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Estado de Minas LITERATURA

Carolina de Jesus ao lado de grandes nomes da literatura brasileira

Livro ''Casa de alvenaria'' é relançado em edição ampliada e conteúdo inédito. Projeto resgata originais da escritora mineira


16/08/2021 04:00 - atualizado 16/08/2021 06:52

(foto: Arquivo O Cruzeiro/EM. Brasil - 7/4/1971)
(foto: Arquivo O Cruzeiro/EM. Brasil - 7/4/1971)

Carolina Maria de Jesus (1914-1977) vendeu mais de 100 mil cópias de “Quarto de despejo”, best-seller traduzido para 13 idiomas. Além do diário que a lançou, escreveu contos, poesias e romances. Com livros publicados, transitando por diversos gêneros e destaque entre os autores brasileiros que mais venderam em todos os tempos, ainda assim o lugar de Carolina rende discussões: qual a interferência do jornalista Audálio Dantas em sua escrita? Por que os diários se tornaram a face mais conhecida de sua obra, embora ela tenha se dedicado a outros gêneros literários?

Na última quarta-feira (11/08), a Companhia das Letras relançou “Casa de alvenaria”. O resgate desse livro e de toda a obra da autora mineira tem à frente o conselho editorial presidido por Vera Eunice de Jesus, filha dela, e a escritora Conceição Evaristo, além de pesquisadores e pesquisadoras.

''Minha mãe era assim: ela dava um caderno para alguém ler, se a pessoa dizia 'Ah, que lindo', ela respondia: 'Você gostou, leva e depois você me entrega''

Vera Eunice de Jesus, filha de Carolina de Jesus


ORIGINAIS

O conselho parte da premissa “a escrita de Carolina de Jesus poder ser”, ou seja, foi em busca dos originais para preservar a maneira como ela escrevia, seja mantendo a grafia das palavras, seja evitando a edição dos textos, publicados agora na íntegra, sem cortes.

O projeto inclui diversos títulos, de escritos memorialísticos a romances, sem deixar de lado poesia, música, teatro e narrativas. Os textos serão recuperados dos cadernos originais da escritora mineira, que estão em diversos acervos no país.

“Casa de alvenaria” foi lançado em 1961. Em dois volumes, a obra chega agora com o texto integral, em edição ampliada, conteúdo inédito e introdução de Conceição Evaristo e Vera Eunice de Jesus. O volume 1 retrata o período em que Carolina morou em Osasco (SP), em 1960, depois de deixar a favela do Canindé. O segundo aborda o período em que ela viveu no Bairro de Santana, na capital paulista.

Vera e Conceição defendem a obra de Carolina das leituras rasas que a aprisionam no lugar da catadora de papel descoberta por um jornalista, alçada à fama por escrever sobre a fome. Elas demonstram, na edição comentada, que a escritora estava ciente tanto da forma quanto do conteúdo de sua própria escrita.

Não era alguém que apenas relatava a fome material, mas a intelectual que refletia acerca da própria existência, da condição imposta aos moradores de favela, e entendia a escrita como forma de transcender a carestia imposta a ela e aos três filhos que viviam na favela do Canindé na década de 1960.

“Essa foi a premissa: fizemos um pedido à Companhia das Letras. Minha mãe, na realidade, foi escritora de diário, mas não era o que ela queria. O objetivo dela era escrever romances, poemas, contos. O Audálio diz que descobriu minha mãe, mas os pesquisadores rebatem, dizem que foi minha mãe que o descobriu. Minha mãe já era escritora quando o conheceu”, afirma Vera Eunice de Jesus.

Ela destaca que Dantas ficou impactado ao conhecer Carolina, “mulher com aquela potência, altiva, empoderada, que falava bem”. Viu os manuscritos dela e se interessou pelo furo jornalístico. “Mas ele encerrou a carreira da minha mãe ali. Não teve olhar para os romances, tão bonitos, e para os poemas, que são tão atuais. Ele não teve esse olhar”, diz Vera.

''Quando eu e minha família lemos 'Quarto de despejo', éramos personagens do livro... Com Carolina, conhecemos a sobra do lixo. O que nos faltava era a fartura, o exagero, o desperdício do outro''

Conceição Evaristo, escritora


CÂNONE

Testemunha da dedicação da mãe à escrita, ela pretende, por meio do resgate dos originais, colocar Carolina de Jesus ao lado de Clarice Lispector, Guimarães Rosa e outros cânones da literatura brasileira. “Dormi até os 18 anos com minha mãe. Ela escrevia à noite. A gente não tinha luz elétrica, então ela colocava a lamparina em cima de mim. Escrevia em cima do meu corpo. Apoiava o caderno em mim”, conta.

Aos 10 anos, Vera lia os textos da mãe, há intervenções com a letra dela nos manuscritos. Nas conversas com a editora, pediu que fosse mantida grafia de “assucar”, com dois esses, e de “pharmacia”, com “ph”. “Iierarquia” ora aparece sem “h” ora aparece com “h”.

