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Estado de Minas

Aumento de preços leva fiscais da inflação de volta às ruas

Mulheres que no governo Sarney pesquisaram produtos nos supermercados para conter reajustes retomam a prática em BH para escapar do dragão


postado em 01/03/2016 06:00 / atualizado em 01/03/2016 07:53

Integrantes do Movimento das Donas de Casa de Minas Gerais coletam valor de produtos em rede varejista da capital e dão início a rotina que ganhou destaque há 30 anos(foto: (Ramon Lisboa/EM/D.A Press))
Integrantes do Movimento das Donas de Casa de Minas Gerais coletam valor de produtos em rede varejista da capital e dão início a rotina que ganhou destaque há 30 anos (foto: (Ramon Lisboa/EM/D.A Press))
 

Prancheta e planilhas para levantamento de preços em mãos deram um sentido especial na manhã de ontem à rotina de visitas a supermercados de Belo Horizonte das donas de casa Darcy Mattos de Azevedo, de 78 anos, Cassilda Maria de Almeida, de 73, e Doroty Gomes Brandão, 74. Em grupo, elas retomaram neste mês o trabalho voluntário de pesquisadoras de preços e o papel de fiscais da inflação, 30 anos depois de terem saído às ruas com objetivo semelhante. Àquela época, tentaram frear o custo de vida que levou ao lançamento do Plano Cruzado em 1986, envolvendo congelamento de preços por um ano e a promessa da nova moeda de estabilizar a economia.


Se a inflação de hoje preocupa, e não poderia ser diferente diante da alta de 10,67% em 2015 medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), em fevereiro de 1986 a variação de 12,72%, naquele mês, do custo de vida assustava, dando sequência a uma espiral inflacionária que havia alcançado 242,23% em 1985. Militantes do Movimento das Donas de Casa e Consumidores de Minas Gerais (MDC-MG), Darcy, Cassilda e Doroty voltam aos supermercados dispostas a abrir os olhos dos brasileiros e a sensibilizar a equipe econômica da presidente Dilma Rousseff para os riscos do avanço da inflação.

Experiência não falta ao MDC-MG e nem a elas, que naquela sexta-feira de fevereiro de 1986 ouviram o então presidente José Sarney apelar para que os brasileiros se tornassem fiscais dos preços, e desde então “fiscais do Sarney”, como ficaram conhecidas as donas de casas que atenderam ao apelo. “A inflação de hoje está muito alta, Deus nos livre”, afirma Darcy Mattos, uma das fundadoras do movimento e responsável pela ação conjunta da instituição que resultou em alguns acordos com redes de supermercados nos anos seguintes ao fracasso do Plano Cruzado para conter reajustes dos preços.

“Não vamos nos esquecer de que a inflação pode começar pequeninha. Temos hoje a necessidade de conter os preços, inclusive porque o desemprego está alto e a renda diminuiu”, disse Darcy, enquanto se preparava para seguir ontem no grupo de cinco donas de casas encarregadas de fazer a coleta dos preços de 13 itens de material de limpeza para a pesquisa, que deverá ser publicada ainda nesta semana no site do MDC-MG. Cassilda Almeida, também aposentada, não se esqueceu de uma das grandes dificuldades de cumprir a função de fiscal do Sarney. “Naquele tempo, muita gente que nos via logo mandava que fóssemos para o tanque de lavar roupa ou o fogão. Havia um preconceito”.

Nos próprios supermercados, conta Doroty Gomes Brandão, o relacionamento com a direção das empresas era complicado, a despeito do solene pedido feito por Sarney no anúncio do programa de estabilização. “Chegávamos às lojas e éramos barradas. Tempos depois, quando conseguimos fazer acordos de cavalheiros com as redes eles valeram durante três meses, mas conseguimos esse controle mais voltado para o pão de sal”, diz. No cenário atual da economia, a preocupação delas vai além da alta em si da inflação, passando pelas variações encontradas entre supermercados de mesmo padrão e as promoções travestidas de oferta. Em janeiro, o IPCA alcançou 1,27%, medido pelo IPCA, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísitca (IBGE).
Movimento das donas-de-casa faz passeata na luta pelo boicote da carne em novembro de 1985(foto: Foto: Pedro Graeff/EM/D.A Press - 05/11/1985 )
Movimento das donas-de-casa faz passeata na luta pelo boicote da carne em novembro de 1985 (foto: Foto: Pedro Graeff/EM/D.A Press - 05/11/1985 )

Saídas

A leitura que o grupo de donas de casas e pesquisadoras faz do papel de fiscais da inflação é de que a pesquisa de preços é a principal arma do consumidor num Brasil que não mais comportaria medidas como o congelamento ou tabelamento de preços, observa a professora aposentada, dona de casa e pesquisadora do MDC-MG Maria das Graças de Castro, 71. O congelamento de preços adotado há 30 anos se mostrou malsucedido, resultando no sumiço de produtos dos supermercados, a exemplo das carnes.

