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Estado de Minas

Em papo regado a Cacildis, filho de Mussum conta que pai bebia marcas importadas

Sandro Gomes criou a Brassaria Ampolis em homenagem ao Trapalhão. Hoje com quatro rótulos, empresa pretende ter alcance nacional


postado em 26/07/2019 04:11

Proprietário da Brassaria Ampolis, Sandro Gomes diz que %u201Cmesmo quem não conhece muito de cerveja vê aquele sorriso na gôndola do supermercado e acaba levando uma garrafa e provando%u201D(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A.Press)
Proprietário da Brassaria Ampolis, Sandro Gomes diz que %u201Cmesmo quem não conhece muito de cerveja vê aquele sorriso na gôndola do supermercado e acaba levando uma garrafa e provando%u201D (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A.Press)

Sandro Gomes chega com um semblante sério, apesar da cordialidade e do trato afável. Assim que o garçom enche os copos e a conversa se inicia, a primeira risada não demora a aparecer. E ela escancara de onde vem o maior orgulho e a inspiração desse empresário de 42 anos. Falar sobre o pai, que hoje estampa sua marca de cerveja e de quem herdou o farto sorriso, sem ao menos uma gargalhada, é tarefa impossível. Seja pela lembrança de quadros como o Mussum armando uma pindureta ou por imaginar o excelente cliente que Antônio Carlos Bernardes Gomes (1941-1994) seria para a Brassaria Ampolis, incorporada há pouco pelo gigantesco Grupo Petrópolis.

Em Belo Horizonte para divulgar a Cacildis, um dos quatro rótulos de sua cervejaria, Sandro conta sobre o convívio que teve – até os 17 anos – com um dos artistas mais populares da cultura brasileira e revela: “Naquela época, ele já gostava de algumas cervejas importadas”. A performance em Os Trapalhões era marcada pela simplicidade do personagem, capaz das mais desavergonhadas artimanhas para conseguir o “mé” por pouco ou nenhum custo. Fora de cena, Antônio Carlos é descrito pelo filho como um “grande apreciador de cervejas”. “Para o Mussum, o ‘mé’ era tudo que tivesse álcool, né? Cachaça, uísque, o que viesse ele traçava. Mas o Antônio Carlos era um apaixonado por cerveja e pegou uma época em que já se começava a ter acesso a algumas marcas importadas. Ele gostava da Grolsch, uma holandesa, e sempre pedia para alguém trazer de fora. Se estivesse vivo, seria uma grande preocupação para o Grupo Petrópolis, porque um tanque seria só dele”, brinca o filho. Ele afirma que o apreço pela bebida nunca se converteu em um problema para o pai.

“Ele sabia separar o momento de trabalhar do momento de festa e confraternização, férias e fim de semana. Uma coisa era o Mussum, outra era o Antônio Carlos. Pela agenda pesada de trabalho, não tinha como ser diferente. Era um cara que curtia, mas com responsabilidade”, diz. Depoimento semelhante foi dado recentemente pelo ex-companheiro de Trapalhões Dedé Santana, no Conversa com Bial (Globo). O tema do papo era o documentário Mussum – Um filme do Cacildis, lançado em abril pela diretora Susanna Lira. “Ele só bebia depois do trabalho mesmo. Nunca vi o Mussum bêbado, de passar das medidas, nunca”, disse Dedé.

Ainda sobre o convívio doméstico, Sandro aponta a cobrança do pai em relação à seriedade nos estudos como o maior aprendizado. “Ele sempre cobrou isso dos filhos – saber como falar, como tratar as outras pessoas. Dizia que não adiantava só esperar que te façam o bem, que é uma troca. Ele sempre foi preocupado com estudo e trabalho. Em casa, nem sempre era brincalhão. De vez em quando, tinha que dar uma puxada, brigar, como qualquer pai, porque a gente não era bobo. Era uma pessoa do bem, muito humana, de carne e osso, como nós.”

TRAPALHÕES A seriedade no lar tinha trégua quando os outros Trapalhões estavam presentes. Sandro conta que eram comuns viagens em família e outros momentos de confraternização envolvendo Renato Aragão, Dedé Santana e Mauro Faccio Gonçalves, o Zacarias. “Aí, a zoeira era pesada”, relembra.

Exibido ao longo dos anos 1970 e 1980, como atração destinada a toda a família, o programa humorístico que consagrou Didi, Dedé, Mussum e Zacarias apresentava esquetes e diálogos que atualmente seriam enquadrados numa classificação indicativa mais rigorosa, simplesmente pelas cenas envolvendo álcool, por exemplo. Mesmo a abordagem feita em cima de temas delicados, como piadas sobre cor de pele ou origem regional, ficam fora de contexto numa perspectiva atual.

