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Estado de Minas TEATRO ON-LINE

Peça 'Tectônicas' discute a violência que faz parte do DNA do Brasil

Texto de Samir Yazbek mostra a relação da crise social com a estrutura de poder que remonta às capitanias hereditárias. Espetáculo está em cartaz no YouTube


16/09/2021 04:00 - atualizado 16/09/2021 08:41

Heitor Goldflus, Mauro Schames e Sandra Corveloni na peça
Heitor Goldflus, Mauro Schames e Sandra Corveloni na peça "Tectônicas", que tem sessões presenciais e on-line até dezembro (foto: João Caldas Jr./divulgação)

"O quadro político-social brasileiro se desencadeou neste contexto difícil que estamos passando, com a eleição de Bolsonaro, mas as primeiras inspirações do texto estão relacionadas à intensificação de comportamentos que estão aí desde a colonização"

Samir Yazbek, dramaturgo


Embora a eleição de Jair Bolsonaro à Presidência da República tenha inspirado uma série de análises que o colocam como centro motor de questões como o aumento da violência cometida contra grupos minoritários e a ampliação do poder do coronelato brasileiro, não foi necessariamente esse o estopim que levou o dramaturgo Samir Yazbek a “ Tectônicas ”, texto que ele começou a escrever em 2018. Três anos depois, a peça está em cartaz em dois formatos: no canal do Sesi São Paulo no YouTube e com sessões presenciais no Teatro Sesi-SP, na capital paulista.

“O quadro político-social brasileiro se desencadeou neste contexto difícil que estamos passando, com a eleição de Bolsonaro, mas as primeiras inspirações do texto estão relacionadas à intensificação de comportamentos que estão aí desde a colonização . Em alguns momentos, mais escondidos; em outros, mais aparentes. Com certeza, eu quis fazer essa verticalização explorando contradições que os indivíduos apresentam nas estruturas sociais ”, explica o dramaturgo.

CICLO 

A peça se passa numa cidade do interior paulista, enfocando o ciclo de poder em torno de Jorge, usineiro que busca manter o mando a qualquer custo, enquanto expande os ganhos de sua empresa. Em paralelo, o empresário nutre a fixação de fazer justiça com as próprias mãos contra Marcelo, jovem negro que acredita ter agredido sua filha, Fabíola, enquanto lida com a presença de familiares já mortos em suas lembranças.

“A camada mítica do texto, que reverbera muito no espetáculo, é outra indagação minha: a violência nas raízes humanas. Uma espécie de tentativa de criar o raciocínio sobre como as três esferas, a violência social, a violência individual e a política, estão interligadas, porque quando sinto que olhamos para apenas uma, vemos apenas uma parte do problema e caímos na ilusão de que essa questão complexa pode ser resolvida facilmente”, explica Yazbek.

O diretor Marcelo Lazzaratto enxerga na montagem uma força potencializada pelo tempo de maturação que a pandemia impôs ao espetáculo.

“Infelizmente, a peça ganhou mais potência. Digo infelizmente porque o Brasil piorou muito. Acredito na obra de arte como uma espécie de diálogo da natureza humana e da sociedade política de um país. Essa peça já seria forte, independentemente da atual governança, do estado da saúde, das crises sociopolíticas, porque ela estabelece uma realidade cotidiana para mergulhar no Brasil mais profundo, que remete às capitanias hereditárias”, analisa o diretor.

Para Lazzaratto, o maior problema talvez esteja nas capitanias, a primeira forma de governança no país. “Apenas uma pessoa domina uma vastidão de terras, o que é absurdo. E esse tipo de tradição vem até hoje. Independentemente da pandemia e da atual governança, sinto que a peça já diria bastante e já teria um lindo diálogo com as estruturas que estamos tentando aos poucos transformar. Mas com o agravamento das coisas no país, ela se mostra com interação absoluta com o que está acontecendo e ganhou uma contemporaneidade violenta”, afirma o encenador.

Na pele do usineiro Jorge, André Garolli diz que o país é propício à discussão dos temas que a peça levanta, ainda que de forma menos óbvia. 

“Inspiração é o que não falta no Brasil de hoje. Quer dizer, nem na história do Brasil. A sensação é de que Jorge traz a herança das capitanias hereditárias lá no pensamento social em relação à família e à política. É o coronel do qual, por incrível que pareça, a gente não conseguiu se livrar ainda no século 21. Gira tudo em torno dessa construção econômica e de privilégios. Portanto, a partir do momento em que me sinto desprivilegiado na Justiça, acabo criando minha própria justiça”, afirma o ator.

ARQUÉTIPO 

André Garolli, que vive o usineiro Jorge, contracena com Patrícia Gasppar
André Garolli, que vive o usineiro Jorge, contracena com Patrícia Gasppar (foto: Karim Kahn/Fiesp)

"Infelizmente, a peça ganhou mais potência. Digo infelizmente porque o Brasil piorou muito"

Marcelo Lazzaratto, diretor


Garolli chama a atenção para a forma como tal comportamento vem se perpetuando. “Em nosso país, temos um presidente que está o tempo inteiro se colocando dessa forma com as instituições, como o STF, por exemplo. É só olhar para a atualidade, e não só no Brasil, para trazer o universo claro que o Samir e o Marcelo quiseram criar em cima de uma linguagem para que não ficasse como novelinha. Meu personagem tem essa representação mítica, no sentido de um arquétipo que simboliza não uma, mas várias formas e personalidades da nossa atualidade”, completa.

Com elenco formado por oito atores – Heitor Goldflus, Luciana Carnieli, Maria Laura Nogueira, Mauro Schames, Patricia Gasppar, Sandra Corveloni e Sidney Santiago Kuanza, além de Garolli –, “Tectônicas” marca o retorno exponencial dos grandes espetáculos aos palcos paulistanos. Hiato, aliás, que ocorre desde antes de a pandemia exigir a adoção de medidas de distanciamento social. (Estadão Conteúdo)

“TECTÔNICAS”

Peça de Samir Yazbek. Direção: Marcelo Lazzaratto. Com André Garolli, Sandra Corveloni, Heitor Goldflus, Luciana Carnieli, Maria Laura Nogueira, Mauro Schames, Patricia Gasppar e Sidney Santiago Kuanza. Gratuito, em cartaz até 5 de dezembro. Sessões presenciais no Teatro do Sesi-SP, na capital paulista, de sexta a domingo. Espetáculo disponível no canal oficial do Sesi São Paulo no YouTube. Informações: http://centroculturalfiesp.com.br/


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