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Estado de Minas

BC surpreende e eleva a Selic para 11,25% ao ano

Primeira reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) após as eleições termina com resultado bem diferente do esperado. A Selic, que estava em 11% ao ano desde abril, agora passou para 11,25%


postado em 30/10/2014 06:00 / atualizado em 30/10/2014 07:57

Brasília – Numa decisão totalmente inesperada, o Banco Central (BC) decidiu elevar a taxa básica de juros, para 11,25% ao ano, na primeira ação depois da reeleição da presidente Dilma Rousseff. Desde abril, a Selic estava em 11% anuais. Segundo o comunicado que se seguiu à decisão, a diretoria da instituição avaliou que seria oportuno ajustar as condições monetárias para garantir, a um custo menor, a prevalência de um cenário mais benigno para a inflação em 2015 e 2016.


Com a surpresa, os economistas já vão amanhã cedo refazer os cálculos para as projeções de vários indicadores e também definir as apostas para a próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), marcada para o início de dezembro. Até porque havia unanimidade entre os analistas do mercado financeiro de que a taxa seria mantida em 11% ao ano.

Um fator que será fundamental para o BC nas próximas decisões de política monetária é o comportamento do dólar. Do lado doméstico, a elevação da taxa ontem se deu em meio a indefinições sobre a permanência dos membros do Copom em seus cargos. Apesar de haver um consenso no mercado sobre a manutenção de Alexandre Tombini à frente do BC, aguarda-se a oficialização dessa expectativa pela presidente Dilma Rousseff. Se a estabilidade da Selic já era bola cantada, os diretores tiveram que lidar com um fator exógeno na reunião, que são os rumores sobre os possíveis desligamentos de seus cargos. Muitos estão “incomodados” com essa situação de indefinição.

Há um consenso, no entanto, de que nenhum deles baterá o martelo sobre o rumo de suas carreiras antes da definição na alta cúpula da instituição. Antes disso, é aguardado o novo nome do Ministério da Fazenda, que hoje tem como titular Guido Mantega. Vale lembrar que o BC é subordinado à Pasta e que em casos como o de um possível descumprimento da meta de inflação, por exemplo – que pode ocorrer este ano –, o presidente da instituição tem que dar satisfação ao ministro da Fazenda.

Apesar do marasmo da economia, pesou na decisão sobre os juros, segundo as primeiras análises de economistas, a tendência altista dos preços. A inflação oficial do país escapou do teto da meta de 6,5% – em 12 meses até setembro, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) estava 6,75%. Há ainda uma expectativa de redução da taxa até o fim do ano, mas convergência para o centro da meta de 4,5% mesmo, como até o BC admite, só deve ser vista em 2016. A autoridade monetária já deve ter incorporado em sua decisão de ontem a informação também de que a política fiscal não tem contribuído para a administração da política monetária ao longo deste ano, com reflexos em 2015.

Para o ex-presidente do Banco Central e sócio da Tendências Consultoria, Gustavo Loyola, a alta de 0,25 ponto porcentual na taxa básica de juros (Selic), para 11,25% ao ano, determinada pelo Copom é um sinal de que o órgão busca “recuperar a credibilidade da política monetária após o embate eleitoral”, numa sinalização ao mercado de uma maior rigor da política monetária. Para ele, outro fator determinante para o aumento da Selic foi a inflação ainda resistente e acima do teto da meta.

 

Insatisfação geral

 

O aumento da taxa Selic em 0,25 ponto percentual não foi bem recebido pelo meio produtivo. O presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Olavo Machado Júnior, afirma que a alta dos juros para 11,25% ao ano é um problema. Segundo ele, a elevação é utilizada como instrumento do governo para conter a inflação. No entanto, a produção fica prejudicada, uma vez que muitos preferem deixar o dinheiro no mercado financeiro e os investimentos nas indústrias ficam mais escassos. “Nossa expectativa é que o governo se renove e busque novas políticas que conciliem crescimento com inflação baixa. Como está não é possível, pois sem crescimento econômico e inflação em alta não avançaremos no desenvolvimento econômico e social do país”, afirma.

