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Estado de Minas DESASTRE CLIMÁTICO

Em seu novo livro, Bill Gates propõe plano para evitar tragédia ambiental

Empresário afirma que é possível reduzir a zero a emissão de gases que causam aquecimento global. E adverte: 'Esse número, zero, não é negociável'


05/05/2021 04:00 - atualizado 05/05/2021 07:56

Bill Gates, empresário(foto: Jeff Pachoud/AFP )
Bill Gates, empresário (foto: Jeff Pachoud/AFP )

Cientistas advertiram que a pandemia de grandes proporções era inevitável, mas nenhum país tomou as providências necessárias. O empresário e filantropo norte-americano Bill Gates avisa: em relação às mudanças climáticas, estamos hoje no mesmo ponto em que estávamos com as pandemias, anos atrás. Não deveríamos cometer tal erro, pois ele será fatal para o destino do planeta.

Um dos mais importantes ativistas da luta contra o aquecimento global, Gates acaba de lançar o livro “Como evitar um desastre climático – As soluções que temos e as inovações necessárias”, que chega ao Brasil pela Companhia das Letras.

''Esse número, zero, não é negociável. Se não pararmos de lançar gases de efeito estufa à atmosfera, a temperatura continuará a subir''

Bill Gates, empresário



FUNDAÇÃO

Tudo começou no início dos anos 2000, quando o empresário e a mulher, Melinda, ensaiavam os primeiros movimentos para criar uma fundação filantrópica com o objetivo de ajudar populações pobres de vários pontos do mundo. Na segunda-feira passada, o casal anunciou que vai se divorciar, mas afirmou, por meio de nota, que não haverá mudanças na Fundação Bill e Melinda Gates, criada há 21 anos. Em 2019, os ativos líquidos da instituição somavam US$ 43 bilhões.

Em 2000, os dois viajaram até regiões de baixa renda na África subsaariana e no Sul da Ásia na expectativa de aprender mais sobre mortalidade infantil e HIV, entre outros problemas sociais. Ao sobrevoar as grandes cidades, Gates indagava, ao olhar pela janela: “Por que é tão escuro ali? Onde estão as luzes que eu veria se estivesse em Nova York, Paris ou Pequim?”. O empresário ficou sabendo que cerca de 1 bilhão de pessoas não contavam com acesso confiável à eletricidade e metade delas vivia na África subsaariana. Na Índia, encontrou o mesmo panorama.

“A única solução que eu podia imaginar era tornar a energia limpa tão barata que o país todo a preferisse aos combustíveis fósseis”, afirma, preocupado com os desdobramentos do efeito estufa.

Bill Gates usa a experiência cotidiana do aquecimento de carros expostos ao sol para ilustrar o que ocorre na atmosfera. O para-brisa permite a entrada da luz solar e depois retém parte dessa energia. “O interior do veículo fica muito mais quente do que a temperatura externa”, observa.

Em escala ampliada, os gases do efeito estufa retêm calor, elevando a temperatura média da superfície terrestre. Quanto maior a quantidade de gases, mais a temperatura sobe.

O pior, adverte Gates, é que, uma vez na atmosfera, os gases de efeito estufa permanecem ali por muito tempo. Cientistas estimam que cerca de um quinto de dióxido de carbono emitido atualmente continuará no ar daqui a 
10 mil anos.

O dióxido de carbono não é o único gás que provoca o efeito estufa, mas é o mais comum deles. Há também o óxido nitroso e o metano, por exemplo. No entanto, o dióxido de carbono tem um agravante: permanece por mais tempo na atmosfera.

Quase todas as atividades humanas alimentam o efeito estufa: ligar o ar-condicionado, deslocar-se de carro, viajar de avião, fabricar objetos de plástico, transportar alimentos de caminhão, ligar a geladeira, usar cimento para construir casas, usar aquecedor, desmatar para cultivar gado.

Portanto, para conter o aquecimento global será necessário mudar, em período relativamente curto, hábitos de consumo, fontes de energia, políticas públicas e modelos de negócios.

Gates faz as contas: 27% dos 51 bilhões de toneladas de gases provenientes do efeito estufa são provocados pela maneira como ligamos aparelhos; 31% decorrem de como fabricamos as coisas; 19% são consequência de como cultivamos; 16% vêm de como transportamos as coisas; e 7% se devem à forma como esfriamos e aquecemos as coisas.

prazo O desafio, ressalta o autor de “Como evitar um desastre climático”, é reduzir de 51 bilhões de toneladas de gases de efeito estufa que o mundo lança na atmosfera para zero.  O prazo para alcançar a meta ambiciosa termina em 2050. Como os gases permanecem na atmosfera, o planeta continuará quente por vários anos, mesmo depois de zerarmos as emissões.

Se não conseguirmos reduzir o aquecimento global, as consequências serão o que vemos na ficção científica distópica, além de problemas com os quais já convivemos. Entre eles, furacões, redução das safras de milho e de trigo na Europa, diminuição de 20% das áreas cultiváveis na África, secas extremas na China (fornecedora de cerca de um quinto dos cereais para o planeta), crise alimentar (com encarecimento dos itens essenciais), aumento das queimadas, derretimento da calota polar e enchentes sem aviso.

Bill Gates adverte: já elevamos a temperatura do planeta em pelo menos 1 grau centígrado, desde o período pré-industrial. Se não reduzirmos as emissões, provavelmente teremos aquecimento de 1,5 a 3 graus centígrados até meados deste século, e de 4 a 8 graus centígrados até o fim dele.

