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Estado de Minas

"Um candidato reformista transformaria o Brasil no melhor dos mundos", diz presidente da Renner

Empresário afirma que a crise não causou danos à empresa, reclama do "balcão de negócios" na política brasileira e diz que o novo presidente deve ser capaz de provocar grandes mudanças no país


postado em 29/01/2018 12:00 / atualizado em 29/01/2018 08:12

(foto: Marcelo Campi/Divulgação)
(foto: Marcelo Campi/Divulgação)

São Paulo José Galló, presidente da Renner, não quis incorporar o papel de vítima da grave crise que abateu muitas empresas brasileiras. Ao contrário, manteve o ritmo de crescimento das três marcas do grupo – Lojas Renner, Camicado e Youcom –, com aumento das vendas e do número de lojas. No ano passado, abriu três unidades no vizinho Uruguai e em 2018 espera abrir mais um ponto.

Em entrevista concedida em 22 de janeiro, dois dias antes de começar o chamado período de silêncio (válido para empresas com ações negociadas em bolsa e que antes da divulgação de seus balanços não podem dar informações ao mercado), o empresário fez uma análise profunda do ambiente de negócios do Brasil, como a companhia fez para se descolar da recessão e colocar mais clientes em suas lojas e controlar a inadimplência.

O inquieto Galló também falou sobre a política brasileira e as incertezas trazidas pela eleição. Ele ressalta os avanços econômicos do atual governo, mas reclama do balcão de negócios em que se transformou a vida política nacional, que ele classifica como “deplorável”. Galló não é contra a participação de não políticos nas eleições de outubro, mas lembra que o Brasil precisa de “um candidato reformista, gestor e aglutinador”, e não de um populista.

Como a crise política e econômica afetou a empresa?

A crise não nos afetou, muito pelo contrário. Aproveitamos a crise para crescer. E talvez a forma de mostrar isso é que, apenas em 2016, inauguramos 64 lojas. Não quero falar dos meus concorrentes, mas se você for ver, outros fecharam pontos ou abriram muito poucas unidades. No fundo, a crise é um teste da sua proposta de valor, ou seja, se os seus produtos e serviços são competitivos, diferenciados. Nada melhor do que uma crise para mostrar isso. Em 2016, abrimos 64 lojas (25 com a marca Renner, 17 com bandeira Camicado e 22 Youcom) e no ano passado nós inauguramos 70 lojas (27 Renner no Brasil, 3 Renner no Uruguai, 15 Camicado e 25 Youcom).

Além de ter produto certo, foi preciso fazer mais alguma correção de rota para adequar a empresa a uma nova realidade?
A construção de uma coleção é uma espécie de pirâmide em que a gente tem três segmentos. No topo nós temos o fashion, no meio nós temos o que chamamos de “core”, e na base nós temos o “essencial”, que são os produtos mais básicos. Na crise, nós aumentamos um pouco a base dessa pirâmide. Mas o mais importante é não esquecer da pirâmide toda, porque sempre há consumidores que querem comprar nos três níveis, mas garantimos a oportunidade de priorizar os preços nos produtos mais básicos.

Os produtos financeiros também cresceram?
O consumidor brasileiro depende do crédito. Quando é negativado por um bureau de crédito, a vida dele é bem prejudicada. Ele não pode mais comprar, tomar empréstimo e sofre com outras tantas restrições. Essa é uma das razões para o brasileiro zelar tanto pelo seu crédito. Nos Estados Unidos, com a crise do subprime em 2008 e 2009, houve um efeito direto na oferta de crédito. No Brasil, apesar do que vimos na economia nesses anos, não houve uma crise de crédito. Mas quando há uma retração na economia, é claro que a inadimplência aumenta, mas com o passar do tempo o consumidor vai se ajustando, exatamente pelo fato de o crédito ser uma espécie de ativo que ele não pode perder.

A queda na inadimplência não foi efeito de um maior rigor na hora de conceder crédito?

Também foi, mas a gente precisa desmistificar algumas coisas no Brasil. O que dá manchete é que a inadimplência disparou. Por exemplo, era 5% e foi para 6,5% e fala-se que ela disparou. Teria disparado se tivesse dobrado. Aumentar num primeiro momento é normal com o desemprego, a perda da massa salarial, mas depois de oito, nove meses há o reequilíbrio do sistema.

Questões como eleições presidenciais e a redução da nota de risco do Brasil por uma agência internacional podem influenciar a sua tomada de decisão em 2018?

É importante olharmos onde nós estávamos e aonde chegamos. Quanto estava nossa inflação há um ano e meio, dois anos atrás? 10,5%. Agora, está em 2,95%. A taxa Selic estava em 14,5% e hoje está em 7%. No passado, para conseguir reduzir 1% da Selic era um extremo esforço, mas nós reduzimos 7 pontos percentuais em menos de dois anos. Isso é um milagre que a gente não dá conta. Como consequência, há a queda da inflação, que leva a um certo ganho de poder aquisitivo, a confiança do consumidor aumentou e até o desemprego saiu de 13,2% para cerca de 12%.

