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Estado de Minas MÚSICA

Saiba quais são as cantoras brasileiras mais ouvidas no Spotify

Ranking oferece um retrato do redesenho do pop brasileiro e redimensiona a ideia de sucesso na indústria fonográfica


25/07/2021 04:00 - atualizado 25/07/2021 08:29

Anitta é a líder absoluta do ranking, com 17 milhões de reproduções por mês na plataforma Anitta é a líder absoluta do ranking, com 17 milhões de reproduções por mês na plataforma (foto: Divulgação )
Anitta é a líder absoluta do ranking, com 17 milhões de reproduções por mês na plataforma Anitta é a líder absoluta do ranking, com 17 milhões de reproduções por mês na plataforma (foto: Divulgação )

O Brasil é o país das cantoras – esse é um jargão há muito disseminado e normalmente aceito sem ressalvas. Essa constatação vem do sucesso, em território nacional, de grandes damas da MPB, como Maria Bethânia, Elis Regina e Gal Costa, e do ininterrupto surgimento de novas vozes femininas. 

De uns anos para cá, contudo, essa assertiva ganhou outra dimensão, com a consolidação de um sucesso estrondoso por parte de divas do pop que alcançam uma audiência sem precedentes, não raro ultrapassando as fronteiras do país. 

O top 5 das cantoras mais ouvidas do Spotify não deixa dúvidas sobre quem, em termos de mercado, dá as cartas na música brasileira atualmente. O ranking mais recente aponta Anitta em primeiro lugar, com 17 milhões de reproduções por mês; em segundo lugar aparece Marília Mendonça, com 6,9 milhões; em terceiro, Luísa Sonza, com 6,2 milhões; em quarto, Ludmilla, com 5,3 milhões; e em quinto, a dupla Maiara e Maraisa, com pouco mais de 5 milhões. 

Desde o início de 2020, essas cinco cantoras se alternam nas primeiras posições desse ranking (em março do ano passado, era Marília Mendonça quem ocupava o topo), no qual, volta e meia, também aparecem Giulia Be, AnaVitória e Ivete Sangalo. Somente nos dois primeiros meses de 2020, Marília Mendonça, Anitta e Ludmilla foram responsáveis por 500 milhões de streamings no Spotify.

A questão que fica é: essas artistas inauguraram um modelo de cantora pop no Brasil? Ou elas descendem de uma linhagem? E, nesse caso, que linhagem é essa? Para responder a essa pergunta, talvez seja preciso, antes, entender o que é a música pop no Brasil. 

O jornalista e pesquisador de comunicação e música pop Felipe Simões, autor do livro "Aspectos gerais da cultura pop", defendeu que "no Brasil, esse conceito de música pop historicamente designa um estilo musical mais híbrido, complexo e fluido se comparado aos padrões difundidos pela indústria norte-americana e europeia", em entrevista para a revista "Rolling Stone", no ano passado. 

Para Simões, no Brasil a música pop tangencia um sincretismo maior de estilos, como o rock, a bossa nova, a MPB, o axé, o funk e o sertanejo. Dessa maneira, Ivete Sangalo, Claudia Leitte, Anitta, Manu Gavassi, Ludmilla, Giulia Be, Luísa Sonza e Iza se encaixam nesse estilo, cada uma com as suas particularidades, ao flertar com sonoridades específicas – sertanejo, funk, rap, axé e outras. O pop brasileiro atual se enquadra na estética internacional, mas sem perder certo aspecto regional, seja o funk (carioca), o sertanejo (interior do país) ou mesmo o axé e o forró (nordestinos), na avaliação do pesquisador.

