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Estado de Minas CINEMA

Documentário resgata o sambalanço, primo 'enjeitado' da bossa-nova

Filme de Fabiano Maciel e Tárik de Souza destaca a importância da música dançante dos anos 1960 criada por Ed Lincoln, Eumir Deodato e Orlandivo, entre outros


24/04/2021 04:00 - atualizado 24/04/2021 09:41

O pianista Djalma Ferreira levou o tiro considerado ''marco inauguraL'' do ritmo que nasceu no Rio (foto: Jorge Audi/O Cruzeiro/EM/D.A Press - 1956)
O pianista Djalma Ferreira levou o tiro considerado ''marco inauguraL'' do ritmo que nasceu no Rio (foto: Jorge Audi/O Cruzeiro/EM/D.A Press - 1956)

A intelectualização da bossa-nova cobrou um preço histórico ao existir, para muitos historiadores, com total protagonismo naquele lastro mais concentrado entre 1959 e 1964, a chamada primeira fase. Mas aos poucos, como arqueólogos em busca dos fragmentos de cidades perdidas, projetos e revisitações trazem o que também existiu no mesmo período, embora longe da superfície mostrada pelos jornais e louvada pelos próprios artistas.

Bem ao lado dos bossa-novistas, e mesmo entre eles, Ed Lincoln, Durval Ferreira, Orlandivo, Miltinho, Eumir Deodato, Claudio Roditi, Emílio Santiago, Wilson das Neves, Elza Soares e mais um punhado de gente estavam mais dispostos a fazer as pessoas dançarem em uma boate até as 4h do que passar dias em busca de acordes perfeitos e cantos ideais. Eram capazes de operar a magia da dança, cantando para pistas cheias de casais em passes frenéticos, e foi ela, a dança, quem, um dia, definiu por antecipação a própria música.

Uns o chamam de “corrente dançante da bossa-nova”, enquanto outros o enxergam como um contraponto a ela. O fato é que o sambalanço, movimento catalogado assim anos depois de surgir, nunca foi louvado enquanto representante da brasilidade legítima para exportação, apesar de o ser também. Tampouco ganhou linhas de análise dos pensadores e teóricos dos movimentos musicais.

Ed Lincoln, com seu órgão eletrônico, foi o ''Rei do Sambalanço'' (foto: Reprodução)
Ed Lincoln, com seu órgão eletrônico, foi o ''Rei do Sambalanço'' (foto: Reprodução)

PESQUISA

Seus clássicos, talvez pagando o preço por serem erguidos sobre dois ou três acordes “quadrados”, não passaram por festivais da canção nem foram alimentados por regravações. Estão ainda datados e seguem quase na condição de material de pesquisa.

Por tudo isso, por todas as histórias que consegue aprofundar, o documentário “Sambalanço, a bossa que dança”, baseado no livro do jornalista e pesquisador Tárik de Souza, se torna um documento importante, além de diversão degustada com bom humor. O filme está disponível nas plataformas Now, Vivo e Oi e será exibido, em 19 de maio, no Canal Brasil. Além do envolvimento de Tárik na realização do documentário, a direção é assinada por Fabiano Maciel.

Se fosse necessária uma gênese para a história, essas reduções que decantam muitos acontecimentos em um só ou muitos artistas em um grande pai, ela poderia ser retirada do dia em que o mais tecladista do que pianista cearense Ed Lincoln (1932-2012) foi intimado a correr para a boate Drink, no Leme, a fim de assumir o baile à frente da orquestra do pianista Djalma Ferreira (1913-2004).

Djalma havia levado um tiro, conforme conta o próprio Ed Lincoln na cena captada durante um raro show de reencontro de sambalancistas clássicos no Centro Cultural Banco do Brasil, em 2003.

“Não sabia nem como ligava aquilo”, ele diz, referindo-se ao órgão eletrônico que o esperava. Mas Ed foi, e o que se viu na pista foi incrível. Mais aplaudido do que o próprio Djalma e Seus Milionários do Ritmo, Ed foi ouvido pelo jornalista Stanislaw Ponte Preta, que voltou para a redação de seu jornal no dia seguinte com uma frase na cabeça: “O rei do sambalanço”.

HISTÓRIA

Djalma, é preciso fazer justiça, segue à espera de sua própria descoberta biográfica. Esse homem aprendeu piano e violino na Itália, andou pelas boates do Rio em companhia de Noel Rosa, fez história pelos cassinos cariocas, inaugurou boates no Peru e na Bolívia, tornou-se o primeiro músico brasileiro a possuir uma gravadora e partiu para a carreira em Las Vegas.

Mas sua vida, ainda por causa dos apagamentos de muitos em razão da luminosidade de poucos, segue sob os escombros.

De volta ao documentário, Ed Lincoln, agora uma sensação, forma seu próprio grupo, constelação que atrairia muitos nomes designados ao estrelado posterior. Os trompetistas Claudio Roditi (1946-2020) e Marcio Montarroyos (1948-2007), o guitarrista Durval Ferreira (1935-2007), o cantor Orlandivo (1937-2017) e o baterista Wilson das Neves (1936-2017) são alguns deles.

O álbum chamado “Nova geração do samba”, raríssimo hoje, com Paulo Silvino (que se tornaria humorista), Durval Ferreira e Orlandivo, também é lançado, com arranjos de Eumir Deodato. Eumir abre o filme devolvendo uma pergunta ao interlocutor Tárik: “O que é esse negócio de sambalanço?”.

Mais à frente, Eumir Deodato, de 77 anos, vai resumir sem querer aquilo que parece ter se tornado o elemento mais importante aos músicos que se banharam nesse rio. Depois da “experiência sambalanço”, ele produziu grupos como o americano Kool and the Gang graças à dimensão do conceito da dança no ato da composição.

“Produzi 'Celebration', do Kool and the Gang, por influência do Ed Lincoln. Ele me deu a noção da dança, algo que é o mais importante para um músico”, afirma Deodato. 
“SAMBALANÇO, A BOSSA QUE DANÇA”
• Documentário
• Direção: Fabiano Maciel
• Disponível nos serviços de streaming Now, Vivo e Oi
• Em 19 de maio, o filme será exibido no Canal Brasil


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