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Estado de Minas MPB

Hit de Zé Ramalho, ''Admirável gado novo'' faz 42 anos 'causando' no Enem

''Hino'' do oprimido povo brasileiro na ditadura militar, canção ressurgiu na novela ''Rei do gado", em 1996, e agora bomba em polêmica envolvendo Bolsonaro


27/11/2021 04:00 - atualizado 27/11/2021 09:07

Arte mostra o compositor Zé Ramalho
(foto: Arte/EM)
“Êh, oô, vida de gado/ Povo marcado êh/ Povo feliz”. O refrão de “Admirável gado novo”, canção de Zé Ramalho lançada em 1979, talvez seja um dos mais conhecidos da música brasileira.

Até hoje, o cantor e compositor, de 72 anos, não deixa de incluir o hit em shows ao vivo. Quando o faz, “levanta” o público. No último dia 21, a canção virou assunto nas redes sociais após ser mencionada no caderno de provas do primeiro dia do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

Uma das questões de ciências humanas destacava o trecho “vocês que fazem parte dessa massa/ Que passa dos projetos do futuro/ É duro tanto ter que caminhar? E dar muito mais que receber/ Êh, oô, vida de gado/ Povo marcado êh/ Povo feliz”, seguido da pergunta: “Qual comportamento coletivo é criticado no trecho da letra da canção lançada em 1979?”.

As alternativas eram: militância política; passividade social; altruísmo religioso; autocontrole moral; inconformismo eleitoral.

HINO 

“Admirável gado novo”, ao ser lançada, chegou a ser tratada como “hino do povo brasileiro”. Em 1996, foi redescoberta por novas gerações ao integrar a trilha da novela “O rei do gado”, de Benedito Ruy Barbosa, exibida pela Globo. Era tema do personagem do líder sem-terra Regino (Jackson Antunes).

A música surgiu sob a ditadura militar (1964-1985). Para muita gente, ela critica a política do país na época, sob o comando do general João Baptista Figueiredo. Neste 2021, movimentos lutam pela liberdade de expressão e se mobilizm para garantir a democracia, enquanto setores da sociedade reivindicam a volta dos militares ao poder.

Zé Ramalho revelou que se inspirou em suas dificuldades na infância, na Paraíba. O tom político fica ainda mais evidente pela referência a “Admirável mundo novo”, romance de Aldous Huxley (1894-1963). Na distopia lançada em 1931, a sociedade vive sob regras autoritárias e todos são obrigados a exaltar a produtividade e o progresso, sob a aparência da felicidade e da perfeição.

“É uma prova de que a letra contém situações sociais e políticas atualizadas, acho que para sempre. Desde que o conceito de 'atualizada' refere-se à situação também 'para sempre' do povo brasileiro. Sinto-me recompensado por essa letra, que já tem quase 50 anos, estar se destacando nessas avaliações oficiais do conhecimento atual dos alunos”, afirmou o músico em nota publicada pelo site G1.

Além de “Admirável gado novo”, “Comportamento geral” (1973), de Gonzaguinha, e “Sinhá” (2011), de Chico Buarque e João Bosco, foram citadas no primeiro dia de provas do Enem.

A música de Ramalho causou comoção porque, nas redes sociais, foi associada a seguidores do presidente Jair Bolsonaro, apelidados de “gado” pela oposição. Por se tratar de crítica à ditadura, houve muitos questionamentos sobre sua presença na prova.

Bolsonaro declarou que as questões do exame haviam começado a ter “a cara” de seu governo. E, referindo-se ao regime militar, defendeu “começar a história do zero”, mas negou ingerência no teste.

Servidores ligados à elaboração do Enem pediram exoneração, denunciando “pressão ideológica”. A oposição solicitou ao Tribunal de Contas da União investigação de interferências no Inep, órgão responsável pelo Enem.



“Admirável gado novo” 

De Zé Ramalho

Vocês que fazem parte dessa massa
Que passa nos projetos do futuro
É duro tanto ter que caminhar
E dar muito mais do que receber

E ter que demonstrar sua coragem
À margem do que possa parecer
E ver que toda essa engrenagem
Já sente a ferrugem lhe comer

Êh, oô, vida de gado
Povo marcado, êh!
Povo feliz!

Lá fora faz um tempo confortável
A vigilância cuida do normal
Os automóveis ouvem a notícia
Os homens a publicam no jornal

E correm através da madrugada
A única velhice que chegou
Demoram-se na beira da estrada
E passam a contar o que sobrou!
É o Brasil!

Êh, oô, vida de gado
Povo marcado, êh!
Povo feliz!

Oh, boi
O povo foge da ignorância
Apesar de viver tão perto dela
E sonham com melhores tempos idos
Contemplam essa vida numa cela

Esperam nova possibilidade
De verem esse mundo se acabar
A arca de Noé, o dirigível
Não voam, nem se pode flutuar

Não voam, nem se pode flutuar
Não voam, nem se pode flutuar

Êh, oô, vida de gado
Povo marcado, êh!
Povo feliz!


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