A sertaneja Marília Mendonça, que já esteve no primeiro posto, atualmente ocupa o segundo(foto: Randes Filho/Divulgação )
A sertaneja Marília Mendonça, que já esteve no primeiro posto, atualmente ocupa o segundo (foto: Randes Filho/Divulgação )


MAINSTREAM 
Voltando ao lugar que as campeãs de audiência ocupam hoje _ e num panorama histórico da música brasileira _, o jornalista e produtor musical Marcus Preto, que desde 2013 dirige shows e álbuns de Gal Costa, considera que elas não inauguraram nada e, pelo contrário, são devedoras de uma ramificada tradição de cantoras brasileiras. “A cantora do mainstream sempre houve. Um exemplo pouco lembrado é a Rosana, que, embora branca, era uma cantora de black music, que deu voz a muitas composições de Sullivan e Massadas e outras coisas dessa escola. Era uma cantora de vozeirão, ultrapopular e, ao mesmo tempo, com uma técnica impecável, com voz bonita e potente. Ela, com certeza, é uma referência – ainda que não direta – para as divas pop atuais”, diz.

O período de apogeu e glória de Rosana passou, e Preto destaca que música pop também tem muito a ver com efemeridade. “Nem todo mundo é Beatles ou Rita Lee ou Roberto e Erasmo”, aponta. Ele avalia que Anitta só é diferente porque está em 2021, quando o mais comum é o artista cuidar da própria carreira. 

“Antes eram as gravadoras que cuidavam, elas definiam o caminho e inclusive a hora de descartar os artistas que já tinham passado por um período de grande sucesso popular. Gravadoras são empresas e como tal se dão o direito de afastar um funcionário que já não interessa mais e contratar outro. No caso da Anitta não, ela é dona de si, resolve se vai seguir o seu caminho, se vai parar, se vai mudar de rumo e fazer bossa nova”, afirma. “O fato de a Rosana ter passado não quer dizer que não seja, de certa forma, mãe dessas meninas.”

A jornalista carioca Chris Fuscaldo, que defendeu no doutorado em literatura, cultura e contemporaneidade, do Departamento de Letras da UFRJ, uma tese sobre cantoras veteranas, também considera que, para se chegar às cinco primeiras colocadas no atual ranking do Spotify, é preciso percorrer um longo e tortuoso caminho, que foi pavimentado por mulheres pioneiras em diferentes gêneros musicais. 

“Minha tese é um trabalho sobre as cantoras e compositoras - que eu chamo de ‘cantautoras’. Escolhi sete mulheres para contar essa história, uma escolha que se deu porque elas estão na origem de vários gêneros. O que defendo é que as mulheres tiveram enormes dificuldades para se impor no cenário musical brasileiro”, afirma.

A jornalista observa que “a primeira, Chiquinha Gonzaga, que era maestrina, já cortou um dobrado, teve que abrir mão de família, de filhos. Foi uma história longa para se impor como compositora. De Chiquinha para frente, durante muito tempo, só aparecem umas poucas mulheres, que deixaram poucos registros. Só na década de 50 aparecem Dolores Duran e Maysa, que, além de compositoras, também eram cantoras, e começam a se colocar de modo mais afirmativo”, diz.

Luisa Sonza, que acaba de lançar seu segundo álbum,
Luisa Sonza, que acaba de lançar seu segundo álbum, "Doce 22", está em terceiro lugar (foto: @felipegrafias/Divulgação )


GÊNEROS 
As sete cantoras que Chris Fuscaldo abordou em sua tese são Anastácia, Martinha, Joyce Moreno, Lecy Brandão, Sandra de Sá, Roberta Miranda e Margareth Menezes – cada uma desbravadora em um gênero distinto (o forró, o rock, a bossa, o samba, a black music, o sertanejo e o axé) e todas merecedoras de crédito por parte das atuais divas pop. 

“Essas sete mulheres abriram caminho para as que estão aí hoje, que são fruto desses estilos musicais diversos que surgiram no Brasil dos anos 60 para cá. As coisas vão se modificando, hoje você vê misturas de sertanejo com axé com funk e outras coisas, mas, no geral, o que a gente vê no Brasil é esse caminho traçado por essas mulheres”, afirma. 

