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Estado de Minas

Júlia Tizumba escreve a biografia artística do pai, Maurício Tizumba

Livro é resultado da dissertação de mestrado da cantora, que convoca a uma reflexão sobre a visibilidade dos saberes de matriz africana na academia


07/06/2021 04:00 - atualizado 07/06/2021 06:50

Júlia Tizumba fará amanhã live de lançamento de seu livro
Júlia Tizumba fará amanhã live de lançamento de seu livro "Maurício Tizumba: caras e caretas de um teatro negro performativo" (foto: Luiza Villarroel/Divulgação)

Atriz, cantora, instrumentista e jornalista, Júlia Tizumba não tinha a biografia do pai como objetivo inicial no processo de pesquisa que deu origem ao livro “Maurício Tizumba: caras e caretas de um Teatro Negro performativo” (Editora Javali). Ela diz que a decisão de ingressar no trabalho acadêmico foi “um ato político” e “uma escolha consciente de ocupar o espaço da universidade que ainda é muito elitizado, sobretudo na pós-graduação”.

Júlia explica que o intuito de sua pesquisa de mestrado em Artes Cênicas pela Escola de Belas-Artes da UFMG era  “trazer as nossas histórias, as histórias do povo negro para dentro da universidade” e “aumentar esse olhar sobre a nossa história, os nossos saberes e os nossos conhecimentos, que muitas vezes são negligenciados pela academia".

Contudo, a proximidade e a admiração pelo pai instrumentista, cantor, compositor e também ator fez com que o trabalho partisse desse recorte pessoal e afetivo. “Não separo minha escrita crítica e minha produção acadêmica do meu lugar de enunciação, da minha existência e da minha identidade. O afeto entra aí como um aspecto da minha metodologia. Claro que é desafiador trazer a objetividade que a pesquisa pede, mas o afeto contribui para a profundidade do trabalho”, diz a autora.

REFLEXÃO 

Ao descrever a trajetória de Maurício Tizumba, a pesquisadora nos aponta características fundamentais não apenas no trabalho de seu pai, mas no teatro realizado por artistas negros de forma geral. Para isso, ela explica que a primeira parte do livro apresenta uma revisão bibliográfica sobre o conceito. “Convoco vários pensadores a refletir sobre nossas poéticas pretas. Trago para o diálogo Leda Maria Martins, Marcos Antônio Alexandre, Evani Tavares Lima, entre outros, que se dedicam há mais tempo”, diz Julia. 

Na segunda parte entram vida e obra de Tizumba. “Nessa parte há uma pequena biografia, junto com análise da performance e o mapeamento de tudo que ele participou atuando ou dirigindo nesses 49 anos de carreira”, diz a autora, que incluiu nesse trecho do livro diversas entrevistas com Tizumba e também com outros artistas, a exemplo de Sérgio Pererê. Por fim, a publicação ainda traz a íntegra de uma obra escrita por Tizumba: “O negro, a flor e o rosário”.

“O livro é mais que uma biografia da vida do artista Tizumba. É uma análise da performance dele no teatro. Ele é um artista plural, transita pela música, pelo audiovisual, mas, no livro, procuro trazer para a discussão como os saberes adquiridos nas manifestações religiosas, de cultura popular, desde a infância, configuram saberes técnicos da performance artística dele”, argumenta Julia. A pesquisadora ressalta que “ambientes como o congado e o candomblé são redutos de saberes e conhecimentos. Nos rituais são transmitidos esses saberes e essas técnicas”.

Nesta terça-feira (08/06), Julia Tizumba fará uma live, em sua página no Instagram, para lançar o livro e comentar a publicação. Ela espera que o trabalho contribua para a igualdade almejada pelo teatro negro e que seja também uma fonte para outras pesquisas sobre o tema. “A minha história é a de muitas outras pessoas pretas que entram para a universidade. Fui uma das primeiras da minha família paterna a chegar na graduação e a primeira a chegar na pós”, relata. 

“Por mais que pessoas pretas sejam a metade da população no Brasil, ainda é um país racista e desigual, e as universidades e as artes estão inseridas nesse contexto. O pensamento crítico e artístico ainda é muito embasado nos saberes europeus”, argumenta a autora, alertando que esse cenário só será transformado à medida que mais pessoas negras são incluídas na academia para compartilhar seus conhecimentos.

“Eu ganhei meu título de mestra contando sobre o meu mestre. Meus mestres são os mestres da rua, da vida e da cultura popular. Claro que trocamos saberes em todas as instâncias, mas meus maiores mestres estão na minha família e muitos deles não tiveram a oportunidade de vivenciar uma educação formal”, diz ela. 

“Maurício Tizumba: caras e caretas de um teatro negro performativo”
Júlia Tizumba
Editora Javali (160 págs.)
R$ 40,50 (valor promocional de lançamento); R$ 45 (valor de capa após o lançamento)
Live de lançamento nesta terça-feira (08/06), às 20h, no Instagram (@editorajavali e @juliatizumba)


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