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Estado de Minas AUDIOVISUAL

Fabrício Boliveira tem parceria da ONU para impulsionar talentos negros

Ator criou o curso Cinema do Futuro, que está com 250 vagas abertas a jovens de 13 e 20 anos, para iniciar sua formação profissional


14/10/2021 04:00 - atualizado 14/10/2021 01:05

O ator Fabrício Boliveira com sua irmã Yasmin Boliveira
Fabrício Boliveira com sua irmã, Yasmin Boliveira, que o inspirou a criar um curso de cinema para menores de 18 anos (foto: Shai Andrade/Divulgação)

Se não dá para fazer no antigo modelo, há maneiras de continuar trabalhando, só que de outra forma. Ao pensar de maneira alternativa, o ator baiano Fabrício Boliveira, de 40 anos, se tornou, segundo suas próprias palavras, um “workaholic da pandemia”. Ele está chegando ao fim de 2021 com pelo menos quatro filmes rodados – um como ator e outros três também como diretor.

“Consegui trabalhar mudando o processo da arte. Foram equipes pequenas, uma só locação. Além disso, as pessoas que participaram dos filmes viraram sócias dele”, explica. Em janeiro deste ano, por exemplo, ele rodou “Mugunzá”, da Rosza Filmes, produtora do Recôncavo Baiano. No elenco do musical, inspirado na tragédia de Medeia, somente ele e a atriz Arlete Dias, do Bando de Teatro Olodum.

Também ao longo deste ano dirigiu um longa, “Antígona, não nasci pro ódio, nasci pro amor”, uma versão do clássico de Sófocles sob o viés de uma mulher negra baiana, e os curtas “Antígona pajubá” e “Funda”. Esses três foram viabilizados com recursos próprios de sua produtora, PrasCabeças.

DESAFIO 

“É um grande desafio ser um ator negro no Brasil. São poucos os personagens também porque não há interesse dos autores em escrever narrativas que não nos coloquem nos estereótipos. Que cinema é este que não conta a história de seus filhos, ou só de uma parte deles?”, questiona Boliveira, que, a partir de sua própria trajetória, tem buscado alternativas para abrir caminho no meio audiovisual para jovens negros ou em vulnerabilidade social.

Além de seus projetos como ator e diretor, criou durante a crise sanitária duas iniciativas de tentativa de inserção no mercado. No primeiro semestre, lançou o projeto Cinema do Futuro (CDF), série de encontros on-line com profissionais do cinema voltada para jovens de 13 a 20 anos. A segunda edição do CDF será realizada entre 1º de novembro e 2 de dezembro. Agora com o apoio da Organização das Nações Unidas (ONU), o projeto oferece 250 vagas – as inscrições vão até 24 deste mês.

O projeto é também fruto da pandemia, mas nasceu por causa da irmã caçula do ator, Yasmin. “Ela está hoje com 17 anos. No ano passado, vivia aquele momento em que estudantes estavam com aula remota. A internet amplia tudo, mas não como se aprofundar no estudo. Sugeri que ela estudasse cinema, mas todos eram para m

"É um grande desafio ser um ator negro no Brasil. São poucos os personagens também porque não há interesse dos autores em escrever narrativas que não nos coloquem nos estereótipos. Que cinema é este que não conta a história de seus filhos, ou só de uma parte deles?"

Fabrício Boliveira, ator e diretor

aiores de 18. Então, criei um curso para que ela pudesse fazer parte e também para pessoas que não vejo no cinema hoje. É um futuro para o que quero fazer”, explica Boliveira.

Para a segunda edição, foram selecionadas 10 áreas do cinema (direção, direção de arte, figurino, produção etc.) e cada participante terá que escolher cinco áreas para os encontros semanais. Entre os profissionais envolvidos estão a diretora Glenda Nicácio, a atriz Ana Flávia Cavalcanti, a figurinista Diana Moreira. 

Este ano também marca as duas décadas da Conferência Mundial contra Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerâncias Correlatas, realizada em Durban, na África do Sul. Os alunos terão ainda um módulo sobre o encontro organizado pela ONU. Ao longo do projeto, os estudantes produzirão vídeos sobre Durban.

