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Estado de Minas AUDIOVISUAL

Streaming e parcerias com o setor privado salvam a animação brasileira

Sem o apoio das leis de incentivo, realizadores buscam novas formas de sobrevivência, enquanto criações autorais ganham cada vez mais destaque


02/01/2022 04:00 - atualizado 02/01/2022 01:33

Cena do filme 'Bob Cuspe: Nós não gostamos de gente'
O diretor Cesar Cabral levou cinco anos para lançar "Bob Cuspe: Nós não gostamos de gente" (foto: Vitrine Filmes/divulgação)


Não é fácil, simples ou rápido criar um filme de animação. Enquanto produções com atores de carne e osso podem ser feitas “na guerrilha”, com pouco ou nenhum recurso, é impossível seguir o mesmo caminho nos desenhos animados que, nos últimos anos, ganharam força no Brasil com produções autorais e originais como “O menino e o mundo”, “Uma história de amor e fúria” e “Tito e os pássaros”. Sem leis de incentivo, como viabilizar o cinema de animação do Brasil?

“Bob Cuspe: Nós não gostamos de gente”, animação em stop motion que reverencia os personagens do cartunista Angeli, exigiu cinco anos de produção. Durante três anos, meia centena de pessoas trabalharam direto no projeto, produzindo um minuto de animação por mês. “O processo é muito lento, feito quadro a quadro, foto a foto”, conta o diretor Cesar Cabral.

NOVOS CAMINHOS

Como saída, produtores e realizadores começam a explorar o mercado. Parcerias com o setor privado, que já ocorriam devido à falta de leis de incentivo, se tornaram essenciais na consolidação de projetos. No entanto, outros caminhos se abriram.
 
Cena da animação 'Napo'
Para viabilizar "Napo", o diretor Gustavo Ribeiro criou a escola Revolution para treinar profissionais (foto: Miralumo Films/divulgação)
 
“O mais complicado da animação é o custo de produção. Animação tem um tempo muito largo de produção, com duração média de cinco anos”, afirma Cabral. “O que construímos nos últimos 10 anos talvez indique o caminho de trabalhos em streaming, com séries, ou com parcerias internacionais. Particularmente, estou perto dessa última opção para meu próximo filme.”

O paranaense Gustavo Ribeiro estava papeando com um amigo quando veio a ideia: um curta-metragem de animação, em 3D, sobre doença de Alzheimer. Despretensiosamente, inscreveu o projeto em edital no Paraná e venceu. E agora? Ele não sabia como colocar a ideia de pé, há seis anos, quando o mercado de animação no Brasil estava florescendo. Veio o estalo: e se formasse novos profissionais?

Em vez de se virar sozinho para desenvolver “Napo”, ele transformou o processo em uma troca. Fundou a Revolution, escola de animação no Paraná. Jovens aprenderam técnicas, enquanto Ribeiro viabilizou o curta. Mas tudo saiu de um jeito diferente do imaginado, pois a escola cresceu. “Achamos que seria uma salinha”, conta.
 
Cena da animação 'Perlimps'
"Perlimps", novo filme de Alê Abreu, recebeu investimentos de Luxemburgo (foto: Globo Filmes/divulgação)

Seis anos depois, com cinco mil alunos formados, o diretor é nostálgico ao analisar essa trajetória. Primeiramente, devido ao desenvolvimento do curta, que conta a história de um garotinho aprendendo a lidar com o avô com Alzheimer. Singela e delicada, a produção circulou em mais de 60 festivais pelo mundo. “Napo” chegou ao público no final de outubro, com lançamento gratuito no YouTube.

Há nostalgia quando o diretor fala sobre o mercado. No começo da década de 2010, havia editais de incentivo para que curtas e longas de animação ganhassem vida. Hoje, quase não há editais. Ainda assim, quando questionado sobre o setor no Brasil, o rosto de Gustavo reluz: “A gente vive a melhor época da história para fazer animação.”

O motivo da empolgação são as soluções que produtores e realizadores encontraram nos últimos anos ao se verem sem o apoio de entidades públicas: buscar parceiros internacionais, fazer parcerias com serviços de streaming ou ambos.

DINHEIRO DE LUXEMBURGO

O produtor Ernesto Soto trabalha ao lado de Alê Abreu, cineasta conhecido por “O menino e o mundo”. A dupla está finalizando o novo longa do diretor, “Perlimps”. No caminho para a realização do projeto, além da produção assinada por Globo Filmes, Gloob e Sony Pictures, houve a captação de dinheiro em Luxemburgo.

“Se o projeto é mais comercial ou tem um grande nome debaixo do braço, o dinheiro surge”, afirma Ernesto Soto. “Se é autoral, as possibilidades ficam mais restritas e depende muito do dinheiro de fora. Estamos percebendo que (o cenário) está um pouco incerto para o próximo projeto do Alê. O caminho internacional é o mais interessante. Vamos depender cada vez mais dessas parcerias”, explica.
 
Cena da animação O pergaminho vermelho
"O pergaminho vermelho" encontrou a saída na parceria com a Disney+ (foto: Tortuga Studios/divulgação)

A equipe da Tortuga Studios seguiu por outro caminho. Abraçou o streaming como forma de levar “O pergaminho vermelho” para mais pessoas, lançando a produção na plataforma Disney+.

“A gente ganha muitas janelas com o streaming. 'O pergaminho vermelho' estreou em mais de 20 países ao mesmo tempo. Coisa que, antigamente, não existia”, diz Nelson Botter Jr., diretor da produtora. “Com o streaming, a visibilidade é muito maior. Ela consegue viajar mais”, aponta.

Marcelo Pereira, um dos sócios do Combo Studio, que assinou recentemente o projeto “America the motion picture”, da Netflix, é taxativo. “Estamos praticamente só fazendo projetos que tenham alguma ligação com serviços de streaming, o que tem acontecido, acredito, com todos os estúdios. Isso está fortalecendo demais o mercado brasileiro de animação”, garante.

As perspectivas de mercado são positivas. A Tortuga prepara “O pergaminho vermelho 2” e já há negociações com serviços de streaming.

PARCERIA COM A ÍNDIA

O filme de Alê Abreu ganhou o primeiro teaser e começa a tomar o caminho de distribuição. Há também uma grande produção vinda da Gullane: “Arca de Noé” está ganhando forma após a parceria com o estúdio indiano Symbiosys Technologies.

Porém, realizadores e produtores se perguntam se esse modelo será sustentável a médio e longo prazos. Sem leis de incentivo, Gustavo Ribeiro, por exemplo, talvez jamais entrasse na área.

“É difícil abrir caminho até mesmo como diretor consolidado. Os projetos levam cinco, 10 anos. Quantos projetos você pode fazer na vida?”, questiona Ernesto Soto. “São poucos os estúdios com fôlego para produzir constantemente”, conclui.



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