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Estado de Minas TELEVISÃO

A nova ''Pantanal'' é tão boa (e tão ruim) quanto a novela original

Remake da trama de Benedito Ruy Barbosa que foi fenômeno de público em 1990 repete qualidades e defeitos da primeira versão, como o ritmo arrastado da história


30/06/2022 04:00 - atualizado 29/06/2022 23:47

vestido como vaqueiro e usando chapéu, ator Renato Góes carrega no colo atriz Bruna Linzmeyer, que usa calça, blusa estampada e sandália de salto, em beira de rio no Pantanal
José Leôncio (Renato Góes) e Madeleine (Bruna Linzmeyer) chegam ao Pantanal, na primeira fase da novela (foto: João Miguel Júnior/Divulgação)

Quando fizermos a retrospectiva de 2022, o sucesso da novela "Pantanal" terá seu lugar garantido entre os fatos que marcaram o universo do entretenimento no Brasil neste ano. No ar desde 28 de março na TV Globo, o remake do folhetim exibido em 1990 pela hoje extinta TV Manchete é uma adaptação de Bruno Luperi da obra criada e escrita por Benedito Ruy Barbosa. A versão 2022 da trama conseguiu repetir o fenômeno de audiência que deu à novela original um lugar na história da teledramaturgia brasileira. 

Lançada sob grande expectativa, "Pantanal" estreou com o desafio de levantar a audiência do horário nobre, em substituição a "Um lugar ao sol". Produzida em circunstâncias atípicas, devido à pandemia do novo coronavírus, a trama de Lícia Manzo, que originalmente substituiria "Amor de mãe", ainda em 2020, foi adiada e estreou com todos os capítulos gravados, o que prejudicou o engajamento do público, acostumado com obras adaptáveis às suas preferências no desenrolar da história.

Com "Pantanal" foi diferente. Endossada pelo signo da nostalgia e pela divulgação pesada da emissora, a novela conquistou o público com facilidade. Já na primeira fase, que durou 14 capítulos, o folhetim se tornou um tema de espectadores e da crítica televisiva. O interesse se manteve na segunda fase, mesmo com a troca de atores que vivem os personagens principais, em razão do salto temporal, e a chegada de novos integrantes da história.

Remake de 'Pantanal" é fiel ao original

Respeitoso à versão original, o remake segue o enredo de 1990 à risca, tanto que é possível comparar as duas versões da novela com facilidade. A história de "Pantanal" é centrada na figura de José Leôncio (Renato Góes e Marcos Palmeira), um peão que, após o desaparecimento de seu pai, Joventino (Irandhir Santos e Osmar Prado), passa a cuidar das terras da família sozinho.

Durante uma viagem ao Rio de Janeiro, ele conhece e se casa com Madeleine (Bruna Linzmeyer e Karine Teles). Da relação, nasce Jove (Jesuíta Barbosa), que cresce acreditando que o pai havia morrido, mas, décadas depois, descobre o paradeiro dele e vai ao seu encontro, no Pantanal. O reencontro é marcado pelas diferenças comportamentais e culturais entre os dois.

É por lá que Jove conhece e se apaixona por Juma Marruá (Alanis Guillen). Filha de Maria Marruá (Juliana Paes) e Gil (Enrique Diaz), ela cresceu isolada de todo contato com a sociedade e aprendeu com a mãe a se defender do "bicho homem", que matou sua família devido a conflitos de terras. Apesar de suas profundas diferenças, Juma e Jove vivem uma paixão intensa.

O casal, inclusive, é um chamariz que, desde o início, tem gerado repercussão nas redes sociais. Ainda no início da trama, quando Jove chega ao Pantanal para conhecer Zé Leôncio, ele é recebido em festa com direito a churrasco e choca o pai, ao afirmar que não come carne por "uma questão de princípios".

A cena gerou burburinho nas redes sociais e virou meme. No Twitter, muita gente achou graça no fato de o personagem se mostrar uma pessoa desconstruída, que quebra padrões de gênero, ao fugir da imagem de homem viril assumida pelos outros boiadeiros do núcleo que ele integra. Essa ideia já estava presente na versão original, mas fica ainda mais evidente por ter sido atualizada com questões contemporâneas.

Juma e Guta: mocinhas fora do padrão

Juma também foge dos padrões de feminilidade relacionados às mulheres. A antológica personagem, apesar de ter crescido afastada de costumes e hábitos urbanos e não ser muito sociável, é bastante consciente de suas vontades e sabe o que quer, até mesmo quando aprende com Jove, que a ensina a ler e escrever e faz uma espécie de educação sentimental ao se aproximar dela.

