Publicidade

Estado de Minas

Vendas de galões de água despencam e comerciantes do ramo amargam prejuízos

Aumento do preço do produto, aliado ao cenário econômico do país, causaram queda no número de vendas, que até crescem na comparação com o registrado no inverno, mas frente a igual período do ano passado caiu de 20% a 50%


postado em 14/10/2014 06:00 / atualizado em 14/10/2014 09:00

Klester Gama quer mudar de ramo porque registrou queda nos negócios:
Klester Gama quer mudar de ramo porque registrou queda nos negócios: "As pessoas estão diminuindo o consumo. A economia do país não vai bem" (foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press)
Com a alta temperatura e a falta de chuva não seria um espanto se o setor de água mineral estivesse comemorando recordes nos lucros. Porém, o que deveria ser um bom momento para o segmento é visto com pessimismo por quem está no ramo. Apesar de haver, no calor, um aumento de até 25% nas vendas dos galões e garrafas, o cenário econômico do país atrapalha o crescimento da área, segundo proprietários de distribuidoras em Belo Horizonte. Eles dizem amargar 50% de prejuízo em relação ao ano passado e alguns já anunciam fechar suas portas. Enquanto isso, para o consumidor, segundo pesquisa do site Mercado Mineiro, divulgada nessa segunda-feira, a bebida ficou mais cara. Houve reajuste de 4,49% no preço médio do fardo de garrafa de 300ml com gás, por exemplo, que custava em março R$ 15,83 e agora é vendido por R$ 16,54.

Há 20 anos no mercado, Klester Gama, proprietário da Ibiza Alimentos Disk Água, que atua exclusivamente no ramo de água mineral, está abandonando o segmento. “Para se ter ideia, no ano passado, eu tinha 13 funcionários e, hoje, tenho três. Vendíamos uma média de dois caminhões por semana, com 700 galões de 20 litros cada. Hoje, é um caminhão por mês”, lamenta e diz que, em breve, mudará de ramo, já que o da água mineral não tem valido a pena. “As pessoas estão diminuindo o consumo, a economia do país não vai bem. Além disso, pago tributo de 12% quando compro a água da indústria e depois de 8,5% quando vendo. Não tem mais jeito”, desabafa. Klester cita ainda a logística como outro empecilho. “Com o preço da gasolina e o trânsito da capital, as minhas entregas se limitaram a alguns bairros da cidade para não ter um prejuízo maior”, diz.

Segundo comenta o proprietário da Agualife Distribuidora Suiá-Ingá, Welerson Ângelo Gonçalves, embora esteja quente, o setor vive uma crise histórica. “As empresas hoje estão reduzindo seus custos e, a primeira coisa que cortam, é a água mineral. Muitas têm investido em bebedouros. Já a demanda pelo consumidor comum, pessoa física, tem aumentado, mas não é nada expressivo”, diz. Comparando com o ano passado, Welerson diz que teve uma queda de cerca de 20% no lucro. “É um ano que podemos riscar do calendário. Em 2013, tinha uma média de entrega de 100 galões por dia. Hoje, mesmo com essa alta temperatura, são 80. Com a Copa do Mundo, então, foi um desastre. Estou há 12 anos no ramo e nunca passei por um momento tão ruim.”

Na visão do distribuidor, o cenário econômico do Brasil, com inflação chegando a 6,75% em 12 meses, estourando o teto da meta do governo de 6,5%, somando aí previsões de um baixo crescimento do país são fatores que contribuem para o momento ruim no setor de água. “O custo operacional da distribuição de água mineral aumentou. Subiu tudo: o frete, o aluguel, conta de luz. E isso pesa para nós, distribuidores. Além disso, tem a informalidade. Enquanto vendemos um galão de 20 litros a R$ 15, um informal oferece mais barato e não é fiscalizado. A gente procura ser o mais correto possível e há muitos na clandestinidade”, critica.

Com 56 indústrias em Minas Gerais, a produção da água mineral no estado está dentro da normalidade, conforme comenta o delegado regional da Associação Brasileira da Indústria de Águas Minerais (Abimam), Robison Fortes de Araújo. Porém, segundo ele, a questão tributária tem pesado para o setor. “Neste período de calor, temos um aumento na demanda de 25% a 30%. É o esperado para a época e não há exageros”, diz. Ele afirma que, apesar de estar dentro da expectativa, os fatores tributários e a logística do setor são empecilhos também para a indústria. “Hoje, o que mais tem nos causado problemas, é a falta de mão de obra qualificada. Muitos trabalhadores não querem compromisso com a empresa. Hoje em dia, com os tributos e esses problemas, os investimentos da indústria no ramo têm sido precário”, confessa. Ele afirma ter medo de que, no futuro próximo, não haja água mineral suficiente. “Está ruim para todos nós distribuidores. Há um ano, nesta época de calor, vendíamos cerca de 300 galões por dia. Hoje, são 150”, comenta Lhaís Oliveira, proprietária do Ingá Express Distribuidora.

Segundo Welerson Gonçalves, as empresas cortaram os gastos e pararam de encomendar a água mineral. Passaram a comprar bebedouros(foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press)
Segundo Welerson Gonçalves, as empresas cortaram os gastos e pararam de encomendar a água mineral. Passaram a comprar bebedouros (foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press)
Na contra mão do que dizem os distribuidores do varejo, Willian de Souza Amora, que trabalha com disribuição de água mineral no atacado em BH, diz que a demanda aumentou 40%. “Com a falta de água em muitos bairros, tem pessoas que estão comprando água mineral para cozinhar. Antes, eu distribuía 300 galões de água por dia. Hoje, são, 800, um aumento de 300%. “Vendo para supermercados, farmácias e outros locais de revenda. É um bom momento”, afirma.

PREÇOS

Tantos fatores podem justificar, segundo os distribuidores, o valor da água mineral ao consumidor comum. De acordo com pesquisa divulgada ontem pelo site Mercado Mineiro, ao comparar os preços médios do mês de março com os praticados atualmente, houve reajuste de 4,49% no valor médio do fardo de 12 garrafas de 300ml com gás, que custava R$ 15,83 e está custando R$ 16,54. Já a mesma quantidade, porém sem gás, foi reajustada em 4,28%, passando de R$ 14,96 para R$ 15,60. O garrafão de 20 litros tinha o valor unitário de R$ 11,61 e está custando cerca de R$ 12,06, aumento de 3,88%. O único preço médio em queda foi o do fardo de garrafa de 500ml – com gás (12 unidades), que passou de R$ 14,87 para R$ 14,35, caiu 3,50%.

Diante dos números, o diretor-executivo do site, Feliciano Abreu, estranha a lamentação da classe. “Com um calor desses, é estranho eles terem prejuízo”, diz. Para ele, o que pode justificar a crise nesse mercado seria a concorrência com o mercado informal. Além do reajuste nos valores, a pesquisa, feita entre 10 e 11 de setembro, mostrou também que, entre uma distribuidora e outra, as variações dos preços chegam a 220%. Um fardo de garrafa de 300ml natural (12 garrafas) pode custar entre R$ 7,50 e R$ 24, na Grande BH.

 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade