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Estado de Minas CINEMA

Pastel de angu inspira curta e tempera debate sobre racismo

Produção de Stanley Albano faz o link entre a escravidão e a precariedade do trabalho das domésticas, dando voz à narrativa negra


11/07/2021 04:00 - atualizado 11/07/2021 09:38

Narrativa reforça necessidade de empoderamento aos povos negros: Rosilene Oliveira, mãe do diretor Stanley Albano, é uma das atrizes(foto: Raul Lansky/Divulgação)
Narrativa reforça necessidade de empoderamento aos povos negros: Rosilene Oliveira, mãe do diretor Stanley Albano, é uma das atrizes (foto: Raul Lansky/Divulgação)

Mais do que as narrativas dos povos negros, propor um fio condutor do debate sobre o racismo estrutural na sociedade brasileira. Com o curta “Angu recheado de senzala”, o diretor e produtor Stanley Albano foi buscar um tempero para esse olhar crítico ao destacar a contribuição de pessoas escravizadas na origem do pastel de angu.

A proposta do filme, viabilizado pela Lei Aldir Blanc e disponível no YouTube, está diretamente vinculada à carreira de Albano, de 27 anos, natural de João Monlevade, Região Central de Minas. Entre cargos em telemarketing, açougues e carpintaria, aos 15 anos, ele começou a trabalhar como garçom. Ali viu ser despertado o gosto pela cozinha. Em 2019, abriu seu próprio bar, o MandakNega, em Belo Horizonte, onde foi praticando suas experiências culinárias.

Em decorrência da pandemia de COVID-19, Stanley passou a atuar exclusivamente por delivery e a produzir vídeos para divulgar o negócio nas redes sociais. A experiência audiovisual serviu para retomar a queda pelo cinema e a atuação – esquecida nas aulas de teatro na infância. Em 2020, ele lançou seu primeiro curta-metragem “Morde & assopra”, sobre algumas experiências profissionais. O filme foi exibido no ForumDoc, Mix Brasil, Mostra 10 Olhares, entre outros festivais.

“Angu recheado de senzala” é sua segunda produção. A proposta surgiu depois de receber a demanda para vender pastéis de angu em um evento. Na pesquisa sobre a receita, ele descobriu a origem vinculada à escravidão.

“A pandemia fez gritar a questão da desigualdade. Então, comecei a juntar um pouco da política, do social, com a comida. Deu certo para mim. É uma coisa que eu já venho estudando, pesquisando, e está funcionando. Só demorou demais para casar isso (comida e cinema), mas rolou”, descreve Albano, que assina a produção, roteiro e direção do curta, além de também atuar.

O filme começa expondo o hábito das mucamas, de esconderem os restos de comida dos senhores dentro do angu para alimentar os escravos. Aos poucos, elas passaram a fritar o ingrediente recheado com carne e a receita conquistou a mesa da Casa Grande. De forma delicada, a obra vincula o prato, patrimônio cultural de Minas Gerais, ao racismo estrutural presente na sociedade brasileira.

Stanley afirma que a proposta é uma maneira de propagar as narrativas do povo negro, que ainda tem pouco espaço no cinema nacional. “É uma forma de empoderar pessoas negras. Busco passar essa linguagem não só para as pessoas negras, como para os patrões. Tenho certeza que ainda há muitas pessoas que, às vezes, tratam seus funcionários de forma desrespeitosa”, aponta.

Em “Angu recheado de senzala”, ele conecta a escravidão à realidade das domésticas. “As pessoas ainda sofrem muitos abusos trabalhistas na relação diferenciada com os patrões, que parece ser levada como natural. Às vezes, elas não tem muita ciência disso. Até hoje tem gente que dorme na casa do patrão, não tem o hábito de poder comer no mesmo lugar ou a mesma comida. Em pleno século XXI, a gente ainda mantém vários vínculos escravocratas, por mais que se faça de liso”, destaca.


SÓ EMPREGADAS 
Na atuação, o diretor decidiu trabalhar somente com pessoas de seu convívio, sem formação em cinema, que já foram empregadas domésticas. É o caso da sua mãe, Rosilene de Oliveira, e de Tânia Maria de Oliveira, coadjuvantes. A narrativa mescla presente e passado. A transição é a cena do escravo, interpretado por Stanley, fugindo da fazenda com a ajuda das companheiras. “A fuga, para mim, é o momento ápice. É a hora que a gente tem coragem de tentar fazer alguma coisa diferente, sair do normal, que é simplesmente o negro ser só o empregado doméstico, o pedreiro. É fugir para se libertar e fazer o que quer”, comenta.

A narrativa segue no Restaurante de MandakNega com os mesmos atores contando suas histórias profissionais e gastronômicas, enquanto comem pastel de angu. “Em 1851, uma escrava esconde dentro de um bolinho de fubá um pedaço de carne que sobrou da refeição do prato do seu patrão. Em 1920, uma filha de escravo alimenta seus filhos com pastel de angu. Em 1987, uma mulher branca abre um restaurante na Zona Sul e fica milionária vendendo pastel de angu. Em 2020, um homem negro serve pastéis de angu feitos por sua mãe”, destaca a narração do curta, vinculado também à história de Stanley Albano.

*Estagiário sob a supervisão do subeditor Eduardo Murta


“ANGU RECHEADO DE SENZALA”
 (20 min)
.Roteiro e Direção: Stanley Albano
.Disponível no Canal da MandakNega no Youtube: https://www.youtube.com/channel/ UCNKMCl9SmFJqgjOm51054XA
.Exibição gratuita
.Classificação: livre



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