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Estado de Minas

Lojistas reclamam de sumiço dos clientes em BH

Comerciantes relatam queda nas vendas e creditam o momento ruim dos negócios à instabilidade do país, agravada pela greve dos caminhoneiros e até pela Copa do Mundo


postado em 08/07/2018 06:00 / atualizado em 08/07/2018 07:43

Loja de sapatos no Centro de BH: faturamento caiu 30% desde janeiro e as vendas estão fracas mesmo com a chegada do inverno(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
Loja de sapatos no Centro de BH: faturamento caiu 30% desde janeiro e as vendas estão fracas mesmo com a chegada do inverno (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)

Embora indicadores econômicos apontem, tecnicamente, que o pior da crise no Brasil ficou para trás, o comércio reclama que o cliente sumiu e luta para sobreviver num cenário adverso que conjuga a instabilidade de ano eleitoral, impactos pós-greve dos caminhoneiros e ainda restrição de funcionamento por causa da Copa do Mundo até sexta-feira, quando o Brasil deu adeus ao Mundial e pós fim às “folgas” em dias de jogos. O resultado dessa combinação foi duplamente negativo para os comerciantes com o recuo da disposição do consumidor para as compras em BH e da confiança do empresário do setor em junho, conforme pesquisas da Fecomércio MG.


No comércio há 30 anos, o comerciante Amadeu Scarpelli, que tem loja de decoração homônima no Bairro Funcionários, na Região Centro-Sul, nunca viu crise como esta. “Neste ano, tivemos 60% de queda nas vendas em relação ao Natal, que já foi ruim”, conta. Para piorar, a Copa do Mundo esfriou ainda mais o movimento. “O país acabou. As pessoas não estão com disponibilidade financeira, então certos tipos de adorno chegam a ser supérfluos. E ainda tem a eleição”, diz. Ele está confiando em que, com a nova promoção, que oferece descontos de até 70% nos produtos, conseguirá dar uma virada. “A intenção é renovar, trazer tendências para atrair clientes”, diz.


Em junho, a pesquisa Intenção de Consumo das Famílias (ICF) de BH, elaborada pela Fecomércio, registrou a terceira queda consecutiva, atingindo 72,5 pontos, contra 81,9 em maio. Da mesma forma, outro indicador, o Índice de Confiança do Empresário´do Comércio (Icec), que analisa a percepção do lojista, caiu de 103,5, em maio, para 102,5 pontos em junho. Apesar da queda, ele se encontra dentro da zona de satisfação, acima de 100 pontos.


“Tecnicamente, saímos da crise no primeiro trimestre de 2017, mas existe uma percepção de instabilidade social, por causa do ano eleitoral, da greve dos caminhoneiros, da lenta recuperação do emprego e aumento acentuado do endividamento e da inadimplência. O consumidor está com cautela. Em janeiro, houve uma sensação de melhora, mas a partir de abril essa percepção está em queda”, afirma o economista da Fecomércio Guilherme Almeida.


Comerciante do ramo de calçados, Cláudio Silva, dono da Via Velle, também contabiliza seis meses no aperto. “O faturamento caiu 30% desde janeiro. A crise não passou, e só piorou. Todo mundo está com medo, porque não sabe o que vai ser do país e, além disso, não sobra dinheiro”, afirma. Para vencer a má fase, Silva acabou mudando o perfil da loja, dando prioridade a produtos de ponta de estoque e mercadorias mais baratas. “O inverno para a gente é uma das melhores épocas do ano e registramos queda de 40%”, afirma.


A gerente da Complemento do Corpo, loja de lingerie no Centro da capital, Denise Pereira, só vê a situação piorar desde o início do ano. “Demora a entrar clientes na loja e, quando isso acontece, acham tudo caro”, afirma. O preço baixou, mas nem por isso o consumo aumentou. E, segundo Denise, a Copa foi outro agravante, atrapalhando as vendas de um dos turnos.


O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), considerado a inflação oficial do país, confirma o sentimento dos clientes. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a inflação ficou em 1,26% em junho, contra 0,4% em maio. Trata-se da maior taxa para o mês de junho desde 1995. A disparada, segundo o IBGE, foi consequência da greve dos caminhoneiros, que gerou problemas no abastecimento de diversos setores.


Vendedora da loja de roupas femininas Morenê, Lucineia Santos desconfia que a queda nas vendas tenha relação com a falta de empregos. “Tem muita gente desempregada, que está comprando menos. E, quando compra, são peças mais baratas”, diz. A pesquisa da Fecomércio corrobora essa percepção. Todos os sete itens que compõem o ICF apresentaram retração. A perspectiva de consumo caiu de 89,5 pontos para 73,9. O emprego atual passou de 102,1, em maio, para 89,3. O indicador de nível de consumo caiu de 62,3 para 53,5 pontos. “Houve uma expansão da informalidade, mais instável e com salários geralmente menores”, justifica Almeida.

MICROEMPRESÁRIOS Segundo pesquisa divulgada na quarta-feira pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), em parceria com a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), o percentual de micro e pequenos empresários que viram piora na economia passou de 46% para 66% no intervalo de um ano. Além disso, depois de oito meses consecutivos acima dos 50 pontos, o Indicador de Confiança do Micro e Pequeno Empresário caiu 14,2% e marcou 46,4 pontos em junho.

 

Houve também piora no Indicador de Condições Gerais, que indica a percepção sobre a economia e os negócios. Ele caiu de 42,5 pontos, em maio, para 33,4 em junho. O SPC atribui os resultados à greve dos caminhoneiros, que gerou crise no abastecimento e impactou o comércio.

 

PALAVRA DE ESPECIALISTA 

Fabrício Missio - Professor do Departamento de Economia da UFMG

“Tecnicamente, voltamos a crescer, mas especialmente puxados pelo agronegócio, que é um setor mais vinculado ao mercado internacional. As variáveis que movimentam a economia são consumo, investimento e setor externo. O setor externo vai bem, mas os outros dois não recuperaram e têm caído. A renda caiu muito, assim como o faturamento das empresas ou a massa salarial. Precisamos que a economia volte a girar. As expectativas dos consumidores são ruins. Estão no mesmo patamar do início de 2016, logo depois da crise, mas muito abaixo de uma média histórica. O Brasil só vai conseguir sair mesmo da crise se retomar o investimento, mas, pra isso, precisa ter, principalmente, credibilidade. Acredito que a crise se arraste até 2021. Pra mudar esse cenário, é necessário haver a redução dos riscos, uma definição do cenário eleitoral e ainda contar um pouquinho com a sorte, pra que os empresários passem a investir mais no país.”


Intenção de consumo das famílias

» jun/17    74,1
» jul/17    74,0
» ago/17    74,1
» set/17    71,1
» out/17    73,3
» nov/17    80,7
» dez/17    84,0
» jan/18    84,1
» fev/18    88,5
» mar/18    89,4
» abr/18    87,0
» mai/18    81,9
» jun/18    72,5

Fonte: Pesquisa de Intenção de Consumo das Famílias (ICF)

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