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Estado de Minas AUDIOVISUAL

Realidade do Brasil vence os clichês em série e filme sobre a periferia

Diretores Rayssa de Castro e Adirley Queirós oferecem novo olhar sobre a exclusão social em 'Sobrevivendo no inferno' e 'Mato seco em chamas'


13/04/2022 04:00 - atualizado 12/04/2022 21:56

cena do filme 'Mato seco em chamas' mostra mulheres e homens em motos em ruas de barro da periferia
"Mato seco em chamas", dirigido por Adirley Queirós, chamou a atenção nos festivais de Berlim e Cinéma du Réel, em Paris (foto: Terra Treme Filmes/divulgação)

"O cinema pode habitar o mundo do real. Trata-se de uma visão que requer trabalho, sem fórmulas. Você tem de vivenciar as experiências que aparecem num filme. Nunca apressar o tempo, deve fluir com ele"

Adirley Queirós, cineasta


No audiovisual, os retratos da periferia, volta e meia, desagradam. “A realidade é que as pessoas têm muita discriminação com as comunidades. Quase não se tem voz, a gente não tem oportunidade”, afirma Rayssa de Castro, diretora de dois projetos irmanados: “Sobrevivendo no inferno”, série de 12 episódios cujas filmagens começaram em março, e o longa “Rocinha, toda história tem dois lados”, em fase de finalização. O elenco do filme traz Leandro Firmino (de “Cidade de Deus”), Sérgio Hondjakoff (“Malhação”) e Ricky Tavares. A atriz Claudia Melo está em ambas produções, nos papéis de policial e de contraventora.

“Quero trazer uma realidade que se desconhece e que a sociedade precisa entender que existe. Há gente que precisa muito de oportunidade. Todo mundo já falou de favela, sempre falando do lado ruim – de polícia e bandido, drogas, tráfico, sequestro. Não. A gente mostra personagens reais: bandidos que tiveram sonhos de um dia serem surfistas; bandidos que têm a humanidade de ajudar a comunidade. E policiais também: há os corruptos, mas também os caras maneiros, que amam a farda”, explica Rayssa.

ARTISTA INDEPENDENTE

Aos 8 anos, a diretora começou a fazer aulas de teatro e circo. Há oito anos ela investe no audiovisual. “Na minha vida inteira, me dedico à arte. É uma luta muito forte. Ser independente não quer dizer lidar com produtos sem qualidade. Podemos não ter dinheiro, mas conhecimento e qualidade temos, e bastante”, defende.

Retratar moradores que acordam cedo, trabalham “e ralam pra caramba, em busca de oportunidades” exige muito esforço. “Com dinheiro, tudo é fácil; sem dinheiro, é realmente loucura. Mas sempre digo: só tenho esta vida e quero vivê-la intensamente”, afirma a cineasta.

Um dos desafios foi filmar durante a pandemia. “Paramos duas vezes por causa do lockdown. Foi tudo muito, muito difícil, mas nós conseguimos porque a gente não desiste”, conta Rayssa, de 42 anos.

Atuante num grupo de teatro, ela comemora a oportunidade de mostrar o dia a dia da Associação de Moradores da Rocinha no filme, por meio da personagem Clarinha (Mariana de Azevedo), aspirante a atriz. “O olhar singular está na criança que tem a esperança de sair da comunidade, o que ela mais quer na vida é melhorar tudo para sua família”, resume.

A ideia da cineasta é ampliar o universo com bandidos e troca de tiros associado às comunidades pobres. Reféns do fogo cruzado, moradores querem ser felizes e tocar a vida. O enredo aborda também identidade de gênero, crimes passionais e ressocialização. A produção da série conta com auxílio da Secretaria Estadual de Administração Penitenciária fluminense.

Mulheres que vivem em condições subumanas na prisão são o tema da série de Rayssa de Castro. O processo criativo contou com a colaboração de ex-detentas. “Pretendo entender e contar vidas de mulheres que, no amor, se sacrificaram pelos parceiros. Contar das muitas que roubam 'bobeira' para sustentar os filhos. Não quero passar a mão na cabeça e nem apontar o dedo, quero mostrar a desigualdade”, explica a diretora.
Mulher loura faz selfie, sorrindo, e ao fundo veem-se várias mulheres durante a serie Sobrevivendo no inferno
"Sobrevivendo no inferno", de Rayssa de Castro, traz histórias ocorridas em penitenciária feminina (foto: Ana Beatriz/divulgação)

CEILÂNDIA SEM RETOQUES

Imerso na realidade da Ceilândia, em Brasília, o diretor Adirley Queirós não mede esforços para recriar situações de personagens marginalizados. Foi assim que ele conquistou o Grande Prêmio da 44ª edição do festival de documentários Cinéma du Réel, em Paris, com o filme “Mato seco em chamas”, parceria dele com Joana Pimenta.

Considerado “filme radical e apocalíptico”, “Mato seco em chamas” foi exaltado pelo júri do festival pela “intensidade e a combatividade” dos personagens. Na trama, desponta o comércio ilegal de gasolina, impulsionado como empreendimento de personagens femininas.

“Festivais internacionais estão de saco cheio de fórmulas. Querem a imersão. Acredito no cinema que, numa ideia de ofício, traga relação com histórias que sejam honestas e vivas”, enfatiza Adirley, que dirigiu os elogiados “Era uma vez Brasília” e “Branco sai, preto fica”.

''Pretendo entender e contar vidas de mulheres que, no amor, se sacrificaram pelos parceiros. Contar das muitas que roubam 'bobeira' para sustentar os filhos. Não quero passar a mão na cabeça e nem apontar o dedo, quero mostrar a desigualdade''

Rayssa de Castro, cineasta



Híbrido na linguagem, “Mato seco em chamas” foi destacado como ficção ao estrear no segmento Fórum, importante vitrine no Festival de Berlim.

“Acima de tudo, é cinema. Defendo a crença de que o cinema pode habitar o mundo do real. Trata-se de uma visão que requer trabalho, sem fórmulas. Você tem de vivenciar as experiências que aparecem num filme. Nunca apressar o tempo, deve fluir com ele”, destaca.

“A gente, por exemplo, não faz cenários. A gente filma no meio da rua, cercado pelas pessoas”, conclui Adirley.


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