Os efeitos do aquecimento global foram tratados exaustivamente por David Wallace-Wells na obra “Terra inabitável”. Porém, o mérito do livro de Bill Gates está em avançar em direção não apenas de constatar e prever, mas, principalmente, formular um plano para evitar o desastre climático.

Não se trata de utopia ambientalista, mas do plano realista de um dos homens mais ricos do mundo, com cabeça de engenheiro, empresário e filantropo. “A chave para lidarmos com as mudanças climáticas é tornar a energia limpa tão barata e confiável quanto a obtida por combustíveis fósseis”, comenta Gates no livro.

Será difícil? Sem dúvida, responde o empresário. Trata-se da mudança mais ambiciosa da história da humanidade. Ao mesmo tempo, a crise representa uma promissora oportunidade de negócios. “Países que construírem empresas e indústrias de carbono zero eficientes liderarão a economia global nas décadas seguintes”, prevê o fundador da Microsoft.

Cientistas alertam: 20% do dióxido de carbono lançado atualmente na atmosfera continuarão no ar daqui a 10 mil anos(foto: Darek Redos/AFP)
Cientistas alertam: 20% do dióxido de carbono lançado atualmente na atmosfera continuarão no ar daqui a 10 mil anos (foto: Darek Redos/AFP)

ÁRVORES

“Mais hambúrgeres em um lugar correspondem a menos árvores em outro”, escreve Bill Gates em “Como evitar um desastre climático”, estabelecendo relação direta entre a criação de animais para alimentação com a agricultura e o desmatamento.

As derrubadas não ocorrem pelas mesmas razões em todas as regiões. Nesse sentido, o Brasil ocupa lugar de destaque. Nas últimas décadas, a causa mais determinante para a destruição da floresta amazônica têm sido as pastagens para o gado. Desde 1990, as florestas brasileiras se reduziram em 10%.

“Como o alimento é uma mercadoria global, o que é consumido em um país pode levar a mudanças no uso da terra em outro”, explica Bill Gates. “Conforme o mundo ingere mais carne, o desmatamento na América Latina se acelera.”

Como interromper o processo de aceleração das mudanças climáticas? A estratégia mais eficiente é parar de cortar tantas árvores. O desafio será produzir 70% mais alimento para prover as necessidades do planeta e, simultaneamente, reduzir emissões e lutar para que elas sejam eliminadas inteiramente.

“Isso exigirá inúmeras mudanças, incluindo novos métodos de fertilizar plantações e criar animais, menos desperdício de alimentos e a mudança de hábitos das populações dos países ricos – diminuir o consumo de carne, por exemplo”, diz Gates.


Devastação da floresta amazônica por queimadas para a criação de gado agrava a crise do aquecimento global (foto: Carl de Souza/AFP )
Devastação da floresta amazônica por queimadas para a criação de gado agrava a crise do aquecimento global (foto: Carl de Souza/AFP )

TRECHOS


“Uma das coisas que ficaram claras para mim foi que nossas atuais fontes de energia renovável – eólica e solar, na maior parte – poderiam causar um grande impacto na resolução do problema, mas não estávamos fazendo o suficiente para empregá-las. Também ficou claro por que, sozinhas, elas não são suficientes para que cheguemos a zero. O vento nem sempre sopra e o sol nem sempre brilha, e não dispomos de baterias de baixo custo capazes de armazenar quantidades de energia para abastecer uma cidade inteira pelo tempo necessário. Além do mais, a produção de eletricidade representa apenas 27% das emissões totais de gases de efeito estufa. Mesmo que houvesse uma revolução nas baterias, ainda precisaríamos dar um jeito nos outros 73%.”

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“Depois de alguns anos, eu me convenci de três coisas:
1. Para evitar um desastre climático, devemos chegar a zero.
2. Temos de empregar as ferramentas de que já dispomos, como energia solar e eólica, com mais rapidez e
inteligência.
3. Precisamos criar e produzir tecnologias revolucionárias capazes de nos conduzir pelo resto da jornada.
Esse número, zero, não é negociável. Se não pararmos de lançar gases de efeito estufa à atmosfera, a temperatura continuará a subir. Eis uma analogia bastante útil: o clima é como uma banheira sendo enchida lentamente. Mesmo se fecharmos um pouco a torneira e deixarmos apenas um fio de água escorrendo, em algum momento a banheira acabará transbordando. Esse é o tipo de desastre do qual temos de nos prevenir.”

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“Tenho consciência de que não sou o mensageiro ideal para o combate às mudanças climáticas. O que não falta no mundo hoje é gente rica com ideias grandiosas sobre o que os outros deveriam fazer ou que acreditam que a tecnologia pode consertar qualquer problema. Sou proprietário de casas enormes e viajo em jatinhos particulares – inclusive, tomei um para a conferência do clima –, portanto quem sou eu para puxar a orelha de quem quer que seja em relação ao ambiente?
Confesso-me culpado das três acusações. Não posso negar que sou mais um ricaço cheio de opiniões. Mas acredito que minhas opiniões são bem embasadas e sempre tento aprender mais.”

(foto: Companhia das Letras/reprodução)
(foto: Companhia das Letras/reprodução)

COMO EVITAR UM DESASTRE CLIMÁTICO
As soluções que temos e as inovações necessárias
• De Bill Gates
• Companhia das Letras
• 304 páginas
• Preço recomendado: R$ 59,90
• E-book: R$ 29,90


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