Ainda de acordo com o Machado, o resultado das eleições acirrou ainda mais as diferenças do Brasil, que já tem muitos entraves no campo da política econômica. “Temos uma defasagem no preço da gasolina que está levando a Petrobras a amargar seus piores resultados de desempenho dos últimos tempos. Ao mesmo tempo, a inflação já está no limite e uma alta nos combustíveis, além de elevar ainda mais o custo de produção e onerar o consumidor, pressionará diretamente o custo de vida”, ressalta.

Para o vice-presidente do Conselho Regional de Economia (Corecon-MG), Pedro Paulo Moreira Pettersen, a alta da Selic pegou o mercado de surpresa, uma vez que todos os setores esperavam a manutenção em 11%, reforçada pela retomada da economia dos Estados Unidos e a indicação de desaceleração dos preços internos.

Segundo Pettersen, há duas únicas razões que podem explicar a alta da taxa. A primeira delas, uma expansão fiscal, o que significa que o país pode fechar o ano em situação de déficit nominal, uma fonte primária de pressão inflácionária, o que não ocorria desde a década de 1990. A segunda, seria o Banco Central tentando coordenar as expectativas de mercado, tendo em vista que o cenário eleitoral projetou uma perspectiva negativa e a alta seria uma forma de sinalizar que está disposto a recolocar a inflação na meta, além de recuperar a capacidade de coordenação das expectativas de agentes econômicos. “O governo sinaliza para uma tendência, o mercado para outra e nessa especulação, o mercado fica inseguro, agravando o cenário enconômico. A alta da Selic seria uma forma de recuperar essa capacidade de coordenar as expectativas de agentes econômicos”, explica.

A Associação Nacional dos Executivos de Finanças Administração e Contabilidade (Anefac) informa que a elevação da taxa básica de juros anunciada ontem pelo Banco Central de 11% ao ano para 11,25% ao ano terá um efeito muito pequeno nas operações de crédito. Segundo a associação, este fato ocorre uma vez que existe um distanciamento muito grande entre a taxa Selic e as taxas de juros cobradas aos consumidores que na média da pessoa física atingem 102,67% ao ano provocando uma variação de mais de 800% entre as duas pontas.

 

EUA sem estímulos

 

Brasília – O Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) anunciou ontem o fim do programa de compra de títulos em poder de bancos e empresas, usado para injetar recursos no mercado e estimular a atividade econômica. Iniciada há cerca de dois anos, a ação foi considerada por muito tempo uma tábua de salvação para o país e para a economia global.

A recuperação norte-americana, contudo, tornou desnecessária a continuidade dos estímulos. O Comitê Federal de Mercado Aberto do Fed afirmou que considera a economia sólida o bastante para prescindir da ajuda. “O Comitê julga que houve uma substancial melhora no mercado de trabalho desde a introdução do atual programa de compra de ativos. Além do mais, continua a ver suficiente vigor subjacente na economia para sustentar o progresso em direção ao máximo emprego em um contexto de estabilidade de preços”, explicou um comunicado distribuído pela instituição.

Em setembro de 2012, o Fed anunciou que passaria a comprar US$ 85 bilhões por mês para estimulara os negócios. Desde o fim de 2013, no entanto, esse montante vinha sendo gradativamente reduzido. No mês passado, o volume já havia caído para US$ 15 bilhões.

Já esperada pelo mercado, a retirada dos estímulos pode ser o primeiro passo para a elevação dos juros nos EUA, que vêm sendo mantidos há anos perto de zero. A nota do Fed afirmou, porém, que as taxas permanecerão baixas por “um tempo considerável”. Para o economista Flávio Serrano, do Espírito Santo Investment Bank, a alta deverá começar em meados do próximo ano, mas pode vir antes ou depois, dependendo do ritmo da atividade econômica. “Mas não acredito que ficará para 2016.”

TEMOR Os efeitos da mudança na política monetária na maior economia global são temidos no Brasil devido ao risco de provocar elevação ainda maior da Selic, a taxa básica de juros estabelecida pelo Banco Central (BC). Isso poderia reduzir ainda mais a atividade econômica já cambaleante. O mercado prevê crescimento de apenas 0,27% do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano e de 1% no próximo.

Serrano avaliou, porém, que não necessariamente o eventual aumento dos juros resultará em queda da atividade econômica. “A inflação é causada pela falta de oferta e não por excesso de demanda. Se houver um choque de gestão do governo, que traga perspectiva positiva, os investimentos podem crescer. Nesse caso, mesmo com alta da Selic, haveria crescimento econômico.”


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