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Estado de Minas AUDIOVISUAL

"Streaming não é cinema", afirma o diretor americano Peter Bogdanovich

Cineasta lamenta que a nova geração tenha contato com filmes via plataformas, sem conhecer a tela grande. A arte cinematográfica depende de plateia, diz


22/03/2021 04:00 - atualizado 22/03/2021 09:01

(foto: Gabriel Bouys/AFP)
(foto: Gabriel Bouys/AFP)
Prestes a colocar o ponto final em um novo livro, “Five american icons” (“Cinco ícones americanos”, em livre tradução), sobre as mitologias cinéfilas em torno de Lauren Bacall, Kirk Douglas, Arthur Miller, Clint Eastwood e Jack Nicholson, o diretor Peter Bogdanovich admite haver algo de irônico com o fato de sua obra-prima, “A última sessão de cinema” (1971), completar 50 anos neste momento em que as salas exibidoras do mundo todo fecham suas portas.

“É a COVID, mas não só”, admite o cineasta nova-iorquino, de 81 anos. Ele prepara mais um livro: “But what I really wanna do is direct” (“Mas o que eu realmente quero fazer é ser sincero”, em livre tradução), uma espécie de diário com citações e anotações de sua carreira. Aliás, uma das carreiras de maior prestígio da chamada Nova Hollywood (ou Geração Easy Rider), ao lado de diretores que mudaram a maneira de se filmar nos EUA, entre 1967 e 1981, a partir do engajamento social, da cartografia das desilusões inerentes ao sonho americano e da ruptura com os ditames dos estúdios.

Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Brian De Palma, Elaine May e Steven Spielberg redefiniram a história, num casamento feliz (e raro) entre autoralidade e sucessos de bilheteria em série. Bogdanovich contribuiu com “Essa pequena é uma parada” (1972) e “Lua de papel” (1973). Mas foi “A última sessão de cinema”, o drama em preto e branco sobre a perda da inocência da juventude do Texas, em 1951, tendo uma velha sala de projeção como ponto de encontro, que mais lhe deu projeção na indústria. Dois Oscars de melhor coadjuvante, dados a Cloris Leachman e Ben Johnson (numa atuação antológica), imortalizaram o longa, que aniversaria agora, inspirando o debate que Bogdanovich considera doloroso (ou quase terminal) sobre o futuro da arte cinematográfica.

"Me parece perigoso que as novíssimas gerações estão descobrindo o cinema em plataformas digitais, nas quais a experiência de ver filmes é completamente diferente, feita em casa"

 

Qual é a sua maior preocupação em relação às finanças dos cinemas ao fim da pandemia?

Tenho um filme para dirigir ainda este ano, chamado “One lucky moon”, comédia ambientada em parque temático do Velho Oeste. Ele acabou adiado, pois tudo parou em Los Angeles, com o coronavírus, e pessoas da minha idade precisam ficar em casa. Mas o que me parece perigoso é que as novíssimas gerações estão descobrindo o cinema em plataformas digitais, nas quais a experiência de ver filmes é completamente diferente, feita em casa. Você não precisa ir a um lugar, pagar ingresso. Isso pode ameaçar o futuro do circuito, somando-se ao fato de que mais ninguém parece se interessar pelos clássicos, por Howard Hawks, por John Ford, diretores cuja obra exige a força da tela grande.

Mas o senhor ainda parece fiel a esse passado, tendo participado do resgate recente de “O outro lado do vento”, de Orson Welles, e dirigido um documentário sobre Buster Keaton, “The great Buster”. O senhor não acha que o streaming pode ajudar a reviver essas lendas do passado do cinema?
Claro que pode, até porque os streamings têm muita coisa boa em sua programação. Mas eles não são cinema. É o mesmo quando me perguntam sobre as séries: 'As séries são boas? São importantes?' Caramba, eu fiz “Família Soprano”. Claro que elas têm coisas boas. Eu mesmo teria interesse em fazer mais uma. Mas não é cinema. Cinema é algo que depende de uma plateia. Uma plateia que se deixe comover.

Da mesma maneira como parte do público se comoveu com seu “A última sessão de cinema”, há cinco décadas?
Aquele filme mudou a minha vida, porque me deu a chance de ser alguém que as pessoas queriam escutar na indústria. Nunca penso no cinema dos anos 1970, nos EUA, como movimento ou revolução. Foi apenas uma troca de turno, uma passagem de bastão. Eu não andava com aquela turma, pois estava preocupado em entrevistar os velhos, os diretores dos anos 1930, 1940 e 1950 que estavam vivos, mas começavam a ser esquecidos. Queria filmar o meu tempo fiel ao passado. Ben Johnson, por exemplo, não queria fazer o filme.

