Com custos acima de R$ 200 por sessão, a busca por atendimento de um psiquiatra ou psicólogo muitas vezes é um entrave para quem passa por um quadro depressivo intensificado pela crise na economia. Sem dinheiro e perspectiva financeira, em alguns consultórios houve uma queda de cerca de 40% dos pacientes, que, antes de abandonar o tratamento, tentaram negociar e endividaram-se ainda mais. Muitos, sem plano de saúde por causa do desemprego, não buscam ajuda. De acordo com psicólogos, a classe que mais sentiu esse impacto da economia na sua saúde mental é justamente a classe média, uma vez que os menos favorecidos tendem a ser mais adaptáveis aos turbilhões financeiros. Mas, quando eles também não aguentam a pressão, o Sistema Único de Saúde (SUS) tem feito o atendimento.
De acordo com o psiquiatra Frederico Garcia, o perigo de deixar de procurar ajuda é que, geralmente, essas pessoas que evitaram gastar dinheiro com atendimento, quando chegam ao consultório estão com um quadro mais grave e pode ser tarde demais. Marta Maria conta que em seu trabalho com a psicologia social, na Clínica Social de Psicoterapia, e onde há cerca de 40 profissionais, o número de pacientes também tem sido maior. “Tínhamos, por semana, de cinco a seis casos. Hoje, são 18”, diz. A especialista conta que a maioria é do setor terciário e a situação econômica não é a maior queixa. “Elas aceitam mais qualquer trabalho, pegam bicos e vão se adaptando”, afirma.
No SUS Porém, quando nem mesmo essas pessoas conseguem um emprego, o quadro é o mesmo da classe média e alta. De acordo com o psicólogo Humberto Cota Verona, coordenador estadual de saúde mental, da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais, os quadros mais comuns que chegam aos serviços de saúde do SUS são agravos orgânicos pela fragilização do sistema imunológico, e as depressões e ansiedades, inclusive a síndrome do pânico. “Toda crise, tanto em nível individual quanto macrossocial, exige de nós um esforço maior de adaptação, consumindo uma carga de energia bem acima da que utilizamos normalmente para administrar as demandas do dia a dia. Esse processo é conhecido na biologia, na física e também na saúde mental e tem consequências”, comenta.
Ele diz que com o cenário econômico do país, fica mais penoso enfrentar os efeitos da crise no orçamento doméstico pela perda do poder aquisitivo, o desemprego, o adiamento de sonhos e de projetos para o futuro. “As limitações exigem cortes e revisão de planos e tudo isso a um preço muitas vezes elevado para o indivíduo ou coletivos”. Verona diz que se o poder público, a mídia e outros atores sociais formadores de opinião promovessem ações educativas orientadoras de como construir saídas inteligentes para as crises, “seria possível minimizar seus efeitos nocivos sobre a saúde física e mental e transformá-las em oportunidades de crescimento”. (LE)
