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Estado de Minas

Confrarias ampliam alcance em encontros on-line e ganham adeptos em função da comodidade

Cada participante recebe em casa a comida ou bebida que será degustada e se conecta com o restante da turma através da tela do computador


02/08/2020 04:00 - atualizado 02/08/2020 10:59

Bacalhau confitado com ervas, amêndoas em lascas e arroz negro (Confraria da Carol)(foto: Fernanda Oliveira/Divulgação)
Bacalhau confitado com ervas, amêndoas em lascas e arroz negro (Confraria da Carol) (foto: Fernanda Oliveira/Divulgação)

Confraria é um grupo de pessoas que se reúnem regularmente em torno de um interesse em comum. São encontros que envolvem conversas, troca de experiências e aprendizado compartilhado. Será possível levar esta experiência para o on-line? Temos exemplos de que isso funciona, sim. Neste período de pandemia, cada participante recebe na sua casa a comida ou bebida que será degustada e se conecta com o restante da turma através da tela do computador.


Carol Machado, cozinheira por vocação e professora por paixão, agiu rápido. “O que mais me deixa feliz é dar aula, então, quando percebi que a pandemia ia durar, me lembrei do que sempre escutei de quem faz aula comigo: fica muito fácil receber os ingredientes selecionados e porcionados, assim dá prazer de cozinhar.” Ainda no início de abril, ela teve a ideia de entregar para os alunos o que eles não gostam de fazer e criou a Confraria Box, um jeito diferente de dar aulas.


Os ingredientes vão embalados a vácuo, prontos para ir para a panela. Basta tirar do saquinho e adicionar na receita. Dessa forma, na hora de cozinhar, o participante pula as etapas (nada prazerosas para muitos) de sair para as comprar e fazer mise em place. “A Confraria Box não tem nada de extraordinário, é uma ideia simples. Apenas tive o feeling de perceber o que o meu cliente queria.”

 

Costeletas de cordeiro com geleia de pimenta (LuLuVinhas)(foto: Lea Araújo/Divulgação )
Costeletas de cordeiro com geleia de pimenta (LuLuVinhas) (foto: Lea Araújo/Divulgação )

A cozinheira privilegia receitas fáceis e de grande impacto, o que sempre fez em casa, quando ainda nem era professora. Formada em comércio exterior, Carol trabalhava em multinacional e não tinha tempo nem sabia fazer pratos elaborados. “O que achava que era uma fraqueza, não ter formação em gastronomia, descobri ser o meu ponto forte. Simplifico as receitas e faço com que uma pessoa que nunca cozinhou prepare um camarão à provençal maravilhoso.” Agora ela começou uma sequência de confrarias com receitas assinadas por chefs famosos, como o aligot de Felipe Rameh.


Para uma empresa com pouca presença digital, que tem como valor promover encontros, os números na internet impressionam. Na primeira semana, foram vendidas 120 caixas (o objetivo inicial eram 80 por mês). Agora os pedidos já passaram de 300. “Tinha 400 alunos por mês. Agora consigo dar aulas para 300 famílias ao mesmo tempo, o que não conseguiria presencialmente.” Pessoas de outros estados também participam. Três dias antes, recebem a lista de ingredientes e acompanham as aulas.


Nos encontros on-line, não existem grupos fechados, todos participam juntos. Outra diferença é que, presencialmente, Carol cozinhava e os alunos apenas observavam. Agora todos colocam a mão na massa, cada um na sua casa, e a família também pode participar (as caixas atendem duas ou quatro pessoas). “Acho que por trás disso tudo tem o amor. Lógico que eles sentem falta do presencial, mas não querem ficar sem a caixa, porque conseguem cozinhar para a família. Esperam pela quinta para estarem juntos em volta do fogão”, destaca.

