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Estado de Minas O BRASIL QUE PASSA NA AVENIDA

Avenida Brasil tem movimento fraco, lojas fechadas e demissões

Síntese de um país de inflação alta, desemprego e perda de renda, via que liga os bairros Funcionários e Santa Efigênia expõe efeitos drásticos sobre o comércio e a força de empreendedores para driblar a turbulência


postado em 13/03/2016 07:00 / atualizado em 13/03/2016 07:59

Ponto comercial ocupado há mais de 20 anos, Festa Mágica está à venda e pode demorar a passar de mãos(foto: GLADYSTON RODRIGUES/EM/D.A PRESS)
Ponto comercial ocupado há mais de 20 anos, Festa Mágica está à venda e pode demorar a passar de mãos (foto: GLADYSTON RODRIGUES/EM/D.A PRESS)
Do paraíso das compras que fez o país crescer empurrado pelo consumo ao inferno astral da economia, 16 quarteirões de uma das vias mais importantes de Belo Horizonte, a Avenida Brasil, testemunham um país em crise, mas também disposto a agarrar oportunidades para enfrentar a tormenta. Das redondezas da Praça Floriano Peixoto até as palmeiras imperiais na Praça da Liberdade, são cerca de 700 negócios. Em quase todos os quarteirões há lojas vazias. O fechamento de empresas, o corte de funcionários nos pequenos empreendimentos, o movimento menor de clientes no comércio e a maior cautela dos boêmios reúnem na centenária avenida um resumo do Brasil.

Na via, que já foi dominada por residências e em lugar delas criou uma identidade com a oferta de serviços médicos, um comércio vivo que reúne mais de 190 segmentos da economia busca se reinventar para enfrentar a queda da atividade. Dorinha e Rejane Sette, donas da tradicional loja Festa Mágica, especializada em festas infantis, se preparam para deixar o ponto ocupado há mais de 20 anos na Avenida Brasil, 777. As sócias escolheram um momento de caixa farto para curtir a aposentadoria, mas talvez seja longa a espera por comerciantes dispostos ao risco de começar um negócio. A faixa na porta anuncia a venda de uma loja de dois andares, completa, que ao longo dos anos conquistou clientes. “Sabemos que o momento é de crise, mas não temos pressa”, diz Dorinha.

A poucos metros dali, na vizinhança de duas grandes instituições de ensino, o Ibmec e a Fundação João Pinheiro, Marco Antônio Junqueira se lança ao desafio inverso, o de manter abertas as portas da Pinguim Brasil, dedicada ao comércio de sorvetes artesanais, que conduz desde fevereiro. “Uma aposta franciscana de investimento. Não conseguiria jamais um ponto tão bom de público não fosse a crise”, define Marco Antônio, ao explicar que optou por um produto combinando qualidade e preço acessível a clientes de baixa e alta renda, diversidade essencial em épocas de menor circulação de dinheiro disponível ao consumo.

Para enfrentar a crise, comércio e serviços reduziram o número de empregos na avenida, e quem pretendia contratar ou ampliar o negócio engavetou o projeto, à espera de 2018, quando é aguardada a retomada da economia. Como em todo o Brasil,  empregos deixaram de ser criados. O corte de funcionários alcançou 50% em alguns negócios, medida radical para fazer frente ao recuo das vendas, que oscila perto de 20%, se considerado o termômetro dos bares e restaurantes. O fechamento de negócios é quase gritante como nas ruas do Brasil, placas de aluga-se ou vende-se mostram a recessão nas janelas. De portas para a rua, é como se pelo menos um comércio estivesse fechado ou sendo oferecido para aluguel a cada quarteirão da avenida, dada a frequência de portas fechadas na via.

Termômetros em alta Um pouco de quase tudo pode ser encontrado ao longo dos quarteirões da democrática via, que tem início na Zona Sul da cidade e termina num bairro de menor poder aquisitivo, Santa Efigênia. Do consultório à escola, do bar à oficina mecânica, da agência de viagem à consultoria para planejamento de grandes empresas. Um termômetro eficiente da crise, a escola particular tem uma das redes mais tradicionais do estado representada na esquina com a Avenida Carandaí. A centenária construção do Colégio Arnaldo, fundado pela congregação alemã dos Verbitas há 104 anos, acompanha a evolução da economia brasileira.

Foram muitas crises e o colégio, que não conta com subsídios, investe constantemente na gestão para fazer frente aos desafios. Cartão-postal de Belo Horizonte, a escola recebia meninos internos, no início das suas atividades, tendo formado gerações de mineiros vindos de todas as regiões estado. A despeito de ter enfrentado crises econômicas como a do começo da década de 80, hoje tem 800 alunos só na unidade instalada na Avenida Brasil.

O diretor executivo e professor Geraldo Júnior explica que a recessão atingiu em cheio as famílias da classe média brasileira, pressionando os índices de inadimplência nas escolas. Ele lembra que em 2016 a rede particular mineira perdeu perto de 30 mil alunos para a escola pública. “Estamos investindo em um controle austero da inadimplência e dos fluxos de caixa”, revela o diretor. Ele calcula que a redução no número de alunos na Avenida Brasil tenha chegado a 4% neste ano, invertendo ciclo de crescimento experimentado pelo setor até 2015. “A expectativa é de que a retomada aconteça entre 2017 e 2019”, diz o executivo.

