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Estado de Minas

Cartão de desconto vira opção para consultas e exames médicos

Para escapar das mensalidades dos convênios médicos e do SUS, brasileiros aderem a sistema que já tem 5 milhões de usuários no país. Mas especialistas alertam para riscos


postado em 13/07/2016 06:00 / atualizado em 13/07/2016 07:27

Marli Saldanha, dona de casa:
Marli Saldanha, dona de casa: "Pelo SUS (Sistema Único de Saúde), teria que esperar um ano pela consulta com o cardiologista, aqui foi bem mais rápido" (foto: Gladystone Rodrigues/EM/D.A Press)

Perdido entre o aperto para pagar o plano de saúde e as longas filas de espera do SUS, o consumidor mineiro tem feito consultas e exames usando cartões de desconto, um setor que conquista espaço em tempos de menor renda das famílias e já tem mais de cinco milhões de usuários no país. Em Minas, mais de 1,4 milhão de pessoas já aderiram ao segmento, filão de mercado que cresce sem regulamentação.

Na modalidade, o cliente se associa a uma rede, que muito lembra um plano de saúde. Arcando com mensalidades de baixo custo, menores que R$ 20, ele recebe uma carteirinha e com ela tem o direito de usar as clínicas médicas conveniadas ao cartão, pagando R$ 28 pela consulta com especialista ou R$ 75 por um ultrassom. Nem planos de saúde, nem rede pública, o mercado dos cartões de descontos, inunda a internet com anúncios e se propaga também no boca a boca, apesar dos alertas das entidades de defesa do consumidor e da reprovação dos conselhos regionais de medicina.

Áurea Pereira, funcionária pública:
Áurea Pereira, funcionária pública: "Meu plano de saúde me custava R$ 600, a empresa financiava uma parte, mas eu ainda pagava R$ 400, ficou muito caro" (foto: Gladystone Rodrigues/EM/D.A Press)

Em Minas, há empresas que se especializaram tanto no negócio, a ponto de se tornarem franquias. A popularização da saúde é um tema polêmico, que dá arrepios em entidades de defesa do consumidor e da saúde pública. Eles defendem maior recursos para o SUS e coberturas amplas para os planos de saúde como forma de garantir o atendimento integral. Na semana passada o ministro da saúde, Ricardo Barros chegou a casuar polêmica ao sugerir flexibilização para os convênios médicos, com a criação de planos populares, com a cobertura limitada e preços menores.

Enquanto isso, consumidores cansados de esperar pelo atendimento médico e sem recursos para bancar mensalidades dos planos, se aventuram pelo atendimento de baixo custo. O mercado que corre independente na brecha da saúde oficial, vem engordando no estado, atraindo diversas classes sociais.

Foi por meio de um panfleto, mostrando pessoas saudáveis e felizes que a funcionária pública Áurea Pereira, 45 anos, conheceu o cartão de desconto. Na última terça-feira ela fez consulta com o especialista e todos os exames de rotina usando seu cartão. A modalidade substituiu o plano de saúde que ela manteve até o ano passado.

Áurea diz que o modelo não é um plano de saúde, mas comenta que até agora está satisfeita com a troca que fez: “Meu plano de saúde me custava R$ 600, a empresa financiava uma parte, mas eu ainda pagava R$ 400, ficou muito caro.” Agora, Áurea paga pouco mais de R$ 17 por mês à empresa de descontos e pode usar clínicas em vários bairros da capital. “Paguei R$ 28 pela consulta com o especialista, R$ 74 pelo ultrassom, R$ 95 pela mamografia e R$ 60 pelos exames de sangue. É como se fosse uma co-participação”, compara. Áurea diz que foi bem atendida pelo médico e que até agora não tem queixas: “O único problema é que não tem serviço de Pronto Socorro”, ponderou.

É fácil encontrar na internet os cartões que ofertam desde clínicas até descontos em restaurantes e vestuário. As empresas de auxílio-funeral fornecem o cartão com bastante regularidade, mas também aquelas especializadas no segmento. Em Minas, o cartão de Todos é uma das redes que domina o mercado, está presente em vários estados do país e atua como franquia. O cartão de Todos já conta com 1,4 milhão de usuários no estado e trabalha oferecendo a intermediação de descontos entre os consumidores e pessoas jurídicas (empresas conveniadas).

Relação vulnerável


Marcelo Barbosa, coordenador do Procon Assembleia se preocupa com o mercado, que segundo ele oferece muito pouco ao consumidor e uma rede precária de atendimento. “Como o mercado não é regulado, o consumidor não conta com as normas que estabelecem por exemplo, prazo e qualidade no atendimento, por isso está em uma relação vulnerável, se tiver alguma reclamação deve recorrer ao Procon ou à Justiça.” Barbosa reforça que os cartões não são planos de saúde e por isso o consumidor deve ter bem guardado panfletos que recebeu da empresa, assim como o contrato que assinou.

Os serviços oferecidos são consultas e exames básicos sendo que as clínicas ou os profissionais não são monitorados pela qualidade e também não devem cumprir regras como a obrigatoriedade do atendimento ou rol obrigatório de coberturas.

Há três meses a dona de casa Marli Saldanha, 66 anos, e sua filha, a turismóloga Natalie Rocha, 27 anos, aderiram ao cartão de desconto. Marli vai fazer uma operação odontológica e outra de catarata pelo SUS, e para agilizar o processo fez os exames considerados mais simples, como o risco cirúrgico nas clínicas conveniadas. Marli diz que está muito satisfeita com a agilidade do atendimento e conta que descobriu o cartão por meio de um familiar. “Pelo SUS, teria que esperar um ano pela consulta com o cardiologista, aqui foi bem mais rápido”, diz Marli. Natalie acredita que o cartão é uma opção para quem não tem plano de saúde. “Acho que o cartão deveria ter mais desenvolvido uma ouvidoria para receber as reclamações dos consumidores, podendo descredenciar, por exemplo, clínicas ou profissionais que não atendem bem”, avaliou.

 

De baixo custo

Como funciona o cartão de desconto para consultas médicas

» Na sede da empresa, consumidor se associa ao cartão, se tornando um “usuário” do sistema
» As mensalidades custam próximo de R$ 20
» Com o cartão, o consumidor pode ter acesso a descontos em serviços que variam da saúde ao lazer
» As consultas custam menos de R$ 30
» Uma mamografia pode custar R$ 95 e o ultrassom R$ 75


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