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Estado de Minas

Dinheiro paralelo move a economia

País tem 65 'versões' do real aceitas no comércio para manter a renda e desenvolver comunidades carentes


postado em 23/10/2011 07:28

Comerciantes, Wandrey Santos mostra reais e veredas que circulam em Chapada Gaúcha, no Norte de Minas, enquanto Gilimar Orsolin alerta para problemas(foto: Daniel Ferreira/CB/D.A Press)
Comerciantes, Wandrey Santos mostra reais e veredas que circulam em Chapada Gaúcha, no Norte de Minas, enquanto Gilimar Orsolin alerta para problemas (foto: Daniel Ferreira/CB/D.A Press)
Chapada Gaúcha (MG) – Você quer pagar em paca, vereda, potiguara, cactos, rios, tupi, sampaio ou real? Se for comprar um produto na farmácia de Wandrey Santos Porto, 38 anos, na cidade de Chapada Gaúcha, no Norte de Minas, a 680 quilômetros de Belo Horizonte, pode escolher a vereda. Na Região Nordeste, no Parque Potira, bairro com cerca de 20 mil habitantes na cidade de Caucaia (CE), uma opção é a potiguara. Apesar de o real ser a única moeda oficial do Brasil, uma forma alternativa de pagamento está conquistando cada vez mais espaço. Ao todo, já são 65 moedas sociais em circulação nas cinco regiões do país. Elas são utilizadas, diariamente, por pelo menos 512 mil pessoas. O total desses papéis nas carteiras dos brasileiros equivale a R$ 550 mil. Mas, como esse dinheiro passa de mão em mão, a estimativa é de que se houver ao menos três giros por dia ele movimente, em média, R$ 49,5 milhões em negócios por mês.

A proposta surgiu em 1998, com a criação do Banco Palmas, que atende a comunidade do Conjunto Palmeira, com 32 mil habitantes, na capital Fortaleza (CE). O projeto cresceu, e hoje os 65 bancos comunitários espalhados pelo Brasil funcionam como casas de câmbio e empregam diretamente ao menos 192 pessoas. Os comerciantes e os moradores trocam real pelo papel local, que pode ser usado para pagar por bens e serviços — na prática, uma sofisticação do escambo. Todas as moedas sociais são lastreadas em reais e paritárias à oficial. Dessa forma, para cada sol, ita, prata, grão, terra e freire que sai dos bancos, um real vai para o caixa.

João Joaquim de Melo Neto, criador do Banco Palmas e coordenador da Rede Brasileira de Bancos Comunitários, explica que essas unidades são abertas, geralmente, em regiões carentes. Como a moeda só é aceita pelos comerciantes do bairro, o dinheiro ganho pelos moradores circula e produz riquezas apenas na comunidade. “Em locais mais pobres e com o comércio pouco desenvolvido, as pessoas ganham o seu salário e vão gastar em outras cidades. Com a moeda social, o dinheiro fica ali. O segredo foi criar um instrumento para as pessoas produzirem e consumirem localmente e não deixarem os recursos irem embora”, diz Neto.

Em Chapada Gaúcha, a maioria das ruas é de chão batido e o esgoto não chegou às residências. Para ter acesso à cidade do Norte de Minas, onde vivem 11 mil pessoas, ainda é preciso percorrer pelo menos 30 quilômetros de estrada de terra, o que inviabiliza a passagem dos carros nos dias de chuva e prejudica a economia, baseada na agricultura, principalmente na produção de sementes de capim. Para tentar melhorar a economia, os moradores se organizaram e criaram, em 2009, o Banco Comunitário Chapadense, o primeiro do estado. Lá, há 6 mil veredas em circulação.

Na tentativa de alavancar a iniciativa, o empresário Wandrey Porto oferece descontos que variam de 5% a 10% para quem comprar medicamentos ou cosméticos em sua farmácia com as veredas. Ele calcula que hoje um terço das vendas diárias é feito por meio da moeda local. Mas reconhece que ainda há muitas barreiras a serem superadas. “Do início para cá, os negócios melhoraram. Mas muitos ainda não entendem a importância de usar a moeda. Falta divulgação”, avalia. Resistência Dono de uma loja de materiais de construção na cidade, Gilimar João Orsolin, 44 anos, também é um entusiasta do projeto. Ele revela, no entanto, que houve uma queda no uso das veredas depois de terem circulados notas falsificadas, no meio deste ano, no período das tradicionais festas juninas  realizadas na cidade. Hoje, de uma venda diária de R$ 5 mil, ele recebe, em média, R$ 500 na moeda local. O dinheiro é utilizado para pagar contas e realizar parte do pagamento dos funcionários. “Outro problema é que muitos clientes não aceitam, pois o papel é frágil e estraga rápido. A proposta é ótima, mas não tem funcionado como deveria”, diz.

A resistência não ocorre apenas por parte dos moradores. Devido à qualidade do papel usado para fabricar as notas, o empresário Elzito Gonçalves de Oliveira, 38 anos, não recebe veredas na padaria e no mercado que mantém na cidade. “A ideia é muito boa. Mas chegamos a um ponto em que as pessoas não aceitavam mais o troco. Além disso, o banco comunitário ficou um tempo fechado e não aceitou o pagamento dos boletos. Decidi suspender”, diz. Rosemeire Magalhães Gobira, gestora do Banco Comunitário Chapadense, afirma que só recebeu uma denúncia de nota falsificada, que teria sido cortada de um cartaz divulgado pelo próprio banco, de forma grosseira. Mas concorda que o principal problema está relacionado ao papel. “No início, chegamos a fazer uma reimpressão das notas. Mesmo assim, elas não aguentam muito. As primeiras cidades que encampam a ideia sempre enfrentam mais dificuldades”, pondera.


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