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Estado de Minas

"A Usiminas tem futuro, mas precisa de um presidente forte", diz executivo

Paolo Bassetti diz que quer conflito judicial com o sócio Nippon Steel fora da companhia


postado em 30/03/2017 06:00 / atualizado em 30/03/2017 07:18

(foto: Sidney Lopes/EM/D.A Press)
(foto: Sidney Lopes/EM/D.A Press)

A segunda troca de presidentes da Usiminas em menos de seis meses muda o foco do grupo ítalo-argentino Ternium/Techint, em conflito judicial que se arrasta desde meados de 2014 com o sócio no controle da siderúrgica mineira, o conglomerado japonês Nippon Steel & Sumitomo Metal Corporation.

No novo embate, a Ternium defende como fato para justificar a destituição de Rômel Erwin de Souza – substituído por Sérgio Leite, executivo que recebeu o voto da Ternium – a “quebra de confiança” do Conselho de Administração da companhia em Rômel, indicado da Nippon.

O presidente da Ternium no Brasil, Paolo Bassetti, afirmou ontem em entrevista exclusiva ao Estado de Minas que houve entendimento alinhado dos sete conselheiros que votaram a favor da substituição, contra quatro, e que a decisão retira a escolha do presidente do campo de batalha dos dois acionistas.

“O problema não é o que a Ternium acha, mas o que o conselho acha. A briga hoje é entre a Nippon e o conselho”, disse Paolo Bassetti, que esteve ontem na redação do EM. Na entrevista, ele insistiu em que a empresa precisa de capacidade e experiência gerencial  porque o seu endividamento impõe restrições.

“A Usiminas precisa de um presidente muito forte”. A hipótese de separação dos ativos da siderúrgica como solução para o fim da disputa judicial com a Nippon, que o próprio Bassetti chegou a cogitar, está afastada. “Acreditamos na Usiminas, uma belíssima empresa, e queremos isolar o conflito (de acionistas) para fora da companhia”, disse.

O argumento para a destituição de Rômel Erwin foi de que ele violou o estatuto social da siderúrgica ao assinar sozinho e sem o conhecimento do Conselho de Administração documento que tratou da negociação de um grande contrato de fornecimento da Mineração Usiminas à japonesa Sumitomo, sócia na mineradora da siderúrgica de Ipatinga, no Vale do Aço.

A versão é contestada pela Nippon. O grupo japonês defende que o documento foi um memorando de intenções de negociação, sem vinculação de obrigação entre as partes, coerente com as regras da siderúrgica, e acusa seu sócio de usar de má-fé no caso. Veja os principais trechos da entrevista de Paolo Bassetti.

Memorando polêmico
É clara a violação do estatuto da Usiminas porque Rômel assinou sozinho e sem conhecimento do Conselho de Administração um pré-contrato com a Sumitomo (referente ao fornecimento pela Mineração Usiminas de 4 milhões de toneladas de minério de ferro por ano ao grupo japonês) que dá à Sumitomo uma base que permite obter vantagem na área de fornecimento. Trata-se do maior contrato de fornecimento da empresa, avaliado em US$ 200 milhões por ano. Não estamos nem discutindo se assinatura é ou não permitida, mas que ela ofereceu vantagem, simplesmente pelo fato de que a Sumitomo pode, pelo contrato, presumir que tudo o que está escrito ali é válido. Isso gerou desequilíbrio na negociação com o fornecedor e desequilíbrio numa negociação é mortal. O teor do memorando estratégico era desconhecido, condiciona a negociação e portanto limita a capacidade da equipe da Usiminas que cuida da área de fornecimento. Encontramos esse documento seis meses depois de ter sido assinado. Em nenhum momento o presidente (Rômel) tornou o documento público ou antes de assinar consultou as equipes do fornecimento. É uma situação que gerou quebra de confiança do conselho, e em se tratando do maior contrato de fornecimento da companhia não cabia o uso de um memorando. Estamos analisando se há mais contratos assim. Outro fato é que o escolhido pela Nippon manteve relações diretas com uma empresa japonesa sem informar ao conselho. É um fato agravante.

Decisão do Conselho

O problema não é o que a Ternium acha, mas o que o conselho acha. A briga hoje é entre a Nippon e o conselho. Um conselho que a partir de maio de 2016 (primeira eleição de Sérgio Leite, que ficou no cargo até a recondução de Rômel em outubro por decisão do Tribunal de Justiça de Minas Gerais) começa a ter dúvida sobre o presidente. Agora, foram sete votos pela destituição, contra quatro. Os conselheiros se manifestaram livremente, com seu dever fiduciário, e isso supera o acordo de acionistas, num caso de violação do estatuto da Usiminas. ( A Nippon entende que a troca de presidentes descumpriu o acordo de acionistas, que prevê consenso na escolha do presidente). A Nippon deveria se focar sobre o voto dos conselheiros. A empresa não pode se esconder sobre uma acusação de má-fé para negar um fato, que o presidente não fez algo legal e não tem a confiança do conselho. Mais uma vez a Nippon continua falando comigo e deveria falar com o conselho. Há sete votos que constituem maioria de quem cumpriu o seu dever fiduciário, incluindo votos de ex-presidentes do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) e da CVM (Comissão de Valores Mobiliários).

Troca de presidentes
Voltamos a dar um futuro à Usiminas. Foi o que fizemos com este voto a favor da eleição de Sérgio Leite. Com um presidente que não conversa com o conselho (Conselho de Administração) nenhuma companhia tem futuro. Nossa visão é de que a Usiminas tem futuro, mas necessita de um presidente muito forte porque a dívida (de R$ 7 bilhões) está restringindo a empresa. Precisa de um presidente flexível e competente, com comprovada capacidade de, primeiro, reduzir a dívida e depois fazê-la crescer.

Impasse na Usiminas
Achamos que a Usiminas é uma belíssima companhia, queremos isolar o conflito (de acionistas) para fora da companhia. Porque falar em separação e dividir a companhia.? Queremos que a Usiminas volte a ser a grande Usiminas, uma máquina que deveria ter rentabilidade superior, próxima do minério e que tem logística de distribuição, inclusive melhor posicionada que a Ternium. Entendemos que um presidente forte pode separar a companhia do conflito de acionistas.

Aposta no Brasil
A Ternium não teria comprado sua participação na Usiminas, colocado 1,5 bilhão de euros na CSA (Companhia Siderúrgica do Atlântico, do Rio de Janeiro), em meio à crise da economia, se não acreditasse que o país vai voltar a crescer.

QUEM É

Empresa líder na América Latina, a Ternium abastece de aço clientes do setor automotivo, construção, metalmecânica, linha branca, energia e transporte. Tem 16 fábricas na Argentina, Colômbia, Estados Unidos, Guatemala e México, e 38 centros de distribuição. Integra o grupo de controle da Usiminas desde 2012, quando comprou as participações da Camargo Correa e da Votorantim. A capacidade de produção da Ternium é de 11 milhões de toneladas de aço. No Brasil, além da participação na Usiminas, comprou em fevereiro da alemã ThyssenKrupp a Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA), do Rio, por 1,5 bilhão de euros (quase R$ 5 bi), tornando-se uma das maiores siderúrgicas no país.

O CONFLITO

Nippon Steel e Ternium travam batalha judicial desde o fim de 2014, quando o então presidente indicado
da Ternium, Julian Egurén, foi destituído. O desentendimento sobre a gestão da siderúrgica persiste, atingindo a definição sobre a escolha do presidente.


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