O que ainda precisa ser feito?
O que falta fazer é investir. O investimento privado ainda demora um pouco porque há muita capacidade ociosa que precisa ser ocupada, e o investimento do governo praticamente não existe porque praticamente toda a receita está comprometida com gastos obrigatórios. Mas do ponto de vista microeconômico, estamos em um momento muito interessante.

Então o senhor acredita que 2018 será melhor que 2017?
Temos que ver como será a eleição, por isso essa é uma pergunta para a qual não tenho resposta. Vai depender do rumo que a eleição tomar. Um candidato reformista, gestor e aglutinador transformaria o Brasil no melhor dos mundos. Agora, se você tiver uma eleição com o populismo voltando, o risco será alto.

Nessa perspectiva, imaginar os chamados “outsiders” fazendo parte do processo eleitoral pode ser algo bom para o país ou este não é o momento para um não político?
Não há condições hoje de fazer previsões, tem de deixar os candidatos aparecerem. Se for um “outsider” que se encaixa na descrição que fiz acima, bem-vindo. Mas se ele cair na segunda descrição, teremos muitos problemas pela frente.

Como o senhor analisa o comportamento dos brasileiros diante dos fatos mais recentes da política?
Está havendo uma certa evolução no senso crítico do cidadão brasileiro, mas ainda muito longe do ideal. Infelizmente, no Brasil, 72% da população brasileira é analfabeta funcional, com pessoas que leem, veem o noticiário, mas não conseguem entender ou correlacionar os fatos.

O brasileiro está sofrendo de uma passividade crônica?

A passividade existe quando as pessoas não entendem. Nós, seremos humanos, só nos mobilizamos quando algo faz sentido para nós. O analfabetismo funcional impede que tenhamos consciência do que acontece e como consequência não há reação, o que pode ser chamada de passividade. Acabei de dar como exemplo de três absurdos que acontecem em uma mesma empresa, completamente incompatível com as regras de governança e com produtividade, mas ninguém fala nada.

Os empresários, por sua vez, estão mais ativos sobre as discussões políticas, além das econômicas?
Acho que sim. Agora há o surgimento de vários líderes sérios, que estão começando a participar da política, com a formação de grupos, aparecimento de candidatos e até de partidos, como o Novo. Cito o Novo não por ser de empresário, até porque ele não deve ser, mas há uma série de manifestações de um pessoal que não suporta mais essa situação de uma elite política privilegiada fazer e desfazer, se considerar imune, acima da lei, e mandar neste país. As pessoas passam a ter consciência da gravidade do assunto e começam a reagir.

O senhor está particularmente incomodado agora ou essas questões sempre o incomodaram?
Estou acostumado a ver o longo prazo, num horizonte de 10, 15 anos, mas infelizmente criou-se uma situação de uma casta privilegiada que passou a dominar este país e, com raras exceções, tem como horizonte quatro anos, até as próximas eleições. Pela primeira vez se abriu a caixa-preta das estatais. Ouvia-se no governo anterior que a Petrobras era o patrimônio do povo. Mas eu não quero esse patrimônio, de uma empresa que valia US$ 260 bilhões e por absoluta má gestão passou a valer US$ 26 bilhões. É assim que se cuida do patrimônio do povo?

Esta é uma questão histórica no Brasil ou apenas de governos mais recentes?
Isso sempre existiu, mas numa intensidade muito menor. Mais recentemente, se acentuou na tentativa de se fazer um projeto de poder, não um projeto de país. Entramos numa situação de compra e venda de votos, de ideias, e deu no que deu. Virou um balcão de negócios. É incrível o Brasil ter sobrevivido a isso. Mas o passado não deve ser esquecido para que possamos refletir sobre o que aprendemos com isso. Será que temos consciência de aonde chegamos e o que temos de fazer para mudar essa situação?

O que o governo está fazendo e o que o senhor, como empresário e cidadão, gostaria que fizesse?
Muitas dessas melhorias microeconômicas foram feitas por esse governo, com uma gestão muito boa no Banco Central, na Petrobras, a PEC dos Gastos Públicos, a reforma trabalhista e a da educação, por exemplo. Mas nos últimos tempos o governo está se transformando em um balcão de negócios deplorável.

O que é mais importante neste momento?

Partindo do pressuposto de que houve um aprendizado com todas as coisas ruins que aconteceram neste país e vendo a qualidade de vários dos nossos políticos, que esta seja uma eleição consciente. É a única forma de termos uma melhora. Do contrário, vamos voltar a ter o balcão de negócios.

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