Dorinha Sette, sócia da Festa Mágica, está há 35 anos no mercado, sempre na região da Avenida Brasil, e nos últimos 20 anos na própria avenida. Ela diz que as encomendas para montagem de festas temáticas e a venda de produtos ficaram estáveis. Acredita que tenha havido migração de consumo para o segmento em que atua. “Com a crise, muita gente que planejava viajar preferiu mudar os planos e festejar na cidade mesmo”, arrisca.

Morador antigo da região cortada pela via, Marco Antônio Junqueira, dono da sorverteria Pinguim Brasil, tem experiência de sobra como empreendedor do negócio de alimentação para sustentar com serenidade os trancos que a economia tem dado no comércio. Ainda que as demissões nos escritórios de grandes empresas localizados nos cruzamentos da avenida e a evasão de alunos nas escolas particulares tenham sacrificado as vendas no comércio, o fluxo de pessoas ainda é grande atrás do vigor dos serviços de saúde. “Quando a economia melhorar, quem estiver melhor preparado leva vantagem”, diz Junqueira, dono e chef responsável pelos sorvetes artesanais, que ganharam a companhia, no cardápio, dos cremes de açaí e de sucos.

Gilberto Alves trabalha sem refresco para compensar a queda de 20%, neste ano, do movimento na Gruta Santa Efigênia(foto: MARCOS VIEIRA/EM/D.A PRESS)
Gilberto Alves trabalha sem refresco para compensar a queda de 20%, neste ano, do movimento na Gruta Santa Efigênia (foto: MARCOS VIEIRA/EM/D.A PRESS)
Noites de saia justa

Na capital dos botecos e no país do verão, o início da Avenida Brasil é ponto conhecido dos boêmios e dos adeptos do happy hour. Um dos últimos segmentos a sentir a crise econômica, os bares da região, assim como a média do país, não cresceram no ano passado e, agora, alguns desses estabelecimentos precisaram cortar pela metade o número de funcionários para fazer frente ao movimento mais contido dos clientes, com os gastos sob maior controle. Como no Brasil, a avenida sintetiza a força dos pequenos negócios que ajudam a girar a pesada engrenagem de uma economia em recessão.

Medido pelo termômetro do lado boêmio da avenida, o desemprego nos bares locais chega perto de 10%, superando a taxa média no comércio da Grande BH, de 4,4%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Há nove anos à frente do Oratório, Léo Ferreira, de 52 anos, precisou ajustar os custos da empresa. Segundo o comerciante, quando ainda se adaptava às regras do código de posturas da cidade às leis seca e do tabagismo, a crise surgiu de atropelo. Para driblar a queda no faturamento, nos últimos dois anos o quadro de funcionários no período noturno foi reduzido, caindo de 14 para 9 trabalhadores.

“A classe média foi muito afetada pela crise. O tíquete médio do consumidor caiu 35% no período”, calcula Léo. Ele ressalta que, ao mesmo tempo os custos cresceram, 30%. Conhecido pelos tira-gostos que oferece, como a costelinha embriagada, o Oratório passou a abrir para almoço, servindo pratos executivos. “Acreditamos que o movimento agora vá se estabilizar até o país voltar a crescer”, avalia.

Na mesa de bar na Avenida Brasil, a analista de treinamento Ellen Rose Lima, 30, se diverte com o marido e um casal de amigos. Como trabalham na vizinhança, costumavam frequentar os barezinhos duas vezes por semana, mas o happy hour teve de ser reduzido para uma vez a cada 15 dias e as reuniões passaram a ser feitas também em casa, com gastos compartilhados. “Fica 50% mais barato e temos preocupação, ainda, com o futuro”, diz.

Via fervilhante, por onde circulam 45 mil veículos ao dia, a avenida passou a abrigar o pequeno comércio nas casas que resistiram ao progresso dos arranha-céus no corredor. Quem conta ao Estado de Minas a história da avenida é o português Gilberto Alves, dono da lanchonete mais antiga da região, a Gruta Santa Efigênia, inaugurada na década de 50. De pai para filho, o negócio continua sendo tocado pela mesma família Alves. Os irmãos Gilberto e Eduardo estão à frente, atendendo a uma clientela fiel, assim como a milhares de pedestres que circulam na região. Gilberto (Gil ou Portuga) chegou no Brasil aos 5 anos e aos 11 já trabalhava no balcão da avenida Brasil. Lá se vão 38 anos na atividade.

Batismo nacional
Aberta durante a fundação de BH, em 1897, a então Avenida do Brasil ganhou nome na forma de  homenagem a um país em seus primeiros tempos de república. Chegou a ser também batizada temporariamente de Avenida Floriano Peixoto, segundo presidente que o Brasil teve e que deu nome à praça onde a via começa, no Bairro Santa Efigênia. Do início do século passado até o fim da década de 70, a Avenida Brasil foi um corredor residencial. A partir dos anos 80, as residências deram lugar a prédios e arranha-céus.

 

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