 

Uma receita e vários truques

 

Na quarentena, muita gente foi para a cozinha e começou a pedir socorro para Caroline Mesquita, da Bolos da Caroll, na hora de fazer bolo. A massa murchou, queimou, não desenforma. Percebendo todas estas dificuldades, a confeiteira lançou da Confraria do Bolo (por enquanto, virtual). “Bolo precisa de técnicas de confeitaria muito exatas, não é só pegar receita na internet.”. Mas ela avisa que não tem a intenção de sofisticar o ato de fazer bolo, quer ajudar os participantes a se familiarizar com termos e entender o porquê de uma receita não dar certo.

 

Bolo negro de cacau (Confraria do Bolo)(foto: Bolos da Caroll/Divulgação )
Bolo negro de cacau (Confraria do Bolo) (foto: Bolos da Caroll/Divulgação )

Uma vez por mês, a turma (com, no máximo, 30 participantes) se reúne virtualmente para aprender uma receita e vários truques. “Muitas pessoas que estão fazendo bolo em casa querem receitas novas para colocar no seu caderninho”, observa. Todos recebem em casa uma caixa com todos os ingredientes que vão precisar, já porcionados, incluindo manteiga para untar a forma. Até as flores, que são a marca da confeiteira, fazem parte do kit.


Caroline quer surpreender os participantes com receitas diferentes ou ingredientes raros e pouco conhecidos. Na primeira edição da confraria, ela escolheu ensinar o bolo negro, com massa amanteigada de cacau, bicarbonato de sódio e iogurte. “Bolo de chocolate geralmente fica marrom, mas a soma dos ácidos do bicarbonato e iogurte deixa este bem escuro. Além disso, bolo com iogurte e bicarbonato fica mais úmido e mais fofo.”


A próxima edição, marcado para o dia 16, será dedicada ao bolo de limão siciliano com sementes de papoula, ingrediente que não se encontra em BH. A papoula, além da crocância, dá um charme ao bolo, que fica com pontinhos pretos. “Quero aproveitar para apresentar produtos brasileiros que casam bem com bolos, como baunilha do cerrado, que é mais potente que a de Madagascar, e cumaru, extremamente aromático”, aponta.


A cozinheira Carol Machado facilita a vida dos alunos que não gostam de fazer compras e mise en place(foto: Hermam Alexander/Divulgação )
A cozinheira Carol Machado facilita a vida dos alunos que não gostam de fazer compras e mise en place (foto: Hermam Alexander/Divulgação )

Os encontros duram cerca de uma hora e são sempre numa tarde de domingo. Assim, os participantes podem aproveitar para tomar café com bolo que acabou de sair do forno. Caroline dá dicas do início ao fim do processo. Desde como higienizar os ovos até o porquê de não usar farinha com fermento. “O pulo do gato vale mais que a receita. Quando você descobre os truques, consegue entender se o processo descrito na receita é correto. Fazer bolo é uma ciência, mas não é impossível”, reforça.

 

Vinho com conteúdo

 

Reconhecida confraria de mulheres em torno do vinho, a LuLuVinhas havia programado para a quarentena apenas lives com conteúdo gratuito. Mas, a pedido das próprias participantes, criou um formato on-line para os encontros fechados, que continuam a gerar conhecimento em jantares harmonizados com a bebida. A enoeducadora Vanessa Ferreira, uma das fundadoras, que há 19 anos estuda vinhos, diz que a presença na internet tem ajudado a fortalecer a marca. “As pessoas tinham a impressão de que eram encontros sociais, mas, quando viram que tem conteúdo, a busca aumentou.”


Para enriquecer a experiência on-line, as organizadoras da LuLuVinhas lançaram uma caixa de aromas(foto: Lea Araújo/Divulgação )
Para enriquecer a experiência on-line, as organizadoras da LuLuVinhas lançaram uma caixa de aromas (foto: Lea Araújo/Divulgação )

No formato presencial, as mulheres se reúnem mensalmente em um restaurante, onde participam de um jantar harmonizado com cinco vinhos e cinco pratos. O que muda nos encontros virtuais é que o jantar tem três etapas mais uma sobremesa e um único rótulo. “Não quisemos fracionar o vinho em garrafas pequenas, porque entendemos que ele tem perda significativa dos compostos. Então, mandamos a garrafa inteira, da qual sempre tem muito o que falar”, justifica Vanessa.