Mas quem bate de frente com o conservadorismo de alguns personagens é Guta, vivida por Julia Davila. Filha de Tenório (Murilo Benício) e Maria Bruaca (Isabel Teixeira), ela chega ao Pantanal após uma temporada em São Paulo e enfrenta o preconceito das pessoas ao seu redor por ser uma jovem bastante segura de sua liberdade sexual.

Com um discurso progressista que às vezes soa soberbo, ela se coloca contra a postura machista do pai e o ameaça quando descobre que ele tem uma segunda família. Ao se envolver com Tadeu (José Loreto), Guta mostra que não pretende obedecer às vontades do peão.

Nas redes sociais, Guta é vista como uma personagem chata e incoerente. A chatice se justifica por sempre ter uma resposta na ponta da língua e a incoerência está na relação que ela estabelece com a mãe. Apesar do discurso feminista, ela não a defende quando Tenório exige que Maria Bruaca assuma o papel de dona de casa contra a sua vontade.

atriz Isabel Teixeira em primeiro plano em lancha que navega por rio, com ator Juliano Cazarré, ao fundo, desfocado
Maria Bruaca, vivida pela atriz Isabel Teixeira na segunda versão de "Pantanal", tornou-se sinônimo de empoderamento feminino e conquistou uma legião de fãs (foto: João Miguel Júnior/Divulgação)

Maria Bruaca atrai 'bruaquers'

Vivida pela atriz Isabel Teixeira, que tem uma carreira consolidada no teatro, Maria Bruaca vem sendo o grande destaque de "Pantanal". O sucesso da personagem nas redes sociais ajudou a constituir uma legião de fãs que se autointitulam "bruaquers".

Eles torcem por ela, que passou de mulher submissa a empoderada depois que descobriu a segunda família do marido. Ele teve com a amante três filhos, que moram em São Paulo. Aos poucos, Maria Bruaca percebe os abusos de Tenório e começa a se livrar das tarefas domésticas para descobrir a si mesma.

Um dos principais símbolos dessa libertação é o carinho que ela desenvolve por Alcides (Juliano Cazarré). É com ele, uma espécie de capataz de Tenório, que ela passeia pelo Pantanal pela primeira vez e se delicia com a areia da prainha de rio. E é curioso pensar que Bruaca, sem o discurso rebuscado de Guta, consegue ser um contraponto ao patriarcado muito mais forte do que a filha.  

O remake de "Pantanal" está prestes a chegar na metade. Apesar de mais enxuta do que a produção original, a novela da Globo terá, ao todo, 167 capítulos, o que não a livrou da "barriga" que também marcou a versão de 1990. Há quase duas semanas a novela, que vinha apresentando um ritmo ágil, estagnou.

Atualmente, a trama gira em torno da relação que Guta estabeleceu com Marcelo antes de saber que ele era seu irmão. Além disso, José Lucas (Irandhir Santos), irmão de Jove, continua se relacionando com Juma, e os dois protagonizam longos diálogos que não contribuem muito para o desenvolvimento da história.

Queimada: cena inédita de "Pantanal"

No 80º capítulo, exibido na última terça-feira (28/6), uma cena inédita foi inserida na novela. O roteiro do remake optou por mostrar os efeitos de uma queimada na região do Pantanal. Na cena, o Velho do Rio (Osmar Prado), personagem que é uma espécie de entidade da floresta, não aguenta assistir à situação e tenta combatê-lo sozinho.

A passagem chamou a atenção do público que acompanha a novela e a atriz paraense Dira Paes, que interpreta Filó na trama, aproveitou para deixar um recado no Twitter. "As queimadas do Pantanal não são coisa só de novela. É real, é grave e precisa ser combatida com a seriedade que necessita", afirmou a atriz.

Com o sucesso de "Pantanal", muita gente especula que a Globo vá apostar em novos remakes. No entanto, a próxima novela das nove, "Travessia", que já está em produção, é um texto inédito de Glória Perez. A produção reunirá nomes como Chay Suede, Rômulo Estrela, Jade Picon, Alessandra Negrini, Rodrigo Lombardi e Vanessa Giácomo e tem previsão de estreia para o último trimestre deste ano.

A emissora anunciou que também produzirá a novela "Todas as flores", de João Emanuel Carneiro, que será disponibilizada pelo Globoplay. Com Sophie Charlotte, Letícia Colin e Regina Casé como protagonistas, a produção irá ao ar em duas partes. A primeira, de outubro a dezembro deste ano, e a segunda de abril a junho de 2023. Essa será a segunda novela original da plataforma de streaming, sucedendo "Verdades secretas 2" (2021), de Walcyr Carrasco.


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