atraído empresas de diversos setores. A Ambev fechou no final do ano passado uma parceria com a canadense Tilray, uma das maiores produtoras de maconha do mundo, para a pesquisa e desenvolvimento de bebidas feitas à base de cannabis, com infusões de CBD e THC – os dois canabinoides mais conhecidos do mercado. Enquanto o THC é responsável pelos efeitos alucinógenos, o CBD tem propriedades relaxantes.

Opção para crescer

Descobrir novas frentes de negócios é um imperativo para a indústria de bebidas. A venda de bebidas alcoólicas está estagnada nos Estados Unidos e a de refrigerantes tem sofrido com a concorrência feroz dos produtos naturais e menos danosos à saúde. Quem não se reinventar – ou ao menos encontrar novas possibilidades no mercado – estará condenado ao desaparecimento.

 

A maconha pode ser uma saída. A Constelattion Brands, que detém a marca Corona nos Estados Unidos, comprou 38% da canadense Canopy Growth, uma das líderes do mercado local de maconha, e a Heineken lançou em meados do ano passado bebidas com CBD e THC, vendendo os produtos principalmente na Califórnia, na costa oeste dos Estados Unidos, que se tornou o maior mercado legal de maconha do mundo.
Não são apenas as empresas de bebidas que vislumbram possibilidade lucrativas com a cannabis. A Altria, segunda maior empresa de tabaco do mundo e dona da marca de cigarros Marlboro, investiu recentemente US$ 2 bilhões na Cronos Group, empresa canadense que desenvolve pesquisas que estudam as possibilidades de aplicação da maconha.

 

Até empresas de iluminação entraram na onda. Maior companhia global do setor, a Signify, derivada da Royal Philips, tem faturado com a venda de equipamentos chamados de “luzes de cultivo”. Em entrevista recente concedida à Bloomberg, Eric Rondolat, CEO da Signify, saiu em defesa da erva. “Onde está legalizado, nós participamos”, disse Rondolat. “No mundo inteiro, vemos uma evolução na mentalidade sobre a produção de cannabis. Esse já é um mercado substancial e com uma perspectiva muito interessante daqui para a frente.”

 

A Signify não fornece detalhes sobre a performance das vendas de luzes de cultivo de maconha, mas números gerais do mercado confirmam o tremendo potencial do setor. Com a legalização da cannabis para fins medicinais em diversos países, o mercado de iluminação para horticultura deverá crescer de US$ 2,1 bilhões em 2018 para US$ 6,2 bilhões até 2023, segundo projeções feitas pela firma de consultoria Markets and Markets.

Mercado nacional

No Brasil, o debate a respeito da legalização ganhou volume nos últimos meses. O projeto que legaliza o uso da cannabis sativa para fins medicinais está na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) do Senado. De acordo com o texto, a droga poderá ser usada para aliviar as dores em doentes de câncer ou para controlar as convulsões em epiléticos. No Brasil, cerca de 600 mil pessoas sofrem de epilepsia resistente aos tratamentos convencionais – é esse público que os defensores da liberação afirmam querer ajudar.

 

Apesar das incertezas, investidores brasileiros estão atentos a esse mercado. O Greenfield Global Opportunities, fundo criado por Martim Mattos, ex-diretor financeiro da Hypermarcas, está investindo em países onde o uso medicinal ou recreativo da maconha é permitido.

 

Os investimentos do Greenfield se concentram nos Estados Unidos e Canadá, que lideram as inovações no setor. Entre os aportes, consta a empresa de big data Headset, que coleta dados das vendas de cannabis no varejo, e a Northern Swan, terceira maior produtora de maconha do mundo na área de cultivo.

No Brasil, US$ 2,4 bilhões em negócios

Enquanto diversos países avançam na liberação de produtos derivados da cannabis, no Brasil eles estão muito longe de ser negociados livremente. Segundo especialistas, a legalização tem poucas chances de avançar, considerando principalmente o perfil conservador do atual governo e do Congresso.

 

Estudos recentes mostram que, do ponto de vista econômico, a liberação poderia trazer benefícios ao país. Se fosse liberado, o mercado de cannabis acessível (maconha regulamentada e ilícita) movimentaria cerca de US$ 2,4 bilhões no Brasil, segundo levantamento realizado pela consultoria americana New Frontier Data em parceria com a The Green Hub, empresa brasileira especializada em potencializar iniciativas no mercado de cannabis medicinal.

 

Na América Latina, a erva poderia gerar receitas de US$ 9,8 bilhões nos cinco principais países consumidores, incluindo México (US$ 1,9 bilhão), Chile (US$ 1,5 bilhão), Argentina (US$ 1,1 bilhão) e Colômbia (US$ 700 milhões). Os países latino-americanos citados no relatório da New Frontier Data contabilizam uma população de 600 milhões de habitantes, dos quais 13 milhões consomem cannabis no mínimo uma vez por ano.

 

“À medida em que a comunidade internacional dedica cada vez mais atenção a uma reforma das leis de consumo de cannabis e envolve-se com o setor da cannabis legalizada, surge uma miríade de oportunidades em lugares onde até pouco tempo atrás essa atividade parecia inimaginável”, diz Giadha Aguirre de Carcer, fundadora e diretora-executiva da New Frontier Data.

 

Como não poderia deixar de ser, há muita controvérsia sobre uma possível descriminalização da maconha no Brasil. Para juízes e desembargadores do Fórum Nacional de Juízes Criminais (Fonajuc), o país não está preparado para enfrentar as possíveis consequências da liberação da erva ao consumo próprio. Para a entidade, as cidades brasileiras se tornariam ainda mais violentas com o possível surgimento de novos grupos criminosos que lutariam pelo controle dos processos de distribuição da maconha aos consumidores.


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