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Estado de Minas MÚSICA

Ovo, Desvio, Boulanger e DoContra são os 'filhotes' da Filarmônica de Minas

Integrantes da orquestra criam grupo que oferece oportunidades a jovens estudantes de música e montam pequenas formações para atuar como solistas


20/11/2022 04:00 - atualizado 19/11/2022 01:51

Werner Silveira rege a Orquestra Ovo
Werner Silveira rege a Orquestra Ovo, formada por estudantes de baixa renda da UFMG e Uemg (foto: Alexandre Rezende/divulgação )
“Sou artista, preto e LGBTQIA+. Gosto sempre de dizer isso porque minha existência é um ato político.” Este é Clayton Silva, de 26 anos, o primeiro de sua família a estudar na faculdade – graduou-se em música, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Seu instrumento é o violino. Não conheceu o pai e foi criado pela mãe, que fez faxina, foi cobradora de ônibus e artesã.

A história de Clayton e de tantos jovens que, como ele, driblaram as estatísticas são parte intrínseca da Orquestra Ovo – Orquestra de Formação e Transformação. O projeto iniciado em 2019 por Werner Silveira, percussionista da Filarmônica de Minas Gerais, promove neste domingo (20/11), às 17h, o terceiro concerto de sua história, no Centro Cultural Unimed-BH Minas.

Quarenta jovens instrumentistas, sob a regência de Silveira, vão executar as “Bachianas brasileiras nº 9”, de Heitor Villa-Lobos, e “O carnaval dos animais”, de Camille Saint-Saëns, com a participação dos pianistas convidados Júnia Canton e Heron Alvim.

Clayton Silva toca violino
Clayton Silva, um dos talentos da Ovo, tem orgulho de se dizer'músico preto e LGBTQIA+' (foto: Alexandre Rezende/divulgação)
 
Em 17 de dezembro, cerca de 60 musicistas realizarão mais uma apresentação da Ovo, desta vez na Sala Minas Gerais. O “Concerto independência cultural brasileira: 100 anos”, com repertório dedicado a Carlos Gomes, Guerra-Peixe, Alberto Nepomuceno e Villa-Lobos, vai celebrar três datas: o centenário da Semana de 1922, o bicentenário da Independência do Brasil e os três anos da própria orquestra.

WhatsApp com 150 nomes

Pois foi também em 17 de dezembro, e na mesma Sala Minas Gerais, que a Ovo fez sua estreia. Projeto nascido do esforço pessoal de Silveira com a colaboração de vários colegas da Filarmônica, é uma orquestra de formação. Os músicos trabalham por projeto. Os participantes são, em sua grande maioria, jovens de baixa renda que se graduaram ou estão cursando música na UFMG ou na Universidade do Estado de Minas Gerais (Uemg).

A cada concerto, Silveira entra em contato com interessados – seu grupo de WhatsApp tem 150 nomes. “Tudo é organizado com muita antecedência. Mando o cronograma dos ensaios, anuncio cachês e envio o repertório. E tem o processo de audição. Como é orquestra de formação, até o processo de audição é uma oportunidade de crescimento.”

Os ensaios ocorrem na sede da Sinfônica da Polícia Militar de Minas Gerais. Clayton, por exemplo, por fazer curso profissionalizante de teatro à noite, não está participando da agenda da Ovo neste ano. Mas esteve ativamente com o grupo em 2021.
 
Durante a pandemia, foi criado o curso Ovo na Quarentena, série de palestras e aulas on-line. O processo gerou o curta-metragem que será lançado em breve no YouTube. As histórias de Clayton e do fagotista Hudson Rosa, de 32, estão no centro do documentário.

Silveira comenta que os integrantes da Ovo têm, geralmente, três origens: “Eles vêm de famílias simples do interior de Minas e começaram a tocar em corporações musicais; são da Grande BH e tiveram contato com música por meio de projetos sociais da periferia; ou vêm de igrejas evangélicas, que têm papel fundamental nessa formação.”

O percussionista que virou maestro

A história de Silveira se encontra com a dos músicos a partir de 2018, quando ele começou a dar aulas de percussão na Sinfônica de Betim. “Me formei em percussão pela UFMG. A regência foi um sonho desde sempre, mas não achava que era capaz. Com 40 anos de idade, aconteceu. Conversando com o Márcio Miranda (então regente da orquestra), ele me deu a oportunidade de trabalhar (como maestro). Quando terminou o primeiro ensaio, pensei: por que não fiz isso antes.? Era para estar naquele lugar há mais tempo.”

Silveira passou a estudar de forma autodidata. “Com a experiência de músico de orquestra há 20 anos (de 2001 a 2007, na Sinfônica de Minas Gerais; desde 2008, na Filarmônica), sempre tive contato com maestros incríveis. Neste ano, comecei a estudar mais formalmente com o José Soares (regente associado da Filarmônica), principalmente na parte prática do repertório do Ovo. Tem sido um bálsamo, ele tem me ajudado muito.”
 
Em 2019, houve problema de patrocínio e a Sinfônica de Betim teria de encerrar as atividades. Muito envolvido com as aulas e os alunos, Silveira recebeu a mensagem do pai, dizendo que ele deveria criar uma orquestra.