Ele recebeu meu roteiro e reclamou do excesso de pala- vras. Era um ator que gostava da ação física e não de falar, não de tramas palavrosas. Precisei pedir ajuda a John Ford, que entrevistei na época. Ele procurou Ben Johnson e disse: 'Você quer passar a vida toda sendo o ‘escada’ de John Wayne? Então, faça o filme do garoto'. E ele fez. Eu disse a ele: 'Ben, se você fizer o papel de Sam the Lion, vai ganhar o Oscar'. Não deu outra.

Qual é o maior legado da geração dos anos 1970?
O realismo. O cinema, com a gente, atenuou seu escapismo por um tempo. Mas a principal mudança foi estrutural. Os estúdios existiam para fabricar astros e estrelas. A gente apareceu para fabricar filmes. Antes da gente, as pessoas iam ver James Cagney, Humphrey Bogart. Conosco, a plateia ia ver “Lua de papel”.

O que esperar de seu livro “Five american icons”?
Muitas histórias que colhi ao longo de muitas entrevistas. O cinema anda em crise, mas as lendas o alimentam. 

Cybill Shepherd no filme 'A última sessão de cinema', que comemora seus 50 anos em 2021(foto: columbia pictures/divulgação)
Cybill Shepherd no filme 'A última sessão de cinema', que comemora seus 50 anos em 2021 (foto: columbia pictures/divulgação)

Retrato melancólico da América 

Há cenas de filmes que deixam marcas profundas na alma do espectador – não apenas as clássicas, como o assassinato no chuveiro em “Psicose” ou a porta que se abre no início e se fecha no final de “Rastros de ódio”. Mas imagens menores, que despertam uma certa melancolia e ficam guardadas na memória.

É o que acontece, por exemplo, no delicado “Houve uma vez, um verão” (1971), de Robert Mulligan, sobre a descoberta do amor por um adolescente, durante a Segunda Guerra. A trilha de Michel Legrand emoldura momentos de rara beleza, que culminam com a voz do narrador dizendo que nunca houve um verão como aquele.

AMOR


Do mesmo ano é “A última sessão de cinema”, de Peter Bogdanovich, uma sincera declaração de amor ao cinema, ao mesmo tempo em que exibe um retrato melancólico do american way of life, que então agonizava, filme inspirado no romance de Larry McMurtry.

Em um lugarejo do Texas nos anos 1950, o único cinema da região vai exibir sua última sessão antes de fechar. Ao mesmo tempo, um grupo de jovens da cidade, interpretados por Jeff Bridges, Timothy Bottoms, Cybill Shepherd e Randy Quaid, vive desilusões amorosas e ideológicas.

A televisão já atrai mais o público. E o derradeiro filme é um western clássico, “Rio Vermelho”, de Howard Hawks, com John Wayne. O filme dentro do filme é um épico, mas, no de Bogdanovich, a própria América parece estar morrendo. São pequenas vidas à deriva, sem perspectivas, que se misturam ao vento que leva o pó das ruas vazias.

Rodado em belíssimo preto e branco, o que carrega o tom de nostalgia, “A última sessão de cinema” estabeleceu em definitivo a reputação de Bogdanovich como grande diretor, além de garantir o Oscar de coadjuvante para Cloris Leachman (recentemente falecida) e Ben Johnson.

A cena final resume a melancolia ao mostrar a mulher passando a mão na cabeça do rapaz, o vento soprando, a cidade deserta, e ela repetindo: “Está tudo bem agora. Está tudo bem agora”.

Sucesso de crítica, “A última sessão de cinema” foi o único filme de nota na carreira de Bogdanovich (talvez valha lembrar também de “Lua de papel”). No entanto, o diretor se tornou um importante documentarista da chamada Idade de Ouro do cinema norte-americano.

Nos anos 1960 e 1970, quando grandes cineastas viviam um ocaso, esquecidos por público e crítica, Bogdanovich foi atrás dos principais, entrevistando-os para documentários que hoje se tornaram clássicos e imprescindíveis.

CORTA!


Uma das cenas se tornou icônica: Bogdanovich, então um iniciante promissor, entrevista John Ford, ícone do cinema dos EUA, perguntando-lhe sobre influências psicológicas na construção de personagens masculinos em seus faroestes. Impassível, Ford, que já era obrigado a usar tapa-olho por causa da cegueira progressiva, apenas respondeu, secamente: “Corta!”.

Mais que o inusitado da resposta (Ford fazia questão de revelar seu mau humor com perguntas), a cena demonstrava Bogdanovich em ação, algo significativo. Enquanto na época os críticos americanos endeusavam cineastas europeus, como Godard e Antonioni, ele, gravador em punho, buscava os velhos mestres, como Ford, Howard Hawks e Alfred Hitchcock, que praticamente desenvolveram quase tudo da linguagem cinematográfica.


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