Na opinião de Sandro, Mussum “se adequaria bem” a um contexto de maior sensibilidade social em relação aos alvos do humor. “Não tem como ser diferente para quem faz humor. Ou você se adequa, ou arruma outra coisa para fazer. Com ele não seria diferente. Os Trapalhões hoje passa no (canal por assinatura) Viva, de segunda a sexta. Parece-me que é até um teste. Algumas coisas são realmente muito questionadas, mas não vejo crítica. Procuro saber mensalmente, e só aumenta a quantidade de pessoas que seguem e assistem e não ouço tanta crítica em relação a isso”, afirma.

Na próxima segunda (29), completam-se 25 anos da morte de Mussum, em decorrência de complicações causadas por um transplante de coração. Ao longo dessas duas décadas e meia, manteve sua popularidade, mesmo entre representantes de gerações posteriores aos contemporâneos de Os Trapalhões. Isso se deve em grande parte à internet. No YouTube, não são raros vídeos com um quadro do programa ou coletâneas de momentos marcantes que acumulam mais de 1 milhão de visualizações cada um. E também não é difícil identificar o personagem mais adorado. Foi o que levou Sandro, em parceria com o amigo de infância Diogo Mello, a apostar na cervejaria como homenagem ideal para o pai. “Há um tempo que queria fazer algo relacionado a ele. Tinha pensado em montar um bar, um museu, bloco de carnaval, até que veio a ideia da cervejaria artesanal, em 2011. Tiramos do papel, encontramos bons profissionais, até porque só entendíamos de beber, e, em 2013, lançamos a Biritis, nossa primeira cerveja”.

Os sócios se valeram de todo o arcabouço de expressões características de Mussum e piadas – mais tarde encampadas pelos memes – para desenvolver a marca. Além da Vienna lager Biritis e da premium lager Cacildis, a Brassaria Ampolis tem a session IPA Forévis e a witbier Ditriguis em seu catálogo. Nos rótulos e peças publicitárias, Mussum está para todo lado, com seu sorriso e linguajar “caracteristiquis”. O Investimento tem prosperado. Como parte do Grupo Petrópolis, a produção aumentou e o objetivo é elevar sua participação no mercado e tornar a Cacildis “a puro malte mais conhecida do Brasil”, de acordo com o dono da cervejaria, que sabe bem do potencial da “marca registrada’’ do pai: “Mesmo quem não conhece muito de cerveja vê aquele sorriso na gôndola do supermercado e acaba levando uma garrafa e provando”.

Três perguntas para...
Sandro Gomes, 
filho de Mussum e dono da Brassaria Ampolis

Muito se fala, se recorda e se exalta o ator e humorista Mussum, mas ele teve também uma carreira notável como músico, especialmente com os Originais do Samba. Como é sua relação com a obra musical dele? Nessa sua empreitada com a cervejaria existe também a proposta de homenagear o Mussum artista da música, além do personagem de Os Trapalhões?
A homenagem é ao Mussum e ao Antônio Carlos. É uma homenagem da família para a pessoa, e isso envolve o profissional como um todo, desde o torneiro mecânico que ele foi ao músico extremamente qualificado e não tem como excluir o Mussum dos Trapalhões. Mas pensamos em fazer parcerias com eventos musicais e outras coisas legais. Vêm coisas boas por aí. Primeiro, queremos crescer a Cacildis em nível nacional. É a maria-fumaça passando. Depois vêm os vagões com muita novidade.

Sobre o idioma “mussumzês”, que é tão explorado pela cervejaria e tão adorado por tanta gente, o Antônio Carlos falava assim em alguns momentos fora da tela? Você sabe de onde surgiram essas expressões e como ele as criou?
O mussumzês ele falava só nos Trapalhões mesmo. Era muito difícil falar isso fora ou em casa. Surgiu do nada, foi ideia dele. O Chico Anysio que deu uma apimentada e um tempero, pedindo para ele falar algumas frases específicas, e não em tudo quanto é palavra. Essa orientação ajudou bastante e fez com que ele bombasse.

Mussum segue muito popular, mesmo passados 25 anos de sua morte. A cervejaria é uma prova disso e também um incentivo para que isso siga assim. Na sua opinião, qual é o principal legado deixado por ele?
É difícil falar isso, mas ele se tornou uma pessoa muito querida e amada por todos, por quem viu a atuação do Mussum nos Trapalhões e mesmo quem não. Quem tem hoje 20 anos gosta tanto quanto o pessoal da minha época. É um legado de respeito, amor ao próximo. É muito satisfatório ver o quão querido ele é e muito prazeroso ver a maneira como as pessoas falam dele. Existe um respeito grande e uma paixão quando as pessoas falam “Mussum me representa”, mas pelo lado prazeroso da vida, pelo modo de ele levar a vida e brincar. Por isso se tornou amado por todos.

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