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Estado de Minas FOI RUIM, MAS FOI BOM

Apesar de sem graça, Oscar avança na meta de valorizar a diversidade

Anticlimática, cerimônia adaptada à pandemia teve baixíssima audiência. Mas Hollywood avançou, premiando mulheres, negros e estrangeiros


26/04/2021 16:16 - atualizado 26/04/2021 19:23

A atriz Frances McDormand e a diretora Chloe Zhao, de 'Nomadland', vibram com o prêmio de filme (foto: Chris Pizzello / AFP)
A atriz Frances McDormand e a diretora Chloe Zhao, de 'Nomadland', vibram com o prêmio de filme (foto: Chris Pizzello / AFP)
O cineasta Steven Soderbergh quis fazer da cerimônia do 93º Oscar, que ele dirigiu, uma sessão de cinema. Mas TV é TV. Mesmo com roteiro, há coisas que fogem ao controle. Isto ficou claro já no início da apresentação, no último domingo (25/4), quando, depois de uma entrada triunfal na Union Station, percorrendo toda a extensão da estação de trem em Los Angeles, a atriz Regina King, ao chegar ao palco, tropeçou. “TV ao vivo, pessoal!” 

A atriz se saiu bem, muito melhor do que a sequência final da cerimônia. Meio mundo acreditava que o prêmio de melhor ator seria para Chadwick Boseman (1976-2020), que receberia um troféu póstumo por “A voz suprema do blues”. 

Ao deixá-lo como último prêmio da noite – fugindo à regra habitual de encerrar a premiação com a entrega da estatueta ao melhor filme – os produtores certamente queriam terminar a cerimônia de forma emotiva e com um recado para o mundo, que se chocou com a morte prematura do intérprete do super-herói Pantera Negra. 

Leia: Confira os vencedores do Oscar 2021, que mostrou mudanças em Hollywood

Só que o vencedor (com justiça) foi Anthony Hopkins por “Meu pai”. Na hora do anúncio, o ator britânico estava no décimo sono em sua casa, no País de Gales. Sem discurso de agradecimento, o Oscar 2021 terminou abruptamente em um grande vácuo. TV ao vivo, Soderbergh! 

O anticlímax, no entanto, não invalidou as várias vitórias de uma noite que, enfim, celebrou a diversidade, demanda recorrente não só da comunidade cinematográfica quanto do mundo. Como previsto, “Nomadland” tornou-se o grande vencedor deste ano, com dois troféus que eram dados como certos – melhor filme e direção – e um terceiro, justo, porém inesperado (atriz para Frances McDormand, que passou a fazer parte do exclusivo grupo de intérpretes com três Oscars).

Vencedora, Zhao é ignorada na China

cineasta chinesa Chloé Zhao tornou-se a primeira asiática a vencer na categoria de direção – e em 93 edições de Oscar, foi apenas a segunda mulher. "Pensei muito sobre como seguir adiante quando as coisas se tornam difíceis", disse ela em seu discurso. "Nomadland" é um drama baseado em fatos sobre pessoas sem casa que percorrem os Estados Unidos em caminhonetes e vivem de fazer bicos.

A celebração de Zhao só não foi a contento na China natal – ela se mudou para a Inglaterra na adolescência e radicou-se nos EUA desde que fez faculdade de cinema. Ao meio-dia desta segunda-feira (26/4), todas as publicações com o seu nome e a menção a "Nomadland" desapareceram da rede social Weibo, o Twitter chinês. 

A imprensa chinesa manteve silêncio sobre sua vitória. Recentemente, Zhao virou alvo de ataques de nacionalistas chineses nas redes sociais, que desenterraram entrevistas da diretora em que ela parece criticar o país.

Diversidade

A imprensa sul-coreana, por seu lado, celebrou a vitória de Youn Yuh-jung como melhor atriz coadjuvante por “Minari – Em busca da felicidade”. Foram várias menções nos jornais e redes sociais que destacaram o discurso do primeiro Oscar de atuação para o país. “Não há competição em nossa sociedade. Acabei de receber o prêmio porque tive um pouco mais de sorte”, resumiu a veterana atriz.

Mia Neal e Jamika Wilson foram as primeiras mulheres negras a receber o Oscar de cabelo e maquiagem e penteado, por “A voz suprema do blues”. Com a vitória de Daniel Kaluuya (“Judas e o messias negro”) como ator coadjuvante, ele entrou para o time de 16 intérpretes (número ínfimo em quase um século de premiação) negros a receber um prêmio de atuação.

Audiência baixa na TV

Os dados preliminares da audiência do Oscar nos Estados Unidos foram impressionantes. Para menos, diga-se de passagem. De acordo com a empresa de pesquisa de mercado Nielsen, 9,85 milhões de telespectadores americanos sintonizaram a TV para assistir à cerimônia. Isto representa uma queda de 58,3% em relação a 2020, que já havia batido recordes de audiência negativa. 