No início, havia a dúvida sobre se as palavras poderiam ser impressas assim, pois uma lei determina que os livros se adequem à norma culta do português. “Fiz uma palestra com a Lélia Gonzalez, que dizia que minha mãe escrevia o 'pretoguês'. Se for analisar o português lá atrás, açúcar era escrito com dois esses e farmácia com ph”, diz Vera.

Apesar da lei federal, houve um acordo para preservar ao máximo a grafia e o estilo de Carolina. “Quarto de despejo” é o compilado de vários cadernos da autora. “Temos alguns cadernos na Biblioteca Nacional, mas estou indo atrás de outros. Minha mãe era assim: ela dava um caderno para alguém ler, se a pessoa dizia 'ah, que lindo', ela respondia: 'Você gostou, leva e depois você me entrega'.”

Agora, Vera Eunice atende ao pedido de Carolina, que deixou uma carta com orientações para que a filha fosse atrás dos manuscritos dela.
(foto: Companhia das Letras/divulgação)
(foto: Companhia das Letras/divulgação)

“CASA DE ALVENARIA:
VOLUME 1 – OSASCO”
• De Carolina Maria de Jesus
• Companhia das Letras
• 232 páginas
• R$ 39,90 e R$ 27,90 (e-book)


“CASA DE ALVENARIA:
VOLUME 2 – SANTANA”
• De Carolina Maria de Jesus
• Companhia das Letras
• 520 páginas
• R$ 59,90 e R$ 39,90 (e-book)


ENTREVISTA/Conceição Evaristo/Escritora, 74 anos


Conceição Evaristo, uma das mais respeitadas escritoras brasileiras, que inspirou jovens mulheres negras a entrar na literatura, leu Carolina Maria de Jesus nos anos 1960, com a mãe e as tias, que trabalhavam como empregadas. "A gente lia Carolina sendo também Carolina", diz, hoje, aos 74 anos. Voltar a essa obra tantos anos e tantas histórias depois, como membro do conselho editorial que está trabalhando nos inéditos da escritora, tinha novos significados.


O que Carolina representa para a literatura brasileira?
Ela representa essa possibilidade de ampliação de uma criação literária brasileira. Carolina chega exigindo espaço para novas formas, inclusive de compreensão do que seria literatura, quebra com a hegemonia literária liderada por autores brancos – homens e mulheres –, e chega se apropriando da língua, do texto literário, desse desejo da literatura a partir das classes populares. Sua escrita também institui novas formas de escrita. Tenho chamado isso de uma gramática do cotidiano. Ela brinca com a língua portuguesa a partir de outra experiência linguística e navega pela língua culta. Sabe que está produzindo literatura e trabalhando com a arte da palavra.

O que sua obra ainda nos diz?
A obra de Carolina é muito atual enquanto uma obra que traz, de uma maneira bem explícita, a partir da vivência, a realidade de grande parte da população brasileira. Ela revela as dificuldades e carências em termos materiais que ainda hoje atinge muita gente, e revela as outras carências da sociedade. A carência de Carolina, o desejo dela pela escrita e pela leitura, é um desejo e um direito do povo.

E o que Carolina Maria de Jesus significa para a senhora?
Tenho uma relação muito especial com Carolina e hoje, mais do que nunca, ela se aprofunda em termos de significados e simbologia. Li Carolina nos anos 1960, em Belo Horizonte. Quando eu e minha família lemos “Quarto de despejo”, éramos personagens do livro. O que Carolina vivia em São Paulo, minha família vivia em Belo Horizonte. Com Carolina, conhecemos a sobra do lixo. O que nos faltava era a fartura, o exagero, o desperdício do outro. A gente lia Carolina sendo também Carolina. Muitos anos depois, hoje, ler e pensar Carolina, estando em outro patamar, ganhando distância para ler e cada vez mais entendê-la, é muito simbólico. É quase como um milagre. Jamais imaginei, quando a li pela primeira vez, que estaria aqui falando dela. Ela tem esse sentido simbólico na minha vida. É olhar para trás e ver o que ficou lá. E na questão da literatura, ela significa, para nós, mulheres negras, que temos o direito da escrita e da literatura. Carolina é exemplar no sentido da coragem, de se meter num espaço que socialmente não era possível para ela, e isso é o que de certa forma, eu faço também quando relembro que minha mãe e minhas tias trabalharam em casa de escritores mineiros. É uma reviravolta no jogo.

Conhecemos mais a Carolina dos diários. E a romancista?
O grande desejo de Carolina foi trabalhar a ficção, a poesia. Mas o primeiro texto dela publicado foi um diário e isso criou uma expectativa no público e na imprensa. Ela ficou cerceada. Mas uma leitura atenciosa de “Quarto de despejo” e de “Casa de alvenaria” mostra a veia ficcional de Carolina.

Publicar esses textos inéditos é uma justiça que se faz a ela?
Sou radical. É uma justiça que chega tardiamente. Era necessário que ela estivesse presente. Essa homenagem, os livros… Seria tão bom se isso tivesse acontecido em vida. Carolina morreu muito decepcionada e o que me chama mais atenção é que ela foi vítima de uma crise asmática. Metaforicamente, isso indica que Carolina morreu engasgada. Ela ainda tinha muito o que dizer, e precisava dizer. (Estadão Conteúdo)


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