Ela ressalva que não cabe uma comparação direta, porque os tempos são outros. “O pop, como o conhecemos hoje, vem dos anos 90. É anacrônico tentar encaixar as mulheres de antes nesse entendimento de pop atual, que começa praticamente com Sandy & Júnior”, aponta.

Marcus Preto vê, além de Rosana, diversos outros nomes na árvore genealógica das atuais divas pop. Ele cita, por exemplo, Sandra de Sá, de quem acredita que Ludmilla é grande devedora. “A Sandra de Sá era uma cantora popular que tocava no rádio o dia inteiro, e segue até hoje, claro que com um foco diferente”, cita. “Quando a gente fala de árvore genealógica, não quer dizer que essas meninas de hoje tenham ouvido essas cantoras de antes, porque árvore genealógica é assim mesmo, você não tem muita ideia de quem foi seu bisavô, do que ele fez, mas ele está na sua árvore genealógica.”

Pode até ser que, conforme ele destaca, o que Rosana ou Sandra de Sá criaram lá atrás tenha sido “desinventado” para que, agora, as divas pop pudessem reinventar, mas a linhagem existe. “A Anitta é neta da Rosana. A raiz musical dela é de música preta, o funk, assim como a da Rosana também era, da soul music, da disco music. Entre Anitta e Rosana não tem diferença de tamanho. A Rosana fez de ‘Como uma deusa’ um sucesso estrondoso, que tocou no Brasil inteiro”, ressalta. 

E ele acrescenta outras mulheres que pontuam a linha evolutiva musical que chega no atual panteão das cantoras pop. “Quando a Anitta soltou, recentemente, a ‘Girl From Rio’, tenho certeza de ela ouviu e entendeu as carreiras da Marina Lima e depois da Fernanda Abreu, que tratam desse ambiente solar, da praia, que era um lugar temático que estava vago. Mesmo em termos de arranjo há similaridades. A Marina Lima gravou ‘Garota de Ipanema’ e foi das músicas mais tocadas em 1991. Depois vem a Fernanda, que já vai colocando em suas produções elementos eletrônicos, samples, e isso tudo deságua na Anitta”, destaca.

SOFRER COMO UMA GAROTA (FEMINISTA)

A jornalista e pesquisadora de música Chris Fuscaldo se diz avessa a rótulos, mas considera que,  se for necessário colocar Anitta, Ludmilla, Luísa Sonza, Marília Mendonça e a dupla Maiara e Maraisa numa prateleira, todas estariam na da música pop, ainda que as duas primeiras tenham emergido do funk e as duas últimas do sertanejo, com Luísa Sonza um pouco deslocada em outro ambiente musical, talvez mais próximo do modelo pop norte-americano e europeu. 

Já o jornalista e produtor Marcus Preto vê Marília Mendonça e Maiara e Maraisa vinculadas a uma outra linhagem da música brasileira, que, no entanto, compõe o amálgama da atual música pop brasileira.

“Acho que as mulheres do sertanejo têm mais a ver com a Alcione ou com a Fafá de Belém, que foram e ainda são figuras muito populares. As duas, provavelmente, são as mães do que hoje a gente chama de ‘sofrência’. Acho que essas meninas, Marília Mendonça, Maiara e Maraisa, vêm um pouco dessa escola, elas conhecem esse repertório. E nisso aí tem uma mistura, porque elas vêm também dos sertanejos homens, as duplas sobretudo, Chitãozinho e Chororó, Leandro e Leonardo, o pessoal do sertanejo universitário”, opina.

SOFRÊNCIA
Ele também identifica um feminismo subjacente à sofrência que aproxima Alcione e Fafá de Belém das cantoras sertanejas que hoje ocupam o pódio das mais ouvidas. “A Alcione sofre porque ela resolveu sofrer, ela nunca está por baixo, não é porque ela foi abandonada ou coisa do tipo. Marília Mendonça, Maiara e Maraisa e outras desse filão misturaram a estética das duplas sertanejas masculinas com um discurso que já era feminista na Alcione, na Fafá. A mulher, mesmo quando estava sofrendo, era por uma decisão dela. Não é um sofrimento anterior, que existiu muito no samba-canção, onde a pessoa estava sofrendo porque se achava um lixo. A Alcione não, e essas meninas sertanejas têm esse discurso muito parecido”, aponta.

