
Inflação perto de dois dígitos, desemprego em alta e dólar nas alturas. A conjuntura econômica tem assustado aqueles que projetavam retornar ao país nos próximos meses. Formada em jornalismo e pós-graduada em marketing, Suzana Paquete tinha a pretensão de ainda este ano retornar ao país depois de uma década na Espanha. Adiou. “Estou adiando um pouco para ver se a coisa melhora no Brasil”, afirma, ressaltando não ter desistido da volta.
Por lá, ainda sob os efeitos da crise econômica de 2008, “as coisas vão de mal a pior”. E ela foi uma das vítimas dos altos índices de desemprego. Depois de ter atuado em multinacionais, hoje Suzana dá aulas de inglês e português. Uma saída mais interessante aos baixos salários do mercado de trabalho. Segundo ela, amigas foram contratadas recentemente para ganhar valor similar ao que ela ganhava em 2006. Mas, ainda assim, prefere ficar na Europa, onde, mesmo em meio a um turbilhão, na avaliação dela, saúde e serviços públicos funcionam bem. “A cada vez que ligo, minha família me desencoraja”, relata. “Aqui, pelo menos a coisa parou de cair. Estacionou”, afirma sobre a incerteza do que está por vir no Brasil nos próximos meses.
Em fuga da crise europeia, o retorno ao Brasil era a saída perfeita para Eliel Ferreira de Souza. Aos 38 anos, ele mudou-se para o Velho Continente no auge do confisco do governo Fernando Collor (nome que ele se recusa a pronunciar). Depois de 23 anos na Itália, finalmente ele poderia aproveitar o país em um momento de certa calmaria, com a economia em alta em sua terra natal. “Até 2010, nunca parei de trabalhar. Começou a diminuir muito, muito, muito... Aí a crise me pegou. Até hoje, devo a uma amiga os aluguéis do meu apartamento”, conta o eletricista, colaborador na montagem de espetáculos de teatro dos mais renomados diretores italianos e de desfiles das principais grifes de roupa nas últimas duas décadas.

Segundo a presidente da Associação Mais Brasil, representação de imigrantes brasileiros na Região Norte de Portugal, Adriana Dihl Moraes, os relatos de brasileiros desistindo de regressar são ouvidos diariamente. Ela mesmo planejava vir com o marido português. Ele se aposentou no ano passado e finalmente poderiam realizar o sonho de vir morar no Brasil, mas, depois de terem sondado os custos de vida por aqui, desistiram. “Só para o meu marido, teríamos que pagar R$ 2 mil de plano de saúde. Aqui, nós não pagamos, porque ele é militar. Minha irmã falou que a luz subiu cinco vezes só neste ano”, diz a brasileira. E, sobre a vontade de voltar, acrescenta: “Já pensei e repensei”. Adriana considera que, além da economia, a violência gerada afeta a qualidade de vida, enquanto “a crise na Europa permite você ir e vir”. Uma nova possibilidade é a migração dos pais dela para Portugal.
INCERTEZAS As notícias difundidas tanto por parentes quanto pela mídia assustam os brasucas que moram no exterior. O vaivém do câmbio, as seguidas elevações da taxa de juros e os efeitos políticos na economia, juntos, causam certo temor. O doutor em economia e professor de finanças do Ibmec Alexandre Galvão considera a falta de perspectiva o principal item para a desconfiança. “O quadro de incerteza é muito ruim, principalmente por causa da fraqueza política. O problema do Brasil não é a situação atual em si, mas a falta de perspectiva. Em tudo na vida, é preciso enxergar lá na frente para se planejar o futuro”, afirma. O especialista argumenta que o quadro de confusão política impede a efetivação do ajuste necessário para mudar a situação, ficando complicado estabelecer a mudança de rota. “Em quanto tempo isso vai acontecer? Não há sinal de que vai melhorar”, afirma.
A interrogação sobre o futuro da economia deixa a goiana Ana Paula Carneiro, de 27 anos, indecisa quanto ao próximo passo a ser dado. Há cinco anos nos Estados Unidos, ela queria voltar para ficar mais perto da família e assim aplicar os conhecimentos aprendidos em universidades norte-americanas. Com bolsas de estudo, ela cursa pós-graduação em cinema e TV, enquanto o marido, o doutorado em química. Mas as incertezas da economia brasileira põem em dúvida o futuro do casal. “Diante da economia do Brasil, sinceramente, meu marido não quer voltar de jeito nenhum. Eu quero voltar pela família, mas o financeiro está horrível”, afirma Ana Paula, que, mesmo sem poder trabalhar (o visto é apenas para estudo), diz ter qualidade de vida superior à que teria no Brasil.
