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Estado de Minas GONZAGÃO EM NOVOS TONS

Com guitarra pesada e maracatu, Jorge Du Peixe revê Gonzagão

Disco ''Baião granfino'' reúne 11 músicas de Luiz Gonzaga. Integrante da Nação Zumbi diz ter respeitado sonoridade original


26/09/2021 04:00 - atualizado 26/09/2021 07:41

Du Peixe cita o aspecto de identidade ao rever o cantor e compositor pernambucano: ''Pensado exatamente para trazer o Brasil para o Brasil''
Du Peixe cita o aspecto de identidade ao rever o cantor e compositor pernambucano: ''Pensado exatamente para trazer o Brasil para o Brasil'' (foto: José de Holanda/Divulgação)

Integrante da Nação Zumbi, o cantor e compositor pernambucano Jorge Du Peixe assumiu o posto de vocalista do grupo após a morte de Chico Science, em 1997. Desde então, tem se dividido entre a banda, os grupos Los Sebosos Postizos e Los Hooligans, e a realização de trilhas sonoras para o cinema. Durante todos esses anos, nunca passou pela cabeça de Jorge lançar um trabalho solo, até que ele conheceu o produtor Fábio Pinczowski numa participação no programa musical "Clubversão", da Cinemax, em 2017.

Na ocasião, Jorge Du Peixe interpretou, ao lado do sambista Wilson das Neves (1936-2017), "Manhã de Carnaval", de Luiz Bonfá e Antônio Maria, imortalizada por figuras como João Gilberto (1931-2019) e Elizeth Cardoso (1920-1990). Pinczowski se encantou com o artista pernambucano e passou a cortejá-lo para produzir um trabalho dele. Os dois acabaram encontrando uma paixão em comum: Luiz Gonzaga (1912-1989). E assim começou a nascer o disco "Baião granfino", recém-lançado pelo selo Babel, com versões de músicas do Rei do Baião.

Da gravação participaram 18 músicos: Carlos Malta, Swami Jr., Siba Veloso, Pupillo, Mestrinho, Lello Bezerro, Bruno Buarque, Serginho Plim, Yaniel Matos, Gustavo Ruiz, Victor Rice, Bubu, Maria Beraldo, Lívia Nestrowski, Fábio Sá, Sthe Araújo, Naloana Lima e Victória dos Santos, além da participação da cantora paraibana Cátia de França na música "O fole roncou".

Na prática, "Baião granfino" é o único disco que consta na página de Jorge Du Peixe no Spotify. Completamente dedicado a Luiz Gonzaga, o repertório foi escolhido a dedo pelo músico em parceria com Fábio Pinczowski.

"Num primeiro momento, fiz uma playlist com umas 40 e tantas músicas e enviei para o Fábio. Como o Gonzaga gravou muita coisa em muitos estilos, o nosso desafio foi o de encontrar uma linha de raciocínio para transformar essas referências em um trabalho coerente. A obra dele é muito difícil de escolher. Gostaria de ter colocado muitas outras músicas", ele conta.

Por fim, os dois chegaram a 11 que representam variadas fases da carreira de Luiz Gonzaga. Entre elas estão "Rei Bantu" (que chegou às plataformas digitais em julho), "Sabiá", "Qui nem jiló", "Cacimba nova" e "Acacia amarela". Em agosto, veio o "O fole roncou". O repertório ainda conta com "Assum preto", "Orelia", "Pagode russo", "Sanfona sentida" e a música-título, "Baião granfino".

O nome do trabalho foi escolhido quando a gravação já tinha sido concluída. "Soa até irônico, mas não é. Acredito que esse 'granfino' está relacionado à sofisticação do baião e das músicas que estão ali. Mas também tem a ver com o cuidado que todas as pessoas envolvidas no projeto tiveram com ele", analisa Jorge Du Peixe.

A sonoridade incorpora referências já conhecidas dos trabalhos do cantor e compositor pernambucano, como o maracatu, guitarras pesadas e sons de metais. "A ideia era trazer esses elementos novos, mas com o cuidado de não 'modernizar'. Eu quis imprimir a verve do cancioneiro Luiz Gonzaga, a melancolia dessas músicas, fazendo versões fiéis à obra original, com poucas mudanças estéticas e mantendo a espinha dorsal", ele explica.

REENCONTRO

Gravado no início de 2021, no estúdio Doze Dólares, em São Paulo, "Baião granfino" representa a volta de Jorge Du Peixe aos estúdios pela primeira vez desde o início da pandemia de coronavírus no Brasil, em março de 2020, quando ele preparava o próximo álbum da Nação Zumbi, o sucessor de "Radiola NZ, vol. 1" (2017). O projeto foi paralisado, mas será retomado.

"Acredito que esse disco ["Baião granfino"] vem em um bom momento. A previsão inicial era lançá-lo no São João, em junho. Mas o baião é um ritmo que não precisa de uma data comemorativa para ser celebrado", afirma.

E essa lógica também se aplica a Luiz Gonzaga. Para Jorge Du Peixe, que nasceu e cresceu ouvindo o Rei do Baião, a obra do cantor e compositor apresenta o que ele chama Brasil "profundo". "Essas canções contam histórias do interior, de paisagens distantes e de um Nordeste ainda pouco conhecido. Eu vi tudo isso de perto, contemplei com muito respeito, e agora canto e trato isso como um privilégio muito grande", ele diz.

"O Luiz Gonzaga é um ícone nacional. Celebrá-lo neste momento em que a cultura está sendo sucateada, num país tão fértil culturalmente, é um lembrete das nossas riquezas. Ultimamente, o que vemos é um desrespeito pelo cinema, pela música, pelo teatro, pelas artes em geral. A música, o cinema, o teatro são instrumentos políticos. E a arte é o instrumento político maior. Um país não existe sem cultura", defende.

Com "Baião granfino", ele pretende reafirmar uma identidade nacional "esquecida". "Ele é pensado exatamente para trazer o Brasil para o Brasil. O Brasil que ficou impresso na época em que essas músicas foram escritas. É esse o país que estamos querendo resgatar", pontua.
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(foto: José de Holanda/Divulgação)

BAIÃO GRANFINO
• Jorge Du Peixe
• 11 faixas
• Babel
• Disponível nas plataformas digitais


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