Uma observação feita pelo pesquisador Felipe Simões em entrevista à “Rolling Stone” contribui para ampliar ainda mais o entendimento sobre a linhagem de cantoras que desemboca no atual cenário. Ele ressalta que, a partir da década de 1980, a performance e a estética da espetacularização firmaram-se como linguagem principal da música pop e rock, o que, a seu ver, tem relação direta com o surgimento e a expansão da MTV. 
“O espetáculo é uma estética que dialoga mais facilmente com públicos diversificados, de diferentes localidades, culturas e backgrounds. A imagem tornou-se tão importante quanto a música”, diz o jornalista. 

A partir dessa premissa, é impossível não alocar Gretchen em algum ponto da árvore genealógica das atuais divas pop. E, se quisermos recuar ainda mais – muito mais –, a estética da espetacularização que é o cerne da música pop já estava em Carmem Miranda.

Desconstruindo Anitta

Líder absoluta no ranking das mais ouvidas do Spotify, Anitta condensa em si diversas referências – nacionais e internacionais – que se podem pinçar em suas falas e nas entrevistas que já concedeu desde que despontou para fama. Confira:

•Anitta já declarou, em diversas ocasiões, que uma de suas principais referências é Mariah Carey, com quem, conforme diz, “aprendeu a cantar”, mas ela também soma em seu rol os nomes de Rihanna, Ivete Sangalo e Beyoncé.

•Em 2013, durante o programa “Altas Horas”, de Serginho Groisman, Anitta declarou sua admiração por Sandy, que também participava da atração e com quem cantou "As Quatro Estações" e "Desperdiçou".

•Durante a produção de seu segundo álbum, “Bang”, Anitta citou Katy Perry como influência para as novas faixas.

•Também há espaço para nomes de uma MPB mais castiça no quadro de referências de Anitta: ela já citou Marisa Monte, Gal Costa e Caetano Veloso, “por sempre estarem se  renovando e se arriscando em outros estilos”.

•Madonna, Britney Spears, Adele, Kate Nash e Colbie Caillat são outros nomes que, volta e meia, são apontados por Anitta como referências.

•Na lista dos 10 discos preferidos de Anitta, publicada em uma edição de 2017 do jornal “O Dia”, aparecem três brasileiros: “Djavan: Ao vivo”, 
de 1999, “Reggae Power (ao vivo)”, do Natiruts, de 2006, e “Tribalistas”, de Marisa Monte, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes, de 2002. 

•Anitta já declarou, em diversas ocasiões, que uma de suas principais referências é Mariah Carey, com quem, conforme diz, “aprendeu a cantar”, mas ela também soma em seu rol os nomes de Rihanna, Ivete Sangalo e Beyoncé.

•Em 2013, durante o programa “Altas Horas”, de Serginho Groisman, Anitta declarou sua admiração por Sandy, que também participava da atração e com quem cantou "As Quatro Estações" e "Desperdiçou".

•Durante a produção de seu segundo álbum, “Bang”, Anitta citou Katy Perry como influência para as novas faixas.

•Também há espaço para nomes de uma MPB mais castiça no quadro de referências de Anitta: ela já citou Marisa Monte, Gal Costa e Caetano Veloso, “por sempre estarem se  renovando e se arriscando em outros estilos”.

•Madonna, Britney Spears, Adele, Kate Nash e Colbie Caillat são outros nomes que, volta e meia, são apontados por Anitta como referências.

•Na lista dos 10 discos preferidos de Anitta, publicada em uma edição de 2017 do jornal “O Dia”, aparecem três brasileiros: “Djavan: Ao vivo”, de 1999, “Reggae Power (ao vivo)”, do Natiruts, de 2006, e “Tribalistas”, de Marisa Monte, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes, de 2002. 






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