Meryl Streep sentada à mesa mostra o exemplar do livro O Pequeno Príncipe

Meryl Streep interpreta avó com doença terminal impedida, pela crise ambiental, de se conectar com o neto que ainda vai nascer

Apple TV+/reprodução

Logo nos primeiros meses da pandemia de COVID-19, em meio ao fechamento das salas de cinema e ao congelamento do calendário de estreias, um filme lançado 10 anos antes se tornou campeão absoluto das rodas de conversa virtuais e do streaming: "Contágio".

Sua aparente capacidade de prever a crise sanitária chamou a atenção e alçou o roteirista Scott Z. Burns ao status de Nostradamus moderno. Eis que agora ele põe novamente à prova suas habilidades para a futurologia, levando às telas uma humanidade subjugada não por um vírus, mas pela crise do clima, em "Extrapolations".

Nova série do Apple TV+, a trama imagina um futuro não muito distante no qual o aumento da temperatura da Terra sai do controle e, assim, desencadeia transformações ainda mais profundas do que as provocadas pelo novo coronavírus. Mas a essência da história é radicalmente diferente da de "Contágio".

Para Burns, o longa se apropriou do que sabíamos de outros surtos e falou sobre uma realidade que, mais cedo ou mais tarde, chegaria. "Extrapolations", por outro lado, lida com algo inédito e que não está no futuro, pois já começou.

"Estranho mesmo teria sido pensar que uma pandemia não aconteceria novamente. Com a série é diferente – mais assustador e, do ponto de vista de um roteirista, mais atraente. Estamos em direção a um território desconhecido. Estamos num momento de refletir sobre quando vamos dar um basta nisso, porque é algo que já vivenciamos", afirma.
 
 

Linha do tempo da tragédia

Falar de uma realidade inédita, no entanto, não significou que ele estava livre para ignorar a ciência e contar apenas com a própria imaginação. Assim como em "Contágio", Burns passou anos pesquisando relatórios da ONU, estudando projeções de cientistas e falando com acadêmicos e especialistas de assuntos que iam de geoengenharia a oceanografia.

Então, montou um painel em seu escritório, com linha do tempo que ia de 2020 a 2070, cheia de ramificações com o que poderia acontecer nesse meio tempo. Por isso, "Extrapolations" tem cada episódio ambientado num ano diferente, cada um responsável por mergulhar mais na crise e, mais importante, mostrar seus impactos no dia a dia de pessoas comuns, em nível íntimo.
 

É nessas historinhas individuais que a série se concentra, quase como numa antologia. Na que Meryl Streep atua, por exemplo, ela é uma senhora que, ao descobrir uma doença terminal, decide gravar vídeos lendo histórias para seu neto ainda não nascido.

Mas ela não poderia imaginar que no futuro em que ela já não existe os elefantes de "O Pequeno Príncipe", por exemplo, também teriam chegado à extinção. 

Então a série questiona: como o pequeno vai compreender a história se o mundo no qual Saint-Exupéry a escreveu não existe mais?

Parece futilidade em meio a problemas maiores, como o aumento do nível dos oceanos ou queimadas que destroem florestas inteiras, mas essa foi a maneira que Burns encontrou de tornar a série palatável e capaz de se conectar com as pessoas – e, quem sabe, inspirá-las e provocá-las para serem vocais na luta ecologista, completam os produtores Dorothy Fortenberry e Michael Ellenberg.

Miami se afoga no mar

Essas questões individuais aparecem, por exemplo, na caminhada de uma criança até a escola, num dia tão quente que o governo não recomenda que ninguém fique mais de 15 minutos exposto ao sol. Ou na corrida bilionária de empresas de tecnologia que tentam armazenar o material genético dos últimos exemplares de espécies quase extintas. E na inundação de um templo na Miami prestes a desaparecer no mar, que leva seus frequentadores a questionarem intenções divinas.
 
Atriz Diane Lane, de botas, anda em direção a um homem de costas em cena da série Extrapolations

Diane Lane interpreta uma executiva em "Extrapolations"

Apple TV+/reprodução

"Se as pessoas querem fechar os olhos e tapar os ouvidos, boa sorte. Essa é uma discussão que só vai aumentar, que atinge a todos. Temos os avisos e as provas, não deveria ser uma questão política, porque é uma questão sobre a saúde do planeta"

Diane Lane, atriz

 

Além de Streep, "Extrapolations" tem outros nomes de peso no elenco, como Marion Cotillard, Forest Whitaker, Sienna Miller, Tobey Maguire, Edward Norton, David Schwimmer, Matthew Rhys, Gemma Chan, Daveed Diggs, Murray Bartlett, Tahar Rahim, Judd Hirsch e Kit Harington, que vive um empresário à la Elon Musk, que gasta dinheiro com futilidades como um cassino no Ártico.

Sua empresa, Alpha, lembra a gigante de tecnologia de outro bilionário, a Alphabet, conglomerado que abriga o Google.

Ricos ou pobres, sejam indivíduos, sejam países, são impactados pela crise e contribuem para ela de formas díspares, "Extrapolations" deixa claro. 

A série da Apple TV não foge da polarização da vida real, em meio a um clima global de hostilidade à ciência e de negacionismo.

"Se as pessoas querem fechar os olhos e tapar os ouvidos, boa sorte. Essa é uma discussão que só vai aumentar, que atinge a todos. Temos os avisos e as provas, não deveria ser uma questão política, porque é uma questão sobre a saúde do planeta. Talvez quem se recuse a acreditar devesse ir embora e nos deixar preservar o que sobrou", afirma a atriz Diane Lane, outra estrela do elenco.