Pelo lado do aprendizado, a experiência também é diferente. Para a confraria on-line, foi lançado um produto inédito, a caixa de aromas, que se tranformou em uma série colecionável. São 20 aromas, como ervas, frutas vermelhas e pimentas, divididos em quatro encontros seguidos. “O objetivo do vinho é proporcionar prazer, não só pela bebida em si, mas pela memória afetiva. O aroma traz isso e influencia na experiência do gosto.” Vanessa adianta que os próximos encontros serão sobre solos e vinhos brancos.


A cada semana, a confraria convida um chef para preparar a comida. Os pratos são pensados para harmonizar com o vinho da vez. Para um dos encontros, dedicado a um rótulo sul-africano, Laura Tomás, do Parrilla del Mercado, criou um menu com haddock au gratin, filé parrillero ao molho de vinho com batatas ao roquefort, costeletas de cordeiro com geleia de pimenta e mousse de chocolate belga. Na hora do jantar, basta esquentar a comida no forno ou micro-ondas.


A confeiteira Caroline Mesquita manda em uma caixa os ingredientes já porcionados(foto: Bolos da Caroll/Divulgação )
A confeiteira Caroline Mesquita manda em uma caixa os ingredientes já porcionados (foto: Bolos da Caroll/Divulgação )

Vanessa destaca como vantagens do on-line a comodidade de viver a experiência em casa e o alcance ampliado. O número saltou de 120 participantes por mês para 40 por semana (com os maridos, em muitos casos). A confraria, que começou há 12 anos como um grupo de amigas e depois abriu para outras mulheres, avisa que a participação dos homens é, sim, bem-vinda. “Existe um interesse masculino latente, eles sempre pedem para participar”, diz a enoeducadora, que já pensa ter pelo menos uma reunião mista. O plano aproxima a marca do projeto de se consolidar como escola, com certificação e tudo.

 

Bacalhau confitado com ervas, amêndoas laminadas e arroz negro (Confraria da Carol)


Ingredientes
400g de arroz negro; 2 colheres de cebola picadinha; 2 colheres de sopa de manteiga; ½ xícara de vinho branco; 1 ½ litro de água; sal e pimenta do reino a gosto; azeite; 4 postas de bacalhau; sal; pimenta-do-reino em grãos; 500ml de azeite; 4 dentes de alho inteiros com casca; 4 folhas de sálvia; 1 ramo de tomilho; 1 ramo de alecrim; 12 tomatinhos cereja ou grape; 50g de amêndoas laminadas; brotos e flores comestíveis para decorar

 

Modo de fazer

Para o caldo de legumes, coloque cebola, cenoura e salsão em uma panela e acrescente 1 ½ litro de água. Leve para ferver. Em outra panela, doure a cebola na manteiga e junte o arroz negro. Acrescente o vinho branco e deixe evaporar. Junte o caldo de legumes e cozinhe por cerca de 40 minutos ou até que fique ao dente e ligeiramente úmido. Se o caldo secar durante o cozimento, acrescente mais água. Junte uma colher de manteiga gelada. Para o bacalhau, preaqueça o forno a 160 graus. Coloque o bacalhau em uma travessa pequena, acrescente tomilho, sálvia, alecrim, grãos de pimenta-do-reino e os dentes de alho com casca. Junte o azeite e cubra com papel alumínio. Leve ao forno preaquecido. Depois de 15 minutos, retire do forno e junte os tomatinhos. Cubra novamente e leve de volta ao forno por mais 15 minutos. Sirva as postas de bacalhau sobre o arroz negro e decore com amêndoas, flores e brotos.

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