“As pessoas estavam nos cobrando nas ruas e pelo telefone que voltássemos ao trabalho ativo de pesquisa e orientação nas lojas e nas ruas”, afirma Maria das Graças. Doroty Brandão, por sua vez, vai logo avisando: “Quem tem preguiça de pesquisar acaba pagando muito mais caro.” Darcy Mattos está convencida de que a única solução para o consumidor, agora, é pesquisar os preços para fugir dos aumentos.

As dicas para a pesquisa são simples, mas certeiras, de acordo com o grupo. Antes de comprar, o ideal é levantar os preços em três a quatro supermercados, além de consultar as pesquisas disponibilizadas na internet por instituições de defesa do consumidor e especializadas no segmento. O resultado só é válido se comparados produtos e marcas com níveis próximos de qualidade.

O cuidado para identificar se as promoções oferecidas são vantajosas implica verificação da data de validade, do estado de conservação da mercadoria e a checagem se outros bens comercializados na loja não exibem preços mais altos que os da concorrência, o que, de fato, eliminaria a vantagem da oferta se o consumidor precisar comprar uma lista de itens. Denunciar e reclamar dos abusos na própria loja é outro caminho importante para conter os preços.


Movimento pretende orientar consumidor

Em convênio firmado com a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) e o Fundo de Defesa de Direitos Difusos do Ministério da Justiça, o Movimento das Donas de Casa de Minas Gerais (CDC-MG) vai organizar e processar 24 pesquisas de preços durante o ano, como parte de um projeto que inclui a realização de oficinas sobre relações de consumo e produtos. Segundo a coordenadora da instituição, com sede em Belo Horizonte, Solange Medeiros, será também organizada uma banca de advogados para atender à população. Uma primeira bateria de consulta já foi disponibilizada.


“O nosso objetivo é educar o consumidor”, afirma Solange. O projeto do MDC-MG, que foi aprovado pelo ministério, com recursos de R$ 300 mil, tem como mote o combate ao desperdício e ao que é desnecessário. O convênio possibilitou que a instituição se aparelhasse para realizar as pesquisas, depois de cerca de 1,5 ano do último acordo do mesmo gênero firmado pelo MDC-MG para financiar levantamento de preços.


A pesquisa realizada ontem teve como foco produtos essenciais de limpeza, entre eles, sabão em pó, água sanitária, detergente líquido e amaciante de roupas. O calendário começou neste mês com levantamento dos preços de alimentos. De acordo com o grupo de donas de casa que foi ontem a supermercados das regiões de Santa Efigênia e Funcionários, houve aumentos de preços preocupantes desde outubro do ano passado entre 8% e 10%.


Outros dois problemas identificados são o baixo volume de promoções nos supermercados e as variações muito pequenas dos preços de alguns itens, o que denota falta de concorrência entre as redes supermercadistas. Nas lojas, as pesquisadoras observaram, ontem, com frequência, a inexistência de preços nas gôndolas e nos produtos.


Memória
Preços congelados e desabastecimento


Lançado em 28 de fevereiro de 1986, o Plano Cruzado se propôs a controlar e reduzir a inflação, usando instrumentos como o congelamento dos preços de produtos e dos salários, e uma nova moeda, o cruzado (Cz$), em substituição ao cruzeiro. O cruzado surgiu avaliado em 1 mil cruzeiros. Pela TV, o então presidente José Sarney convocou a população para ajudar a conter os preços. “(...) este programa tem que ser um programa do povo brasileiro. (…) Cada brasileiro ou brasileira será e deverá ser um fiscal dos preços. E aí posso me dirigir a você, brasileiro ou brasileira, para investi-lo num fiscal do presidente, para execução fiel desse problema em todos os cantos deste Brasil”, pediu. No fim daquele ano, o plano já fazia água. Apesar de os “fiscais do Sarney” (foto) denunciarem remarcações de preços, meses após o anúncio, sem poder reajustar, produtores e comerciantes deixaram de entregar produtos, o que levou ao desabastecimento no país. Nos dois anos seguintes, o governo tentou conduzir, da mesma forma sem sucesso, dois planos de estabilização, Bresser, baixado em 1987, quando o ministro da Fazenda era o economista Luis Carlos Bresser Pereira, e Verão, lançado em janeiro de 1989, sob a gestão na pasta de Maílson da Nóbrega.

Enquanto isso...
...Vendas caem nas gôndolas da capital
O faturamento dos supermercados de Minas Gerais subiu 0,76% em janeiro ante o mesmo mês de 2015. Com relação a dezembro, a receita bruta do setor em Minas recuou 18,58%. Os dados, deflacionados pelo IPCA, são do Termômetro de Vendas, pesquisa mensal da Associação Mineira de Supermercados (Amis) com empresas de todo o estado. O desempenho do estado na comparação com o país na relação anual foi melhor. Ontem, a Associação Brasileira de Supermercados (Abras) informou que as vendas reais dos estabelecimentos no país diminuíram 3,38%. Já ante dezembro, a queda foi de 19,64%. “A queda de janeiro ante dezembro é normal, pois dezembro é sempre o mês de maior venda no ano motivado pela demanda ocasionada pelo Natal e ano novo”, explicou a Amis, em nota.


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