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Estado de Minas MÚSICA

Formado por geógrafos, trio Bloco C canta as catástrofes brasileiras

Grupo carioca lança nesta quinta-feira (14/10) "Se oriente", seu primeiro disco, marcado pelo tom crítico das letras, cantadas em ritmo de samba


14/10/2021 04:00 - atualizado 14/10/2021 01:05

Daniel Obino, Tiago Rosa e Fernando Rosa num parque
Daniel Obino, Tiago Rosa e Fernando Rosa foram colegas no curso de geografia na UERJ e formaram o trio Bloco [C], que grava sem banda fixa (foto: Aline Pte/Divulgação)
 
"Por que será que o baixista é comunista?", questiona o primeiro verso da música "Trevo das margaridas", faixa que abre o álbum "Se oriente", a ser lançado pela banda carioca Bloco [C] nesta quinta-feira (14/10), nas plataformas digitais. 

A pergunta, que surge em meio a elementos sonoros tradicionais do samba, é o pontapé inicial do disco de estreia do grupo, formado em 2008, quando os músicos Daniel Obino, Tiago Rosa e Fernando Rosa cursavam geografia na UERJ. 

Desde a época em que eram estudantes universitários, os três enxergam a música como instrumento de contestação, e isso se reflete em todas as canções desse primeiro trabalho.

"A primeira frase do álbum é uma provocação. Por que será que o baixista é comunista? A direita neoliberal chama de comunista todo mundo que discorda dela. Isso é sempre dito com agressividade, tentando desmerecer a outra pessoa e o que ela pensa. Então, a gente coloca essa frase como uma maneira de questionar esse tipo de discurso", afirma Obino.

Esse tom provocador e até mesmo debochado está presente em boa parte das nove faixas que compõem o disco. "Se oriente" marca a retomada da Bloco [C]. A banda entrou em hiato em 2012 e retomou as atividades em 2015. Em 2017, os três integrantes conheceram o produtor Guilherme Gê, que passou a ser o responsável por ajudar o grupo a reestruturar sua sonoridade e estética. Desde então, eles refutam o formato de banda fixa, em nome de uma liberdade artística.
 
ALTO NÍVEL 

"Desde que a gente conheceu o Guilherme Gê, um cara alto-nível, com uma cabeça superaberta, começamos a idealizar o nosso primeiro trabalho. Quando as primeiras músicas surgiram, a gente percebeu que não precisava ter músicos fixos na banda, até mesmo para não se prender a um gênero musical só. Por conta disso, passamos a valorizar a composição e adicionar nela o que ela pede", explica Obino.

Nascida como uma banda dedicada ao reggae, a Bloco [C] não incluiu em seu primeiro álbum canções do gênero. "Se oriente" está mais associado ao universo do samba, mas também flerta com o rock e a MPB, com músicas que misturam sons orgânicos com batidas eletrônicas.

Finalizado em 2019, o disco foi gravado no Estúdio Hanoi, no Rio de Janeiro, com uma série de instrumentistas convidados, entre eles Marcos Suzano, Cláudio Infante e Rodrigo Sha. Nos últimos dois anos, o grupo se dedicou a mixar e masterizar o trabalho. O processo de finalização do disco, segundo Obino, foi beneficiado pela pandemia da COVID-19.

"A gente pôde sentar e organizar, fazer as reuniões pelo Zoom com calma, sem a pressão de fazer show ou estar na ativa. Trabalho com música na noite, mas o Tiagão (Tiago Rosa) e o Shock (Fernando Rosa) são professores em escola pública. Então a gente usou esse tempo mais tranquilo para finalizar o disco com calma e planejar o lançamento de uma forma mais organizada", conta.

A primeira música que o grupo lançou oficialmente foi "Governador", em 2018, que começou a ser escrita sete anos antes, em 2011, em resposta às enchentes e deslizamentos na região serrana do Rio de Janeiro. 

Com os escândalos e polêmicas que marcaram a administração estadual, a música ganhou novo significado. Em maio deste ano, a Bloco [C] relançou a canção por meio de um lyricvideo. Ela não só faz parte do álbum "Se oriente" como um de seus versos se tornou o nome do disco - "Se oriente rapaz/ Que vagabundo já não aguenta mais", diz o trecho.

"É uma referência a essa música, mas também tem tudo a ver com a nossa formação como geógrafos. Além do mais, somos uma banda que gosta de fazer críticas, e essa expressão funciona como uma cutucada em quem não está antenado nos problemas que o Brasil sempre enfrentou", diz Obino.

Depois de relançar "Governador", a Bloco [C] lançou o single "Sonho dourado", em junho último. Na letra, o grupo aborda de forma crítica os contextos sociais e econômicos que levam as pessoas a deixarem sua vida nas zonas rurais do país para buscar uma vida melhor nos centros urbanos. "Eu vim atrás de um sonho dourado/ Mas na cidade, seu moço, é tanto alvoroço/ Aqui eu me perco, achando algo de novo", diz um dos versos da canção.

Em julho, a banda lançou "Verde e amarelo", música que debate a descriminalização do uso de drogas. A música, que mistura elementos de rock com samba, conta com versos do rapper uruguaio Diego Grinberg.

Em agosto, foi lançada "Fundo de quintal", último single antes da chegada do álbum e cuja letra tem inspiração em versos do poeta Alberto Caeiro (um dos pseudônimos de Fernando Pessoa).

Com pouco mais de 32 minutos, o álbum ainda conta com as músicas "Paranauê", "Pescador", "Porcos" e "Feminino divino". Em boa parte delas, a questão política se encontra em versos bastante metafóricos.

Obino não considera esse um álbum de protesto, mas sim um disco que reflete sobre questões problemáticas do Brasil contemporâneo. Para ele, o gênero que melhor traduz os problemas políticos do país hoje não é o samba ou o rock, considerados berços da contracultura, e sim o rap.

"O rap veste essa camisa há algum tempo. É um gênero que trata de questões importantes. Ao mesmo tempo em que tem artistas fazendo um tipo de música descolado da realidade, tem aqueles que estão completamente imersos na mensagem que querem passar. E a galera aceitou isso de verdade. Tem uma geração nova aí que está muito atenta a essas mensagens", ele afirma. 

capa do álbum 'Se oriente'
“SE ORIENTE”
Bloco [C]
9 faixas 
Miragem Records 
Disponível nas plataformas digitais




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