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Estado de Minas

Com pouco fôlego, país só recupera ritmo em 3 anos, avaliam especialistas

Estimativa de pesquisadoras da FGV é de que o Brasil voltará ao nível de crescimento anterior à recessão apenas no começo de 2021. Reformas e ajuste fiscal são essenciais


postado em 13/10/2018 06:00 / atualizado em 13/10/2018 07:45

Efeitos da greve dos caminhoneiros em maio e baixo investimento complicam reação da indústria, comércio e dos prestadores de serviços(foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press)
Efeitos da greve dos caminhoneiros em maio e baixo investimento complicam reação da indústria, comércio e dos prestadores de serviços (foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press)

Brasília – Mantido o ritmo atual, o Produto Interno Bruto (PIB, o conjunto da produção de bens e serviços do país) só retomará, no primeiro trimestre de 2021, o nível que apresentava antes da recessão econômica. Os cálculos foram feitos pelas economistas Silvia Matos e Luana Miranda, da Fundação Getulio Vargas (FGV). O cenário não faz parte de uma projeção oficial da entidade, e pode se concretizar caso o Brasil continue com o mesmo desempenho fraco.


O crescimento mais vigoroso será difícil, porque, segundo especialistas ouvidos pelo Estado de Minas, o Brasil perdeu muito potencial para expansão, devido o baixo nível dos investimentos no país. Enquanto isso, os candidatos à Presidência da República ainda precisam esclarecer como será a agenda de governo.


A crise econômica se alastrou em todos os setores e levou o PIB a despencar 8%, entre o segundo trimestre de 2014 e o quarto trimestre de 2016. Depois desse período, o Brasil só conseguiu avançar 2,5% até outubro deste ano. A previsão de crescimento da FGV para o fim de 2018 é de 1,5%. “Se essa taxa se concretizar, nós vamos recuperar 3,9%, o que não é nem a metade do que perdemos no período de recessão”, explica Luana Miranda. “Nunca tivemos uma recessão tão forte assim. E temos uma recuperação muito lenta, o que é algo inédito”, completa a pesquisadora.


O país conseguiu retomar o crescimento em 2017, mas ainda muito aquém do esperado. Ainda que com a inflação controlada e a taxa de juros Selic (que remunera os títulos do governo no mercado financeiro e serve de referência para as operações nos bancos e no comércio) no menor patamar da história, os índices setoriais frustraram e fatores como a greve dos caminhoneiros e a campanha eleitoral ajudaram a frear a reação da economia.


“Como a recuperação está lenta, nós demoraríamos 11 trimestres para recuperar o nível que tínhamos no período pré-recessão, a contar a partir do 3º trimestre deste ano. Estamos supondo que a expansão trimestral média seja de 0,5%, como o país vem apresentando desde o primeiro trimestre de 2017”, explica Luana.

Desemprego A economista ressalta que o principal problema é o mercado de trabalho, que está se recuperando de forma muito lenta. Ainda há quase 13 milhões de desempregados, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Outro fator é o tamanho da incerteza de 2018 por conta das eleições e do cenário internacional. São pontos que prejudicam muito nossa visão de recuperação para frente. Nós precisamos equilibrar as contas públicas, senão será muito difícil crescer e voltar a ter investimentos”, comenta. A analista espera que o PIB de 2019 avance 1,9%, mas essa taxa deve ser revista diante de novas turbulências.


Marco Antonio Cavalcanti, diretor-adjunto de estudos e políticas macroeconômicas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), explica que, por falta de aplicações na economia, a expansão do Brasil está 3,7% abaixo do seu potencial. Do lado do setor público, o déficit fiscal diminui a capacidade do governo de fazer investimentos na economia.

Na iniciativa privada, as incertezas dominam o ambiente de negócios. Ou seja, o risco é alto para investidores. “Além disso, a Petrobras teve sua capacidade de investimento prejudicada nos últimos anos, por conta das crises. A construção civil foi fortemente afetada pelo menor financiamento de grandes empreiteiras, que estavam envolvidas nos escândalos da Lava-Jato”, diz.


“É muito difícil dizer ainda o que será de 2019 para frente, porque a minha visão é de que o ano espera que as reformas necessárias aconteçam e de forma imediata. O cenário ainda é muito incerto”, enfatiza a pesquisadora da FGV. Do lado político, tanto Jair Bolsonaro (PSL), quanto Fernando Haddad (PT), que disputam a principal cadeira do Executivo, ainda precisam detalhar suas propostas para a recuperação da economia. 

Presidenciáveis deixam investidores inseguros


Político de orientação conservadora, o candidato do PSL e seu assessor econômico, Paulo Guedes, têm divergido em alguns pontos. O economista é a favor de privatizar várias estatais, principalmente as deficitárias, como a Eletrobras. O militar reformado, porém, defende que o setor de energia é estratégico e afirma que não “venderá o país para a China”. O movimento gerou mal-estar no mercado financeiro na última quarta-feira.


Os investidores avaliam que, entre o presidencial conservador e Fernando Haddad, do PT, Bolsonaro estaria melhor preparado para tocar a agenda de reformas, mas ainda veem o futuro incerto com o candidato do PSL. Com Haddad, o medo é maior, porque o plano de governo é considerado um retrocesso na área econômica.


O candidato petista tenta relativizar alguns pontos e avança para o centro, na tentativa de obter votos. Mas o fracasso da gestão Dilma Rousseff fez com que o país entrasse na maior recessão da história, fazendo com que o mercado tenha “pânico” da volta do PT ao poder, segundo analistas ouvidos pelo EM. De 2014 a 2018, portanto incluindo o período de governo do presidente Temer desde 2016, quando Dilma sofreu impeachment, a miséria aumentou no país e atingiu mais de 23 milhões de pessoas, segundo a FGV.


O consumo das famílias está baixo em razão do desemprego elevado. O mercado de trabalho não melhora diante dos baixos investimentos, que estão em 16% do PIB, segundo os dados do segundo trimestre de 2018. O índice é baixíssimo se comparado a níveis históricos. “A economia está em compasso de espera, aguardando se será possível um crescimento maior com o novo governo e as políticas que serão adotadas”, afirmou Cavalcanti, economista do Ipea. (HF)

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