Como evento televisivo, o Oscar da pandemia funcionou para mostrar que a cadeia do cinema está ativa e que, em meio à crise abissal em decorrência da COVID-19, ela sobreviverá, apesar das marcas no caminho. Tinha que ser uma cerimônia sóbria, enxuta, tanto por causa dos protocolos sanitários quanto pelo clima geral. 

E assim foi, mesmo com alguns, poucos e bons, momentos de suspiro. Além da ausência de glamour e de celebridades que cercam, ano a ano, a cerimônia, o espectador teve que lidar ao longo de três horas com imagens de grupos de quatro pessoas sentadas à mesa, conforme foi a disposição da restrita plateia de 170 pessoas (os indicados, as equipes dos filmes e seus convidados) presente na Union Station. 

Sim, o espectador mais atento percebeu que havia ali o toque de cinema a que Soderbergh tinah se referido. A câmera muito próxima pegou com perfeição o momento em que Riz Ahmed deu um meio sorriso ao apresentar como vencedor do Oscar de melhor som o filme “O som do silêncio”, que ele protagonizou.

Soderbergh também explorou como pôde o cenário art déco da Union Station, com um “teatro” montado à meia luz, que garantiu uma experiência intimista, ao contrário das transmissões costumeiras de grande espetáculo.
Mas como segurar uma audiência diante de uma cerimônia que premia filmes que boa parte da população não assistiu? Porque, mesmo que vários concorrentes tenham sido lançados no streaming, a grande sala ainda é a principal tela do cinema. 

No Brasil, por exemplo, dois premiados da noite, “Nomadland” e “Bela vingança”, não estrearam. O longa de Chloé Zhao está previsto para estrear na próxima quinta-feira (29/4) – como em BH as salas continuam fechadas, ele deverá permanecer inédito por mais tempo na capital mineira. “Minari” estreou na semana passada – em outras capitais, não aqui. “Judas e o Messias Negro” só ficou em cartaz por duas semanas em BH, em fevereiro. 

Quem melhor resumiu o Oscar 2021 foi Frances McDormand, que, ao agradecer a estatueta de melhor filme (ela é também produtora de “Nomadland”) conclamou o público a “assistir ao filme na maior tela possível”. Para o Oscar continuar a ser relevante, o cinema tem que resistir. 

Pérola da festa


Confira momentos divertidos, inusitados e emocionantes nas três horas de cerimônia

Muito prazer, Sr. Pitt – “Onde estava quando estávamos filmando? Prazer em finalmente conhecê-lo, Sr. Brad Pitt”, disse Youn Yuh-jung em seu discurso de agradecimento pelo prêmio de melhor atriz coadjuvante (por “Minari – Em busca da felicidade”). Pitt, que anunciou o prêmio, é o produtor do filme.

Milagre do impossível – “Quisemos fazer um filme que comemora a vida e, depois de quatro dias de filmagem, o impossível aconteceu. Um acidente na estrada levou a minha filha (Ida, morta aos 19 anos). Ida, isso foi um milagre que acabou de acontecer e você faz parte desse milagre”, disse, chorando, o cineasta dinamarquês Thomas Vinterberg, ao receber o Oscar de melhor filme internacional por “Druk: Mais uma rodada” 
Glenn Close dançou e rebolou durante o Oscar 2021(foto: Reprodução da internet)
Glenn Close dançou e rebolou durante o Oscar 2021 (foto: Reprodução da internet)

Perdeu, mas ganhou – “Isso é ‘Da Butt’, uma música da banda EU (Experience Unlimited), que estava no brilhante filme de Spike Lee, ‘School daze’ (Revolução estudantil)”.  Glenn Close, aos 74 anos, havia acabado de perder o Oscar pela oitava vez. Mas ganhou a noite, ao terminar um jogo nonsense em que os convidados tinham que adivinhar se uma música antiga tinha levado ou não o Oscar. O texto estava no roteiro, mas o rebolado que a atriz fez até o chão, não. 

Ganhou, mas dormiu
– No Bafta, o prêmio nacional do cinema britânico, ele estava pintando quando foi anunciado que havia vencido a disputa de melhor ator. No Oscar, estava dormindo. Na manhã de segunda-feira (26/4), poucas horas após a cerimônia da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, Anthony Hopkins postou um vídeo agradecendo o prêmio pelo filme “Meu pai”. “Aos 83 anos, eu realmente não imaginava que ganharia”, afirmou o ator, que fez um tributo a Chadwick Boseman, “tirado de nós cedo demais”.


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