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Estado de Minas LITERATURA

Pandemia em BH inspira o romance de estreia de mineira Clarisse Scofield

No livro 'Entre janelas', idoso solitário e sua jovem empregada doméstica dividem momentos do cotidiano marcados por impasses familiares e desencanto


10/05/2021 04:00 - atualizado 10/05/2021 07:38

Clarisse Scofield se divide entre a literatura e as aulas de ciências da computação na UFMG(foto: Acervo pessoal)
Clarisse Scofield se divide entre a literatura e as aulas de ciências da computação na UFMG (foto: Acervo pessoal)


Em “Por entre janelas”, a pandemia é o cenário da trama vivida em Belo Horizonte por personagens de gerações e classes sociais diferentes. O romance marca a estreia da estudante de ciências da computação Clarisse Scofield, de 21 anos, na literatura. A jovem Ana e o idoso Osmar, protagonistas do livro, enfrentam solidão, tédio e problemas financeiros, em meio a desespero e desencanto.

Clarisse Scofield tentou – e não conseguiu – publicar seu livro em várias editoras. Depois de muitos nãos, a mineira aceitou a proposta da Chiado Books, de Portugal, conhecida por valorizar novos talentos.

REFÚGIO Estudante da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Clarisse sempre gostou de literatura e ciências exatas. Revela que uma foi o refúgio da outra enquanto procurava conciliar estágio, faculdade e a escrita de seu livro.
 
“Costumo brincar com os meninos da minha sala: meu coração é tanta poesia, ainda bem que coloquei as ciências exatas na minha cabeça. Sinto que as duas áreas se equilibram de alguma forma”, diz. “A criatividade necessária para solucionar um problema de programação é a mesma que a gente usa para escrever uma história”, garante.
 
Em “Por entre janelas”, a pandemia é o ponto em comum entre duas famílias radicalmente diferentes. Garota humilde, Ana terminou a escola, precisa trabalhar para ajudar os pais e consegue emprego na casa de Osmar. Aquele homem idoso vive solitariamente em sua enorme mansão, na área nobre de Belo Horizonte. Filhas e neta estão distantes, restando a Osmar o silêncio e as memórias do passado.
 
O ano é 2020, a quarentena surpreende ricos e pobres, obrigando todos a dividir angústias entre quatro paredes. A trama gira em torno do velho senhor e sua jovem empregada, mas não só deles.

“É uma história que se passa na pandemia, mas esse não é o foco. O tempo inteiro, há o contraponto entre as duas famílias. Em certo momento, ambas começam a se questionar sobre o sentido da vida, da família e da amizade”, adianta a autora.
 
A falta de comunicação e o distanciamento entre familiares, problemas acentuados pelo drama da COVID-19 nos últimos 14 meses, também marcam a trama de “Por entre janelas”. De um lado, jovens se questionam sobre o sentido de existir; de outro, adultos enfrentam desafios de uma existência que pode ter sido em vão.
 
O encontro de duas gerações – representadas pelo patrão e a jovem empregada – se dá nas sutilezas do cotidiano. “Demorou para a menina entender o que ele apontava. Foi quando ela viu. Finalmente ela viu. Ela viu o que ele tanto apontava. E ficou olhando detalhe por detalhe daquele episódio que era, de fato, muito curioso. Ela sorriu. Passou alguns minutos observando, assim como Osmar, que passava os dias ali sem se cansar. Então, ela quebrou o silêncio dizendo: “São muitas vidas, seu Osmar”. “Por entre janelas, Ana. Muitas vidas por entre janelas”, escreve Clarisse Scofield.

A autora acredita que o público vai se identificar com os personagens e seus dramas. A proposta dela ao leitor é de que o romance sirva à reflexão, não seja lido apenas como passatempo. “Quero que as pessoas se enxerguem não apenas na situação da pandemia ou dos conflitos familiares, mas também nas ações de cada um dos personagens”, afirma
 
(foto: Chiado/Reprodução)
(foto: Chiado/Reprodução)
 
 
“POR ENTRE JANELAS”

De Clarisse Scofield
Romance
Editora Chiado
R$ 36
no Instagram (@clarissescofield).
 
 
“Contando com o pai e a mãe, eram sete. Duas meninas e três meninos: Maria e Ana, EJorge, Felipe e Antônio. A casa era pequena: Os meninos apertados em um quarto as meninas no outro. Guarda-roupa não tinha, cada um guardava seus “trecos” em um saco de pano que a tia tinha costurado de presente.”

***

“No fim, Osmar se perguntava que tipo de família ele e a mulher tinham criado. Encarou Giovana por alguns instantes, ela nem ao menos reparou, e Osmar só conseguia ver, por trás do elegante vestido, a vida estéril que levava a jovem.”

***

“– Bem, como já deve saber, eu não precisava d'ocê aqui, mas como minha filha é muito insistente, acho que não tive muita opção. Perdoe-me se a ofendo, não é nada com a senhorita, não. É só que estou bem sozinho, e tem a Célia que trabalha aqui também, que cê ainda não conheceu.
A menina viu aqueles olhos fundos e negros de novo naquele senhor que a havia assustado outro dia, de voz grossa e pele vivida.
– Senhor, desculpa, mas pelo que entendi é bom que tenha companhia (...)” 


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