“Achei que meu pai estava ficando doido, mas conversei com alguns meninos de Betim e eles toparam na hora. Com colegas (da Filarmônica) também. Daí comecei a passar o chapéu em empresas para levantar o dinheiro e fazer o primeiro concerto.”

Doze colegas da Filarmônica atuam como monitores: Tiago Ellwanger (violino), Luciano Gatelli e Mikhail Bugaev (viola), Eduardo Swerts (violoncelo), Rossini Parucci (contrabaixo), Cássia Lima (flauta), Maria Fernanda Gonçalves (oboé), Marcus Julius Lander (clarinete), Catherine Carignan (fagote), Alma Maria Liebrecht (trompa), Marlon Humphreys (trompete) e Renato Lisboa (trombone e tuba).

Em 2021, Silveira criou o Núcleo de Educação Cidadão, associação sem fins lucrativos. “A ideia é de que em longo prazo haja outros projetos educacionais associados à Ovo”, conclui.

CONCERTOS GERDAU

Com a Orquestra Ovo.
• Neste domingo (20/11), às 17h, no Centro Cultural Unimed-BH Minas.
• Rua da Bahia, 2.244, Lourdes.
• Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). À venda na bilheteria.

Orquestra gerou duo, quarteto e quinteto

. DESVIO

Mesmo tocando em diferentes orquestras e vivendo também em outras cidades, os percussionistas Rafael Alberto (chefe de naipe na Filarmônica) e Leonardo Gorosito já somam 12 anos à frente do Desvio. A ênfase é a percussão brasileira. O projeto, cujo nome vem da primeira e última sílabas de “desconstrução do óbvio”, lançou dois álbuns: “Cancioneiro” (2016) e “Ritmos brasileiros” (2021, com Orquestra Ouro Preto). Atualmente, a dupla está criando o quarteto Martelo Percussion Group, com Rubén Zúñiga e Danilo Valle.
 
Os músicos Leonardo Gorosito e Rafael Alberto
Leonardo Gorosito e Rafael Alberto formam o duo Desvio, voltado para a percussão (foto: Fernando Lara/divulgação)

“Manter trabalhos de música de câmara em paralelo ao trabalho na orquestra é essencial para a manutenção do artista que mora dentro do instrumentista. É fundamental ter em mente que, na orquestra, desempenhamos uma função integrada ao coletivo, sob a liderança do regente, responsável pelas concepções artísticas e interpretativas das músicas. Nos grupos de câmara, nos apropriamos dessa responsabilidade e assumimos o protagonismo”, comenta Rafael.

. QUARTETO BOULANGER

A violinista Jovana Trifunovic, a violoncelista Lina Radovanovic, a pianista Ayumi Shigeta e a violista Flávia Motta se conheceram na Filarmônica. Há cinco anos formaram o grupo de câmara de música contemporânea que lançou dois álbuns: “Folhagens” (2017) e “Entre brumas e fúrias” (2022). Esse último é dedicado a peças inéditas das compositoras Marisa Rezende, Valéria Bonafé, Silvia De Lucca, Tatiana Catanzaro e Maria Helena Rosas Fernandes.
 
Quatro integrantes do quarteto boulanger vestem roupas brancas, seguram instrumentos musicais e posam para foto entre árvores e folhagens
Quarteto Boulanger lançou dois discos (foto: Alexandre Rezende/divulgação)

“Para o músico de orquestra, a importância de manter o trabalho pessoal com música de câmara está muito relacionada ao desenvolvimento técnico do instrumento e da performance. Na orquestra, nosso trabalho é realizado em naipes (grupos grandes de instrumentistas) e temos de tocar o mais parecido possível com o colega ao lado. Com o Quarteto Boulanger, cada integrante é, de certa forma, solista. Isso exige outro tipo de intensidade sonora”, afirma Flávia Motta.

. DOCONTRA

O nome remonta à primeira formação do grupo, um quinteto de contrabaixistas integrantes da Filarmônica. Capitaneada por Neto Bellotto, chefe de naipe, a formação nasceu em 2015. O repertório é popular, com arranjos de Bellotto para o formato de câmara. A partir do primeiro registro, um arranjo para “Nascente”, o grupo iniciou a parceria com Flávio Venturini que rendeu o álbum “Paraíso” (2019).

Com nova formação, todos da Filarmônica – Gilberto Paganini (viola), Jovana Trifunovic e Valentina Gostilovitch (violinos), Lina Radovanovic (violoncelo) e Rossini Parucci (contrabaixo) –, e Bellotto no violão e voz, DoContra trabalha recentemente com repertório mineiro.
 
Integrantes do grupo DoContra tocam em frente a velas acesas
DoContra vai lançar projeto com Lô Borges (foto: João Paulo Sofranz/divulgação)
 

Em 21 e 22 de dezembro, o grupo se une à Filarmônica e a Lô Borges em duas apresentações na Sala Minas Gerais para celebrar os 50 anos do álbum “Clube da Esquina” e os 70 de Lô. Para 2023 estão previstas outras datas com Venturini e Lô, além de novo repertório – um dos projetos serávoltado para a bossa nova.

“É importante existirem grupos com a possibilidade não só de flertar com o que está sendo produzido hoje, mas de valorizar a história da música popular brasileira, o que temos feito”, diz Bellotto.


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