“Para mim, o CDF é quase que uma resposta a tudo o que vivi na carreira. A prioridade são alunos negros, trans, indígenas, mulheres em situação de vulnerabilidade social. Quero ver essas pessoas escrevendo, produzindo”, afirma Boliveira. 

"É um grande desafio ser um ator negro no Brasil. São poucos os personagens também porque não há interesse dos autores em escrever narrativas que não nos coloquem nos estereótipos. Que cinema é este que não conta a história de seus filhos, ou só de uma parte deles?"

Fabrício Boliveira, ator e diretor



CADASTRO 

Paralelamente ao CDF, o ator criou, também por meio da produtora PrasCabeças, outra iniciativa de inserção no mercado. Leva o nome de Elenco Negro o cadastro para atores e atrizes negras, que inclui mentorias sobre a carreira. O sistema é bem simples: basta entrar no Instagram (@elenconegro) para encontrar o link para o cadastro.

Boliveira começou sua carreira em Salvador “na cara e na coragem”. “Hoje, tento facilitar as coisas para que os jovens entendam as possibilidades, conheçam o espaço artístico”, conta ele, que descobriu o teatro fazendo um curso para amadores na adolescência. Em dúvida sobre qual carreira seguir, fez vestibular para direito. Não passou e deixou, como segunda opção, artes cênicas, que cursou na Universidade Federal da Bahia.

A partir de uma montagem de “Capitães da areia” (2002), da Companhia Baiana de Patifaria, ele foi abrindo caminho. Fez publicidade, novelas, cinema. Interpretou papéis menores em filmes – inclusive em “Tropa de elite 2” (2010) – até ter sua grande chance, como o herói trágico João de Santo Cristo de “Faroeste caboclo” (2013), adaptação da canção homônima da Legião Urbana. 

De lá pra cá, viveu outros protagonistas, como o cantor Wilson Simonal na cinebiografia “Simonal” (2018) e o taxista Paulo de “Breve miragem do sol” (2020). É o longa de Eryk Rocha que Boliveira cita como uma virada na carreira. “É um filme em que a gente conseguiu tocar na questão da pandemia, ainda que tenha sido rodado antes, em 2017. Mostra um taxista frente à chegada do Uber, e fala ainda sobre noites desertas, motoristas, entregadores, solidão, conversas pelo WhatsApp. São temas que estavam por vir, quase que tocam no futuro”, diz.

Boliveira conta que, depois de ter interpretado Simonal e Itamar Assumpção (esse no teatro), gostaria de narrar a história de vários outros personagens importantes da cultura brasileira. “Tenho adorado biografias porque, além de contar histórias daqueles personagens, abrem discussões sobre como eles foram vistos na sociedade por ser negros. Adoraria fazer Milton Nascimento, adentrar na história de Martinho da Vila. Djavan. Emílio Santiago tem uma história muito forte, ele introduziu um jeito de cantar e hoje se conhece pouco dele”, comenta.

Também com uma produção grande em novelas, Boliveira está fora da próxima trama das 19h da Globo, conforme anúncio recente. Ele seria um dos protagonistas de “Cara & coragem”, prevista para o segundo semestre de 2022 – interpretaria o par romântico da personagem de Taís Araújo.

“Trabalhei na Globo por 14, 15 anos, e só tive contrato nos últimos três. Tinha o convite para esta novela, mas ela foi adiada por mais de um ano. Não fazia mais sentido se eu não estava mais contratado. Foi uma questão mais de conjuntura”, conta ele, que promete, para um futuro próximo, uma performance. “E cinema na cabeça, sempre”, conclui.

CINEMA DO FUTURO
Encontros de formação para jovens de 13 a 20 anos. As inscrições podem ser feitas até 24 de outubro no Instagram (@prascabecasprodutora e @fabricioboliveira). Oficinas virtuais (pela plataforma Zoom) de 1º de novembro a 2 de dezembro. Gratuito


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